Na pandemia

Qualidade da água do Tietê melhora com menos veículos e lixo nas ruas

“Tivemos uma redução forçada especialmente no deslocamento individual. Isso já trouxe uma melhoria importantíssima na qualidade da água”, analisa geógrafo da USP

Rovena Rosa/EBC
Para geógrafo da USP, estudo evidencia que "com menos certos tipos de atividade econômica, especialmente o deslocamento, é possível ter uma qualidade de água melhor"

São Paulo – Um estudo da Fundação SOS Mata Atlântica divulgado nesta terça-feira (22), Dia do rio Tietê, constatou que mudanças de comportamento da sociedade por conta da pandemia da covid-19 acabaram reduzindo a poluição da bacia. Houve uma melhoria da qualidade da água em vários trechos do Tietê que são monitorados pela Fundação. Dos 83 pontos de coleta – distribuídos em 47 rios de 38 municípios – a condição de água boa e regular se estendeu a 382 quilômetros. 

Isso representa 66,32% da extensão de 576 quilômetros do trecho monitorado. Ao todo, o rio conta com 1.100 quilômetros desde a nascente até a foz, conforme aponta o relatório Observando o Tietê 2020 – O retrato da qualidade da água e a evolução dos indicadores de impacto do Projeto Tietê. Em 2019, as amostras de 163 quilômetros foram consideradas ruins, índice que foi reduzido para 150 quilômetros, de acordo com o relatório. 

Por outro lado, segundo os especialistas, um trecho de 44 quilômetros, que corresponde a 4% da extensão do rio, não foi analisado por conta da pandemia. Situado entre os municípios de São Paulo e Barueri, a partir da ponte da Rodovia Anhanguera, esse é um ponto “bastante poluído” que “apresenta pouca variação na condição de qualidade da água nas séries históricas de monitoramento”. De acordo com a Fundação, se novamente fosse considerado com qualidade ruim, o trecho poluído aumentaria para 194 quilômetros, uma extensão maior que a do período do ano passado.

A Fundação SOS Mata Atlântica pondera, contudo, que de certa forma os dados devem ser celebrados. Desde 2010, “nunca tivemos qualidade de água boa nos reservatórios do Tietê em períodos de estiagem”. Além disso, mudanças de comportamento da sociedade, pressionadas pela pandemia, “contribuíram para a redução de poluição do rio”, destaca os especialistas. “Principalmente com a diminuição do lixo nas ruas e a fuligem de veículos”.

O estudo também indica que nenhum trecho monitorado foi encontrado em situação de péssima qualidade, frequentes no curso do rio. No ano passado, por exemplo, 18 quilômetros de água tiveram qualidade péssima.

Afrontar interesses 

Para o professor do Departamento de Geografia e do Programa de Pós-Graduação em Ciência Ambiental da Universidade de São Paulo (USP), Wagner Ribeiro, o relatório revela “a necessidade de revermos especialmente os deslocamentos nas metrópoles”. “É fundamental”, destaca em entrevista a Glauco Faria, do Jornal Brasil Atual.

“Tivemos uma redução forçada especialmente no deslocamento individual. Isso já trouxe uma melhoria importantíssima na qualidade da água. Se nós fizermos isso de maneira mais organizada, certamente, no curto e médio prazo, podemos sim ter um rio de melhor qualidade em São Paulo. E aí poderemos pensar em alternativas de uso do rio até como meio de transporte”, aponta. “Já percebemos que com menos certos tipos de atividade econômica, especialmente o deslocamento, é possível ter uma qualidade de água melhor e que é melhor para todos nós”, defende o professor da USP. 

Em sua análise, o estudo da Fundação SOS Mata Atlântica e outras pesquisas que vêm sendo realizadas provam que há evidências suficientes sobre o que fazer para melhorar a qualidade da água e do ar. O que também demanda “afrontar interesses econômicos, especialmente do setor de produção de automóveis e combustíveis. Uma batalha bastante dura”, lembra.

“Sabemos que mesmo no transporte por ônibus, os contratos são montados de maneira que resulta em um transporte de má qualidade, com gente apinhada. Tudo isso tem que ser revisto e já existem estudos que mostram que é possível fazer diferente sim”, finaliza o geógrafo.

Confira a entrevista

Redação: Clara Assunção. Edição: Glauco Faria