Envenenantes

Plantio de transgênicos dispara no agronegócio dos países da América do Sul

Por trás da expansão das lavouras de soja, milho e algodão geneticamente modificadas, está o aumento do uso de agrotóxicos, de contaminação e doenças

Lared21
Ato durante Marcha Mundial contra Monsanto e Bayer

São Paulo – As áreas agrícolas com lavouras geneticamente modificadas , os chamados transgênicos, dispararam nos países da América do Sul. E o Brasil está na dianteira da produção transgênica. Em 2019, o país já tinha 96 milhões de hectares plantados de soja, 15,8 milhões de hectares de milho e 1,4 milhão de hectares de algodão – somadas, as áreas equivalem à extensão da Colômbia

Na Argentina, o milho e o algodão transgênicos se espalham por 3,28 milhões e 450 mil hectares respectivamente. Já a soja modificada se espalha por 20,5 milhões de hectares

A produção paraguaia ocupa 3,4 milhões de hectares de soja, 1,01 milhão de milho e 10 mil de algodão. E no Uruguai, que planta apenas soja e milho, a área cultivada é de 1,1 milhão e 1,07 milhão, respectivamente.

Os dados são do Atlas do Agronegócio Transgênico no Cone Sul – Monocultivo, resistência e propostas do povo, lançado recentemente na Argentina pela Aliança Biodiversidade, plataforma que reúne 13 organizações e movimentos da região que atuam em defesa da biodiversidade.

Mapa dá a dimensão das proporções do cultivo transgênico. (Fonte: Atlas)

‘Guetos’ camponeses

“O Atlas mostra que a comida está sendo substituída por commodities, as florestas por lavouras, os núcleos camponeses por guetos. A água esta sendo envenenada e os núcleos de resistência são perseguidos e criminalizados. As leis estão sendo adaptadas, ajustadas, para tornar legal o que há 20 anos era inaceitável”, avalia o agrônomo Leonardo Melgarejo, integrante da Associação Brasileira de Agroecologia (ABA) e da Campanha Permanente contra os Agrotóxicos e pela Vida.

Ao contrário de reduzirem o consumo de agrotóxicos, conforme a propaganda, a publicação confirma que os transgênicos estão associadas ao aumento desses químicos. Isso porque a maioria da plantas são modificadas geneticamente para resistir exatamente a doses crescentes de agrotóxicos, usadas para compensar a resistência cada vez maior de muitas plantas e insetos alvos.

No Brasil, segundo o Atlas, o uso de agrotóxicos passou de 314 mil toneladas em 2000 para 887 em 2015.

Na Argentina, o uso de herbicidas aumentou em 1.279% em um período de 20 anos (1991 a 2011). Segundo o instituto argentino de tecnologia agropecuária (INTA), passou de 19,7 mil toneladas para 252,1. Os herbicidas correspondem a 75% de todo veneno usado no país.

No Paraguai não há registros do uso desses produtos, mas sim da quantidade que entrou no país. Em 2000 foram registrados 3.507 toneladas. No ano seguinte, quando começou a aprovação de transgênicos, a cifra subiu para 10.583 toneladas.

Na Bolívia, o uso triplicou: passou de 12 quilos por hectare em 1999 para 36 na atualidade. Isso equivale a 20 quilos por habitante em um ano.

No Uruguai, de 2000 a 2014, a área de cultivo de soja quadruplicou embora o volume de importação de agrotóxicos multiplicou-se por seis. O recorde foi 2014, com 4.650 toneladas.

Modelo predatório

O Atlas discute em profundidade a questão sócio-econômica e ambiental. O cultivo transgênico é um dos pilares do agronegócio predatório, que concentra terra e aumenta conflitos no campo e nem por isso resolvem a questão da fome, pelo contrário. Sem contar que os agrotóxicos utilizados nessas lavouras contaminam lençóis freáticos e aquíferos. E que ainda pouco se sabe sobre os efeitos da interação desses genes modificados com o ambiente.

E também reúne histórias de resistências e luta pela defesa da biodiversidade e da saúde. Afinal, esse incremento está diretamente associado ao aumento do número de casos de diversos tipos de câncer e malformações congênitas, entre outros problemas graves.

Entre elas, a das Mães de Ituzaingó, em Córdoba, na Argentina. A jornada contra a contaminação começou em 2002, quando começaram a perceber que a leucemia que matou seus filhos e as malformações que vitimaram tantas outras crianças tinham relação com os agrotóxicos despejados sobre as lavouras e sobre suas casas. No começo elas mapearam as doenças que aconteciam no bairro e, sem respostas do poder público, intensificaram o movimento contra as pulverizações de glifosato.

Em 2006, exames de sangue realizados na população do bairro de Ituzaingó detectaram a presença de agrotóxicos no sangue de 23 das 30 crianças. Da população de 5 mil habitantes em 2008, 200 tinham câncer. Surgiu também denúncias do crescente número de alergias respiratórias e cutâneas, espinha bífida, malformações renais, problemas de osteogênese e doenças neurológicas.

Apesar das dificuldades, elas conquistaram junto às autoridades uma medida de precaução que proibia fumigações em áreas próximas a suas casas, atrair pesquisas científicas e inspirar outros movimentos sociais.

Em 2016, depois de três anos de luta, afugentaram a Monsanto da cidade de Malvinas Argentinas, província de Córdoba. A multinacional desmontou sua planta de “acondicionamento” de sementes de milho transgênico, destinada à produção de biocombustíveis e alimentos, que estava sendo construída desde 2012.

Mães de Ituzaingó. (Foto: Atlas do Agronegócio Transgênico no Cone Sul)

Edição: Fábio M. Michel