Predatórios

Governo Bolsonaro ameaça biodiversidade de Fernando de Noronha por ‘ideologia e turismo’

Flávio Bolsonaro diz que a União vai “destravar” legislação para exploração do arquipélago. Governo de Pernambuco e pesquisadores criticam medida: “não tem embasamento científico nenhum”

Instagram/Reprodução
Medida foi anunciada por senador Flávio Bolsonaro e presidente da Embratur, Gilson Machado. Governo de Pernambuco diz que os dois "desconhecem capacidade de visitação de Fernando de Noronha"

São Paulo – O arquipélago Fernando de Noronha, em Pernambuco, um dos ecossistemas mais sensíveis e ricos em biodiversidade do país, pode ter sua vigilância ambiental afrouxada pelo governo de Jair Bolsonaro (sem partido) para dar lugar à exploração turística e comercial. A intenção foi confirmada pelo senador e filho do presidente, Flávio Bolsonaro (também sem partido) que, em vídeo publicado nas redes sociais nesta semana, afirmou que pretende que a entrada de cruzeiros  marítimos no arquipélago seja liberada. Ele disse ainda que já está atuando para “desatar os nós para que esses segmentos sejam melhor explorados”. 

Acompanhado do presidente do Instituto Brasileiro de Turismo (Embratur), Gilson Machado, os dois acrescentaram que o governo o plano inclui abrir as ilhas para navios de grande porte e instalar novos “recifes artificiais” na área – em um total de 12 pontos – para serem transformados em locais de mergulho. 

Desde 2001, no entanto, Fernando de Noronha é reconhecido e tombado pela Unesco como Patrimônio Mundial da Humanidade, por conta de suas belezas naturais e pela enorme biodiversidade abrigada em suas 21 ilhas. Há sete anos ainda que o arquipélago não recebe cruzeiros marítimos com regularidade, medida tomada para evitar ao máximo possíveis impactos ambientais. Hoje, o acesso de embarcações e de turistas é controlado pelo Instituto Chico Mendes da Biodiversidade (ICMBio), mediante cobrança de taxas de manutenção aos visitantes.

Em resposta, o governo de Pernambuco, reagiu com críticas à intenção do governo manifestada pelo filho do presidente Bolsonaro. Por meio de nota, o secretário estadual de Meio Ambiente, José Bertholi, afirmou que o atual governo “desconhece os limites de capacidade de Fernando de Noronha e as consequências de colocar na ilha mais de 600 pessoas de uma só vez, como acontece no casos dos navios de cruzeiro”.

“Fica claro como os representantes do Governo Federal se ocupam muito mais em querer impor um tipo de visitação que não respeita a natureza do que focalizar sua energia em iniciativas que respeitam o meio ambiente ou que ofereçam melhores condições de vida aos moradores do arquipélago.”, apontou o secretário. 

À jornalista Marilu Cabañas da Rádio Brasil Atual, o docente e pesquisador da Universidade Federal do ABC (UFABC) Gustavo Muniz Dias analisou a intenção do governo como “bastante preocupante”. “Não tem embasamento científico nenhum para movimentos deste tipo em um santuário”, garantiu Dias, que é também doutor em ecologia e líder do grupo de Ecologia Experimental Marinha da UFABC. 

“Existe um plano de manejo da APA (Área de Proteção Ambiental) de Fernando de Noronha, mas já está se ultrapassando o limite de pessoas que podem visitar aquela região. A gente já está ultrapassando o que seria sustentável a longo prazo para o turismo”, adverte o pesquisador. 

Desde que assumiu, o presidente Bolsonaro tem o arquipélago como alvo. Ao jornal Folha de São Paulo, o secretário disse que, em 2019, o total de visitas passou dos 85 mil previstos pelo plano de manejo e a região recebeu ao todo 114 mil pessoas. 

Dias explica que um número ainda maior de turistas e cruzeiros só traria prejuízos ao arquipélago a ponto de descaracterizá-lo, aumentando o volume de lixo e a demanda por energia e água potável, indisponíveis nas ilhas de Noronha.

Ele ainda defende que a manutenção da taxa de visitação, por exemplo, já criticada por Bolsonaro, é fundamental para que o turismo ocorra de maneira sustentável, assim como a preservação das unidades de conservação. “Assusta a falta de conhecimento do governo. Há pesquisadores disponíveis para assessorar uma atitude que fosse realmente responsável, pensando na sustentabilidade, na sociedade, economia e ambiente. Mas não há qualquer interesse (do governo) em buscar essas informações, é algo quase que só ideológico, não tem interesse científico”, finaliza o doutor em Ecologia. 

Confira a entrevista na Rádio Brasil Atual