Bomba-relógio

Atingidos por barragens questionam Doria: que segurança tem a de Pedreira?

Em nota, movimento diz que obra incapaz de suportar primeira chuva forte levanta ainda mais suspeita. Projeto prevê 70% de terra socada e só 30% de concreto

Reprodução
Eixo da barragem em construção não tinha sistema adequado de drenagem e se rompeu

São Paulo – A direção nacional do Movimento dos Atingidos por Barragens (MAB) divulgou nota nesta terça-feira (3) em que reitera a insegurança que a barragem em construção em Pedreira (SP) oferece à população do município. O movimento destaca grave falha do projeto, que não previu um sistema adequado de drenagem no eixo do dique em construção, que não resistiu após forte chuva na noite do último sábado (30), que durou pouco mais de meia hora.

Barragem de Pedreira não resiste à primeira chuva de forte intensidade

O MAB questiona o governo de João Doria (PSDB) quanto à construção de uma barragem de 52 metros de altura que terá 70% de terra socada e apenas 30% de concreto, muito semelhante à de Brumadinho (MG), classificada como de alto risco – tem 27 pontos na escala que vai de 0 a 30 – pelo Conselho Nacional de Recursos Hídricos (CNRH),  a menos de um quilômetro das primeiras residências do bairro Ricci, e a pouco mais de dois quilômetros da região central. “Em caso de rompimento da barragem, o tempo estimado de alcance das águas é de um minuto nas primeiras casas e dois minutos do centro da cidade.”

Sobrecarga

Vinculado ao governo do estado de São Paulo, o Departamento de Águas e Energia Elétrica (Daee) fala em “sobrecarga nos sistemas de drenagem” causada pelo “alto índice de chuvas registrado nos dias 30 de novembro e 1º de dezembro (63,6 milímetros)”. E que por isso houve alagamento da estrada municipal Pio Selingardi, na altura das obras da barragem de Pedreira.

“As chuvas causaram sobrecarga nos sistemas de drenagem implantados nas obras, alagamento na região da construção do canal de desvio do rio Jaguari e da estrada Pio Selingardi, na altura da travessia de serviço no rio Jaguari, tecnicamente conhecida como “passagem molhada”. Vale ressaltar que passagens molhadas são vias provisórias, dimensionadas para uma vazão limite que, quando superadas, resultam em transbordamento”, afirmou o órgão em nota enviada à reportagem.

Quanto à demora na entrega de um plano de emergência – que havia sido prometido para abril – afirmou que a Resolução 34 da Agência Nacional de Águas (ANA), em seu artigo 3º, determina que os Planos de Segurança de Barragem (PSB) e de Ação de Emergência (PAE) devem ser finalizados antes do início do primeiro enchimento. E que estão em elaboração e “serão apresentados no prazo legal, antes do enchimento da represa”.

Ainda segundo o Daee, “ocorrências como esta são previstas no projeto de construção da barragem e não representam risco para a zona urbana do município”. E que o consórcio responsável pelas obras “realizou o alteamento em 50 centímetros de 150 metros da pista da estrada municipal Pio Selingardi, na altura das obras da barragem”. A intervenção já realizada, conforme o órgão, “contribui para reduzir o risco de alagamentos, como o registrado no domingo”.

Confira montagem a partir de imagem do rompimento da barragem de Brumadinho em 25 de janeiro, feito por movimento de moradores contrário à construção:

#barragemNao

Posted by Paschoal Loner on Sunday, November 17, 2019

Leia a nota do MAB na íntegra

Barragem de Pedreira: Mais uma tragédia anunciada?

Mesmo com forte apelo dos atingidos e atingidas por barragens, ONGS ambientais, inúmeras organizações sociais, parlamentares, e mesmo com o crime anunciado ocorrido neste ano em Brumadinho, o governo do estado de São Paulo insistentemente continua uma obra de barragem no município de Pedreira, no interior do estado, que pode ser chamada de uma bomba-relógio, pois a qualquer momento pode causar mais uma tragédia com impacto em milhares de pessoas.

O Movimento dos Atingidos por Barragens, que atua em mais de 20 estados, com quase 30 anos de história, questiona como pode ser feita uma obra que, na classificação de risco de 0 a 30 pontos – tem 27 pontos, quase o valor máximo de risco; acima dos 16 pontos o empreendimento já é considerado de alto risco, conforme a classificação do CNRH (Conselho Nacional de Recursos Hídricos).

O MAB  lembra que o barramento feito no local é de 70% de terra socada e apenas 30% de concreto, ou seja, muito parecido com a barragem de Brumadinho, que estourou em janeiro, apesar da barragem de Brumadinho ser de rejeitos da mineração e Pedreira de água.

Questionamos o governo do estado de São Paulo e todos os seus órgãos colaboradores: como ter coragem de fazer uma obra com 38 milhões de metros cúbicos de água, com 52 metros de altura, a menos de um quilômetro das primeiras residências dos atingidos do bairro Ricci, e pouco mais de dois quilômetros do centro da cidade? Em caso de rompimento, o tempo estimado de alcance das águas é de um minuto nas primeiras casas e dois minutos do centro da cidade.

Prova desse descaso e da falta de responsabilidade é que na primeira chuva, no último domingo dia 1º de dezembro, a obra já transbordou. Se a primeira chuva já fez transbordar águas por cima da obra, e está inviabilizando o acesso à água em bairros de Pedreira e Jaguariúna, o que poderá ocorrer com a conclusão do empreendimento? Qual será a segurança da população quando barragem estiver cheia?  

O Movimento dos Atingidos por Barragens, MAB, alerta a população de que a única via para que não ocorram mais crimes, como os ocorridos em Mariana e Brumadinho, é a organização popular e a forte pressão popular sobre as autoridades e as empresas.

Movimento dos Atingidos por Barragens