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‘Não tenho dúvidas de que o peixe é mais inteligente que eles’, ironiza Marília Arraes

Em transmissão no Facebook com o presidente Jair Bolsonaro, secretário da Pesca diz que o peixe, "como um bicho inteligente", quando "vê uma mancha de óleo sai de perto". Deputada do PT contesta inércia do governo Bolsonaro diante da tragédia ambiental
Publicado por Clara Assunção
12:47
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Reprodução

"Não tenho dúvidas de que o peixe e os animais marinhos são mais inteligentes do que eles para estarem fazendo esse tipo de informação", ironizou a deputada Marília Arraes

São Paulo – Em entrevista à Rádio Brasil Atual,  a deputada federal Marília Arraes (PT-PE) contestou a afirmação do secretário de Aquicultura e Pesca, Jorge Seif Júnior, de que os peixes não foram contaminados pelo óleo que atinge as praias do litoral do Nordeste. Durante transmissão ao vivo via Facebook realizada nesta quinta-feira (31) pelo presidente Jair Bolsonaro, o secretário disse, sem citar fontes, que foram feitos inúmeros testes, e que o Ministério da Saúde não registrou nenhuma notificação de problemas relacionados ao desastre ambiental.

Mas não é o que aponta, por exemplo, a Associação Mariostra na cidade de Porto de Pedras, faixa litorânea de Alagoas, que nesta semana denunciou que as manchas de óleo contaminaram toda a produção de ostras no local. Ao todo, 2.500 sementes que estavam em período de reprodução foram perdidas. Só em três praias do litoral norte baiano, pesquisadores da Universidade Federal da Bahia (UFBA) identificaram 38 peixes e mariscos com vestígios de óleo no sistema digestivo ou respiratório.

Ainda assim, de acordo com o jornal O Estado de S. Paulo, o governo Bolsonaro liberou a pesca de camarão e lagosta no Nordeste a partir desta sexta-feira (1º), “sem apresentar estudos técnicos que motivaram a decisão”, como destaca o periódico. Na transmissão ao lado de Bolsonaro, o secretário arrematou que “o peixe é um bicho inteligente, quando ele vê uma manta de óleo, ele sai de perto, tem medo”. O presidente ainda completou dizendo que “obviamente de vez em quando fica uma tartaruga na mancha de óleo, para não falar que ninguém fica. Um peixe e o um golfinho podem ficar, mas tudo bem, estamos fazendo o possível”.

“Não tenho dúvidas de que o peixe e os animais marinhos são mais inteligentes do que eles para estarem trazendo esse tipo de informação”, ironizou a deputada Marília Arraes aos jornalistas Marilu Cabañas e Glauco Faria, ressaltando que ainda não há resultados de pesquisas conclusivos, mas “a olho nu”, na carapaça de moluscos e crustáceos, notam-se vestígios de óleo, como mostram diversas comunidades locais.

“Temos observado que isso aconteceu e ainda precisamos esperar para ver até quando isso durará. É importante dizer, os voluntários, as pessoas que não têm preparo técnico, conseguiram retirar o grosso (do óleo). Aqui em Pernambuco foram quase duas mil toneladas de resíduos, mas fica ainda nos corais. Recife, minha cidade, se chama assim por conta dos arrecifes que cercam a nossa praia e a isolam do alto mar, e ainda ficou, em diversas partes do estado, um pouco de resíduo (de óleo)”, relata a deputada.

Os desastres ambientais não são coincidência

Bolsonaro ainda acrescentou em sua fala que as investigações prosseguem, mas o que se vê é o empenho nesse sentido das instituições federais de ensino superior, as mesmas que sofrem um contingenciamento em seus orçamentos. Para Marília, toda essa situação deixa a população ainda mais vulnerável, exposta aos riscos na retirada do óleo das praias, por ser um material altamente tóxico, e também pelos riscos da contaminação na hora de consumir esses alimentos.

Diante disso, a deputada ingressou com um requerimento e conseguiu assinaturas suficientes para que seja efetuada a transformação da sessão plenária em uma comissão geral na Câmara, que contará com todos os deputados para que as questões referentes à tragédia ambiental sejam apuradas e que o derramamento não seja uma realidade em outros lugares do país.

“Acredito que isso será resolvido em breve, com a ajuda ou não do governo federal. Mas a gente não pode deixar de ressaltar essa irresponsabilidade em relação a todos esses desastres ambientais que têm acontecido no Brasil. Não é coincidência. Não se pode dizer que é coincidência tudo isso ter acontecido justamente durante esse governo que tem uma política anticientífica, antiambiental, antidesenvolvimento do país e anti-soberania nacional”, destaca a parlamentar.

Confira a íntegra da entrevista