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Contestação

‘É infundado associar caiçaras da Jureia à especulação imobiliária’, alerta professora

Manuela Carneiro da Cunha, que acompanha há anos povos tradicionais que vivem na região, contesta artigo publicado neste domingo
Publicado por Clara Assunção
14:54
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Reprodução

"(Jovens) são pessoas que são da região e que estão se comprometendo a seguir o plano de uso tradicional", destaca professora

São Paulo – São “absolutamente infundadas” as alegações feitas por ambientalistas em artigo, publicado no jornal Folha de S.Paulo neste domingo (29), associando representantes da população tradicional local à especulação imobiliária da Estação Ecológica de Jureia-Itatins, no litoral de São Paulo. A análise é da antropóloga Manuela Carneiro da Cunha, professora titular aposentada da Universidade de São Paulo (USP) e professora emérita da Universidade de Chicago, nos Estados Unidos. Em entrevista à jornalista Marilu Cabanãs, da Rádio Brasil Atual, Manuela, que acompanha há anos os povos da Jureia, afirmou que “não procedem as acusações” feitas contra os casais caiçaras que construíram três casas na comunidade do Rio Verde.

“Tenho o maior respeito pelo Rubens Ricupero”, ressalta a antropóloga, referindo-se a um dos autores do texto, “mas os três jovens casais que ergueram essas casas na região do Rio Verde, primeiro, são descendentes de uma família que está nessa região, comprovadamente com documentos, desde meados do século 19. Eles têm vínculos muito fortes com o local. Um deles nasceu lá e os outros foram criados, e estão pedindo para serem parte dessa unidade de conservação. Estação ecológica, como é uma parte da Jureia, não impede a presença de humanos e, a questão mais importante, é que não são quaisquer humanos, são pessoas da região e que estão se comprometendo a seguir o plano de uso tradicional que a Associação dos Moradores e a Associação dos Jovens da Jureia elaboraram”, destaca Manuela.

O caso, alvo dos especialistas, veio à tona em julho, quando policiais ambientais cumpriram ordem da Fundação Florestal, por meio da Secretaria de Infraestrutura e Meio Ambiente do governo do estado de São Paulo, e demoliram duas  das três residências, sem mandado judicial e sob acusação de hostilidade por parte da comunidade que desde então vive com medo de ter o direito ao território perdido.

Mas, na análise dos articulistas, no entanto, “os invasores”, como chamam os jovens caiçaras, construíram as casas “sorrateiramente”, como “estratégia de se abrir áreas protegidas em busca de equiparação inexistente com índios e quilombolas, ou seja, prática que não encontra amparo na Constituição e afronta todas as negociações refletidas na legislação paulista”.

Manuela também contesta essa versão. De acordo com a professora, ao contrário do que sugere o artigo, os caiçaras não fizeram uma invasão, mas um “ato de desobediência civil” que já foi, inclusive, judicializado, com o direito à permanência da terceira casa construída, do comprovadamente caiçara Edmilson de Lima Prado, reconhecido pela Justiça. Na visão de Manuela, os autores do artigo parte de uma avaliação já superada de que as comunidades tradicionais seriam “inimigas” da preservação ambiental de um ecossistema, desconsiderada pela IUCN, a principal organização internacional ambiental que desde 2003 reconhece a permanência das comunidades tradicionais para conservação do meio ambiente.

“Isso não tem nada a ver, pelo contrário, com as tentativas de amputação de várias áreas de unidade de conservação que são feiras por outros motivos e populações, sobretudo pelo agronegócio”, reitera a docente. 

Acompanhe a entrevista