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Plano de Bolsonaro

Lula chama de ‘aberração’ ideia de transformar Angra em uma Cancún

A Juca Kfouri e José Trajano, ex-presidente diz que Angra "é bonita do jeito que tá, do jeito que o povo gosta". Conheça os problemas envolvidos na ideia de um presidente que despreza a preservação ambiental
Publicado por Cida de Oliveira, da RBA
12:56
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Arquivo/ICMBio

Localizada na Baía da Ilha Grande, entre Paraty e Angra dos Reis, a unidade engloba ilhas, ilhotas, lajes e rochedos

São Paulo –Em entrevista aos jornalistas Juca Kfouri e José Trajano veiculada pela TVT na noite desta quinta-feira (13), o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva não poupou críticas ao presidente Jair Bolsonaro (PSL). E chamou de “aberração” sua proposta de transformar Angra dos Reis em uma “Cancún”. “Eu, quando vejo o discurso de que vão transformar Angra dos Reis numa Cancún, é de uma aberração… Primeiro, porque turista vai falar: ‘mas em Angra tem usina nuclear’. Será que os magnatas que vão pra Cancún vão querer ir para um lugar que tem usina nuclear? Segundo, bando de… Eu não vou falar o que eu pensei”, criticou Lula.

Para o ex-presidente, “é preciso tomar cuidado”. “Angra é bonita do que jeito que ela tá, do jeito que o povo gosta. O que precisa, na verdade, é permitir que aquelas ilhas sejam utilizadas e visitadas pelo conjunto da sociedade brasileira”, defendeu. O município de Angra dos Reis está localizado no sul fluminense, ao norte de Paraty.

A “aberração” a que Lula se refere foi definida por Bolsonaro como “casamento entre o meio ambiente e o desenvolvimento”. Em evento de homenagem prestada ao atual presidente pela Federação das Indústrias do Rio de Janeiro (Firjan), em 20 de maio, ele anunciou a ideia.

“Por que a baía de Angra não pode ser nossa Cancún? Por que tem que ter lá uma estação ecológica, chamada Tamoios, onde nos 29 acidentes geográficos dali, a maioria ilhas, em um raio de um quilômetro, não pode ter nenhuma atividade humana?”, questionou Bolsonaro, que foi multado por pescar na estação ecológica Tamoios. A multa foi retirada este ano pelo Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis (Ibama). O agente que fez a autuação foi punido. Perdeu o cargo para o qual havia sido promovido.

Problemas

Cancún é uma cidade localizada no México, em uma península que se tornou um dos mais conhecidos centros turísticos do país. Seu projeto exigiu investimentos em infraestrutura para receber a rede hoteleira. Na propaganda, é um empreendimento que conseguiu preservar suas belezas naturais e sua cultura ancestral, representada por locais pertencentes aos maias, fundados muito antes de Colombo chegar à América, em 1492.

Mas não é bem assim. “Já existem alguns problemas ali, pois o turismo em Cancún é muito impactante para os biomas. Era de esperar de um ministro do Meio Ambiente advertisse o governo sobre riscos que um projeto assim representa para a região de Angra”, afirma a servidora aposentada do Ibama Elizabeth Eriko Uema, atualmente dirigente da  Associação Nacional dos Servidores da Carreira de Especialista em Meio Ambiente (Ascema). A entidade representa servidores do Ibama, ICMBio e do próprio Ministério.

Localizada na Baía da Ilha Grande, nos municípios de Paraty e Angra dos Reis, a unidade gerida pelo Instituto Chico Mendes de Conservação da Biodiversidade (ICMBio) é constituída por 29 pontos geográficos, entre eles ilhas, ilhotas, lajes e rochedos e seus entornos marinhos e parcéis no raio de 1 km, o que representa 96,64% de área marinha e 3,36% de área terrestre.

Segundo declarou ao TSE, Bolsonaro tem uma casa na vila histórica de Mambucaba

Pela lei nº 6.902/81, sobre a criação de estações ecológicas, essas áreas não poderão ser reduzidas nem utilizadas para fins diversos daqueles para os quais foram criadas. Além disso, é proibida a presença de rebanho de animais domésticos de propriedade particular, exploração de recursos naturais, exceto para fins experimentais, que não importem em prejuízo para a manutenção da biota nativa, o porte e uso de armas de qualquer tipo, de instrumentos de corte de árvores e de redes para apanha de animais e outros artefatos de captura. Ou seja, tudo aquilo que Bolsonaro se esforça para revogar.

Não é novidade que o presidente que defende o fim da “indústria de multas” e é entusiasta da ideia ultrapassada de que a preservação ambiental trava o desenvolvimento – assim como seu ministro do Meio Ambiente Ricardo Salles. Tampouco que muitas vezes ele parece legislar em causa própria por meio de projetos que apresenta.

No início do mês, ele entregou ao Congresso Nacional projeto de lei que afrouxa as regras do Código Brasileiro de Trânsito. Entre outros itens, eleva de 20 para 40 pontos o limite para suspensão da Carteira Nacional de Habilitação (CNH). No final de abril, o jornal Folha de S.Paulo publicou reportagem sobre as multas de trânsito do clã Bolsonaro. Os jornalistas consultaram registros do Departamento de Trânsito do Rio de Janeiro (Detran-RJ) e descobriram, por exemplo, que sua mulher Michelle e o filho senador Flávio Bolsonaro cometeram infrações que superam o limite de 20 pontos permitidos por lei para o período de um ano.

De acordo com Tribunal Superior Eleitoral (TSE), o presidente possui uma casa na rua das Flores, 411, na vila histórica de Mambucaba, distrito de Angra, a poucos quilômetros de Tamoios. Além de tentar revogar a criação da estação ecológica, passando a permitir a caça e a pesca na região, que outras razões Bolsanaro teria para transformar o local em um movimentado polo hoteleiro?