Sustentabilidade

Carnes de laboratório são alento para os que lutam pelo direito dos animais à vida

Carne vermelha e branca obtidas de células-tronco e outras, de origem, vegetal avançam para ser a solução ao problema da vulnerabilidade e aos maus tratos que envolvem animais abatidos para consumo humano

Reprodução/Mosa Meat
hambúrguer de carne obtida de célula tronco

Desenvolvida em universidade holandesa, a carne desse hambúrguer foi obtida por meio de cultura de células-tronco. Nenhum animal teve de ser abatido

São Paulo – A cadeia de lanchonetes Burger King vai testar os hambúrgueres Incredible Burger (Hambúrguer Incrível) em 59 lojas da rede em Saint Louis, no Missouri, Estados Unidos. Fabricado pela Nestlé, o Incredible é voltado para o público americano que aboliu a carne animal de seu cardápio mas não vive sem esse tipo de sanduíche. Essa carne vegetal tem como base a proteína de soja e o trigo, e o extrato de beterraba, cenoura e pimentão para imitar a coloração do bife bovino. Maior empresa alimentícia do mundo, a Nestlé comunicou nesta semana que ainda este ano vai lançar uma linha de produtos veganos também em países europeus.

A Nestlé vai concorrer com a Impossible Foods, empresa sediada na Califórnia, que de 2011 para cá já produziu mais de 226 toneladas de carne vegetal na forma de hambúrguer, steak e almôndegas. Todos, segundo o fabricante, com cor, cheiro e gosto de um bife de origem animal. Tais características são obtidas com o uso de uma proteína chamada heme, rica em ferro, presente no sangue e em algumas plantas.

A empresa retira essas proteínas de raízes de plantas de soja e as multiplica por meio de fermentação. Nesse processo são utilizadas leveduras geneticamente modificadas (transgênicas). O heme da Impossible é aprovado pelo FDA, a agência que regula medicamentos e alimentos nos Estados Unidos.

Outro concorrente é a Beyond Meat, também sediada na Califórnia, que tem entre seus investidores o ator e ativista da causa ambientalista Leonardo DiCaprio e o criador da Microsoft, Bill Gates. A marca produz hambúrguer, linguiças, almôndegas e uma espécie de carne moída vegetal que vai muito bem em burritos mexicanos e outras receitas. As proteínas desses produtos vêm de ervilhas e feijões. Nenhum dos ingredientes contém organismos geneticamente modificados.

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Proteína do futuro

Autoproclamada “proteína do futuro”, a carne da Beyond é uma alternativa sustentável. Em sua pagina no Twitter, o astro de Hollywood comparou dados da produção do seu burger com um hambúrguer comum, produzido com carne bovina.

Segundo DiCaprio, há redução de 99% do uso de água, de 93% no uso de terra de 90% nas emissões de gases de efeito estufa responsáveis pelo aquecimento global, e de 46% no consumo de energia – uma alternativa e tanto à insustentabilidade da pecuária brasileira, que avança com suas pastagens sobre o pouco que sobrou do cerrado e a floresta amazônica, destruindo mata nativa e criando violentos conflitos pela terra. Sem contar que o arroto e a flatulência dos animais são constituídos de gases de efeito estufa. 

A demanda por energia está diretamente ligada a desequilíbrios socioambientais. Uma das formas mais baratas e usadas é energia elétrica, obtida em usinas hidrelétricas, que requerem a construção de barragens que impactam negativamente a população local, a fauna, a flora e os recursos hídricos.

Mais sustentável ao planeta, a alternativa é também mais amigável aos animais, que não terão de dar sua vida para que humanos tenham momentos de prazer gastronômico. 

Biotecnologia

Há ainda outras novidades, como as carnes obtidas em laboratórios. É o caso  da Memphis Meats, empresa de biotecnologia da Califórnia, nos Estados Unidos, que desenvolveu carne de frango a partir de células cultivadas em laboratório, sem o uso de ovos. Tampouco de galinhas. A expectativa é que essa “carne limpa” esteja no mercado em dois anos.

Na Holanda, a Mosa Meat vem desenvolvendo um hambúrguer produzido a partir de carne obtida de células-tronco de músculos de vacas. As pesquisas são conduzidas pelo professor de fisiologia Mark Post, da Universidade de Maastrich. Espera-se que em três anos esteja disponível no mercado, a preço acessível. E que no futuro sejam oferecidos filés, lombos e até asas de frango. Tudo produzido em laboratório, sem abate de animais.

A notícia é excelente para a população de veganos e vegetarianos, que cresce em todo o mundo, inclusive no Brasil. Pesquisa do Ibope divulgada em maio de 2018 mostra que 14% da população se declara vegetariana. Nas regiões metropolitanas de São Paulo, Curitiba, Recife e Rio de Janeiro este percentual sobe para 16% – um crescimento de 75% em relação a 2012, quando a mesma pesquisa foi realizada. O dado corresponde a quase 30 milhões de brasileiros, número maior que as populações de toda a Austrália e Nova Zelândia juntas.

“Já se sabe fazer hambúrguer em quantidades gigantes. Ainda não se sabe como fazer picanha, o cupim, os pedaços da carne especificamente. Não tenho dúvida de que vão chegar lá. Grandes empresários, bilionários como o dono da Microsoft, as grandes cadeias da indústria de alimentos estão investindo porque já perceberam que esta é a saída. Daqui a pouco não vamos mais discutir se tira a galinha ou bota na gaiola porque não teremos mais galinhas”, avalia a diretora técnica do Fórum Nacional de Proteção e Defesa Animal e médica veterinária Vânia Plaza Nunes. 

Esses avanços na produção de carnes de origem vegetal ou mesmo animal, por meio da biotecnologia, revelam um descompasso entre as tecnologias e a situação de grande vulnerabilidade devido aos retrocessos na garantia dos direitos à vida e ao bem estar animal em todo o mundo, principalmente no Brasil.

Quando já é possível usufruir desses avanços, o país ainda permite o cruel embarque de animais vivos em navios improvisados, para cruzar oceanos até chegar países distantes, como Turquia, Líbano, Egito e Jordânia, entre outros.

“Mesmo quem é vegetariano tem de defender que os animais sejam abatidos no país. Porque aqui, pelo menos, a gente pode cobrar fiscalização sobre o sistema de criação, sobre vacinas, insumos, transporte adequado, que sejam abatidos da forma correta. E o abate tem de ser feito aqui também por causa dos ganhos econômicos para o país”, destaca Vânia.

Avanços e retrocessos

Segundo a veterinária e ativista, todas as espécies que habitam o planeta estão vulneráveis, inclusive as da fauna marinha, que morrem asfixiadas ou com feridas em meio ao lixo plástico nos oceanos (assista vídeo no final desta reportagem). Tal situação se deve aos retrocessos, maiores que os avanços conquistados a duras penas, e geralmente movidos por interesses econômicos.

O fortalecimento do movimento de proteção e defesa dos animais, a partir de 2000, levou a pressões por legislação protetiva. Vieram projetos e leis contra a presença de animais nos circos no Brasil, contra uso em experimentos, vaquejadas, rodeios. “Tem até lei federal de 2017 determinando que os municípios têm de controlar suas populações de cães e gatos. Só não diz de onde vem o dinheiro”, destaca.

Tramita na Comissão de Assuntos Econômicos (CAE) do Senado a proposta que institui o Estatuto dos Animais. O Projeto de Lei do Senado (PLS)631/2015, de autoria do ex-senador Marcelo Crivella (PRB), atual prefeito do Rio de Janeiro, estabelece os direitos dos animais, define regras para a sua guarda e também trata da proibição de práticas consideradas como maus-tratos e de infrações e penalidades.

A tramitação deve causar muita polêmica. O projeto estava pautado para votação na comissão nessa terça-feira (2), mas houve pedido de vista. O relator na comissão, senador Plínio Valério (PSDB-AM), disse que seu voto favorável se restringiu a aspectos financeiros e orçamentários. O mérito será debatido na Comissão de Meio Ambiente.

Outro aspecto é o fato de o Brasil ser o segundo país com maior população de cães e gatos do mundo, perdendo somente para os Estados Unidos, o que abriu um grande mercado para medicamentos, vacinas e ração. Se é algo interessante para a economia não é para a diversidade de espécies, já que isso concentra as atenções, investimentos e políticas públicas. E a realidade e necessidades de outros grupos ficam fora do foco, praticamente invisíveis, se não forem atraentes para algum segmento empresarial.

Por isso Vânia acredita que o Estatuto dos Animais, se for aprovado, terá passado antes por uma série de emendas defendidas pelo lobby econômico. E que ainda há muito o que se discutir. Mas, em linhas gerais, fica a incerteza do peso de leis que foram intensamente discutidas e de maneira ética por muitos parlamentares e que deixaram de ser garantia de direitos.

“Nossa fiscalização é ruim e para piorar estamos vivendo um processo de desconstrução permanente. Haja vista que o ministro do Meio Ambiente (Ricardo Salles) – se é que pode ser chamado de ministro – está fazendo. Então a gente está voltando muito tempo para trás. O que esperar de uma pessoa dessa, que não tem ética, equilíbrio, bom senso?”

“E a gente chega onde chegou”, continua a ativista. “Temos aprovada uma  Emenda Constitucional (EC 96/2017) que não cumpriu o trâmite oficial, o regimento, e que certamente será alvo de questionamentos. E estávamos menos infelizes até a semana passada, quando o Supremo Tribunal Federal considerou constitucional o sacrifício de animais em rituais religiosos. E ainda teve ministro falando em práticas menos cruéis. Cruel é quando deliberadamente uma pessoa causa sofrimento a uma outra vida. Como é ser mais ou menos cruel?”, questiona a veterinária, lembrando que os animais são providos de consciência.

A emenda a que ela se refere estabelece que não são consideradas cruéis práticas desportivas que utilizem animais, desde que sejam manifestações culturais, conforme o parágrafo 1º do artigo 215 da Constituição, registradas como bem de natureza imaterial integrante do patrimônio cultural brasileiro. Essas atividades devem ser regulamentadas por lei específica que assegure o bem-estar dos animais envolvidos. No entanto, o Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan) não considera vaquejadas e rodeios como tal. “O que há é um comércio clandestino de compra e venda de cavalo, de cobertura de animais. É sempre assim. Por tanto se defender interesses escusos é que os animais estão pagando o pato.”

Em 7 de julho de 2012, especialistas de diversas áreas da neurociência reuniram-se na Universidade de Cambridge, no Reino Unido, para reavaliar os substratos neurobiológicos da experiência consciente e comportamentos relacionados a todos os animais, inclusive humanos. A conclusão foi a de que animais não humanos têm os substratos neuroanatômicos, neuroquímicos e neurofisiológicos dos estados de consciência, juntamente com a capacidade de exibir comportamentos intencionais. “Consequentemente, o peso das evidências indica que os humanos não são os únicos a possuir os substratos neurológicos que geram a consciência. Animais não humanos, incluindo todos os mamíferos e  aves, e muitas outras criaturas, incluindo os polvos, também possuem esses substratos neurológicos.” Ou seja, cada espécie é capaz de tomar suas próprias decisões.

“Quando a ciência reconhece isso, há um salto enorme. Até então se levava em conta que a linguagem era o ponto de distinção, que coloca os humanos no topo da cadeia, e depois os animais. Mas sabemos que há muito mais semelhanças entre humanos e animais do que diferenças. Por isso, questões humanas e animais não podem ser tratadas de maneira separada porque uma coisa reflete na outra. Do mesmo modo que há violência contra a mulher, o idoso, as crianças, há contra os animais. Vemos então o quanto retrocedemos no marco civilizatório, quando caminhávamos a passos lentos para criar leis que protegiam. E agora a gente vê que não adiantou nada, porque existe uma omissão individual, dos governantes, onde as pessoas olham só para o seu umbigo. E chegamos onde estamos.”