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Córrego do Feijão, uma tragédia da qual ainda não se tem a real dimensão

No dia do rompimento da barragem da Vale, pessoas saem às ruas em estado de choque, perplexas, entorpecidas em meio ao caos
Publicado por José Antônio Bicalho, para O Beltrano
15:29
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Isis Medeiros
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Paisagem desoladora: uma comunidade engolida pela lama em segundos após o rompimento

O BeltranoO vilarejo parecia um grande velório. Não havia os gritos de desespero nem o choro convulsivo que eu esperava encontrar em uma zona de guerra arrasada. O que se via eram pessoas atônitas com a notícia do desaparecimento de tantos parentes, amigos e vizinhos, andando de lá para cá, se reunindo em pequenos grupos nas esquinas. Lógico que havia lágrimas, e muitas, mas não aquela energia de revolta que eu aguardava. Estavam todos em estado de choque, perplexos, entorpecidos.

E ao redor das pessoas havia o caos. No início da tarde, as poucas ruas do pequeno vilarejo de Córrego do Feijão se entupiram de carros de polícia, dos bombeiros, ambulâncias, caminhões, tratores e vans das TVs. No grande largo gramado em frente a igreja, no centro do vilarejo, havia o frenesi dos helicópteros decolando ou pousando a cada cinco minutos. Nas casas não havia água, nem luz, nem internet. E todos os moradores estavam nas ruas, buscando informações sobre os seus, consolando-se mutuamente.

Córrego do Feijão é muito pequeno. São apenas algumas dezenas de famílias distribuídas por meia dúzia de ruas. Para se chegar lá, vindo de Belo Horizonte, é preciso atravessar o maciço de montanhas do Parque Estadual da Serra do Rola Moça até o distrito de Casa Branca, que tem bom comércio e vários condomínios de sítios. Dali são mais onze quilômetros por estrada de terra até o povoado. A estrada se transforma em rua principal de Córrego do Feijão e é possível atravessar o vilarejo a pé em quinze minutos. Ali todas as famílias dependem, direta ou indiretamente, da mineração de ferro feita na montanha que lhes rodeia e lhes fecha o horizonte.

Nesta manhã do dia seguinte da tragédia, os números que dimensionarão o desastre ainda são imprecisos. Até a liberação da primeira lista de resgatados, no início da noite de ontem, com 183 pessoas, falava-se da possibilidade de morte de algo entre 250 e 300 pessoas. Mas só na lista de ‘empregados não contactados’, divulgada Vale nesta manhã, estão 413 pessoas. Hoje, torcemos para que os mortos sejam contados as dezenas, mas poderão ser centenas. Mas, mesmo sem a precisão da contagem dos mortos, já é certo que o rompimento da barragem do Córrego do Feijão se trata da maior tragédia humana provocada pela mineração no país, muito maior do que a ocorrida em Mariana, há três anos, quando morreram 19 pessoas.

Por uma coincidência, eu estava em Casa Branca na hora do acidente e, por isso, fui um dos primeiros jornalistas a chegar a Córrego do Feijão. Como estive também em Bento Rodrigues, o vilarejo arrasado pelo rompimento da mineradora Samarco há três anos, meu primeiro sentimento foi de alívio por ver que a malha urbana do vilarejo não foi atingida pela lama. Mas demora pouco para se entender porque a tragédia de agora é muito maior do que aquela outra.

Em Córrego do Feijão, diferentemente de Bento Rodrigues, as estruturas físicas de trabalho e permanência de trabalhadores estavam abaixo da barragem de contenção de rejeitos. O escritório administrativo, o refeitório, a oficina, o laboratório, o almoxarifado e todas as demais estações de trabalho estavam bem abaixo da barragem. E foram, todas elas, engolidas pela lama em segundos após o rompimento, não dando possibilidade de fuga a quase ninguém.

Em Bento Rodrigues, estas estruturas estavam acima da barragem, e por isso, as mortes dos onze trabalhadores se deram apenas entre aqueles que trabalhavam justamente na manutenção da barragem. Já em Córrego do Feijão, a morte veio para todos. É terrível imaginar que o acidente se deu na hora do almoço, em algum momento entre 12h30 e 13h, quando o refeitório, com capacidade para mais de 100 pessoas, deveria estar lotado. É terrível imaginar a lama matando as pessoas que estavam ali almoçando ou servindo.

Depois de arrasar toda a estrutura operacional da mina e de matar os trabalhadores, a lama correu vale abaixo, numa área rural, distante apenas 500 metros da área urbana de Córrego do Feijão. Nesse momento, ainda não se tem precisado o número de famílias, vítimas e imóveis atingidos, mas moradores dizem que na área havia algo próximo a 10 sítios e casas rurais. E mais a Pousada Nova Estância, um lugar requintado.

A pousada era frequentada por turistas a caminho do Museu Inhotim, de arte contemporânea, um dos maiores do mundo no gênero. Quem se hospedava ali eram os turistas que não queriam ficar em Belo Horizonte, que fica a mais de uma hora de distância do museu, nem na cidade de Brumadinho. A meio caminho entre BH e o museu, a pousada era opção para quem buscava pernoitar num lugar charmoso, bucólico e rural. O roteiro básico dos hóspedes era tomar o café da manhã e, na sequência, sair para o museu, com retorno no final da tarde. Por isso, nenhum hóspede figura entre as vítimas da tragédia. Os desaparecidos na pousada são o proprietário, sua esposa e filho e sete empregados e moradores do sítio.

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Abalo da tragédia: estado de choque, perplexidade e entorpecimento

Consegui conversar com três pessoas que viram a onda de lama de perto. Um trabalhador da área de lavagem de caminhões de transporte de minério da Vale e dois moradores da área rural atingida. Eles disseram mais ou menos o mesmo. O primeiro aviso veio do comportamento estranho e sensitivo dos cachorros e galinhas. Minutos depois, o rugido do arraste da lama. O que se enxergou primeiro foi uma grande nuvem de poeira sendo erguida ao longe. Em minutos apareceu a grande montanha de uma lama espessa, se dobrando em ondas sucessivas umas sobre as outras, quebrando árvores, arrastando pedras e tudo mais que lhe houvesse pela frente, mais altas que casas.

Wander Alves Rezende é o rapaz que trabalhava na lavagem de caminhões. Cochilava no dormitório depois do almoço na hora do acidente. Disse que acordou com o rugido e que correu para um morrote próximo, de onde viu a onda passar a poucos metros. Na sequência, conseguiu retirar da lama uma adolescente que, ele acredita, tenha quebrado as pernas. Cássia Oliveira morava em um sitio e a onda de lama passou a 100 metros da sua casa. Foi avisada do rompimento por telefone por uma vizinha. Correu com sua mãe e três sobrinhas para uma área mais alta nos fundos da casa, de onde viu a onda passar “levantando um poeirão, quebrando tudo, fazendo um barulho que entrava pelo ouvido, pelo peito, pela barriga”.

Se o drama humano provocado pela tragédia está colocado à vista nas ruas de Córrego do Feijão, mesmo sem que saibamos ainda o número exato de mortos, feridos e desabrigados, o drama ambiental ainda é uma incógnita. Em Mariana, a lama correu para o grande Rio Doce, matando toda a vida do rio até sua foz no Espírito Santo. Aqui em Brumadinho, a lama correu para o importante rio Paraopeba, tributário do São Francisco antes que este atinja a enorme barragem hidrelétrica de Três Marias. Segundo informações da Vale, repassadas pelo Corpo de Bombeiros, o que se rompeu ontem em Córrego do Feijão foram três barragens de rejeitos sequenciadas, que continham um total de 13 milhões de metros cúbicos de lama, o que equivaleria a um quarto do total do volume despejado pelo rompimento em Mariana.

Resta saber se a dimensão ambiental dessa nova tragédia será menor nessa mesma proporção. Pode-se matar alguém com 20 tiros, mas também com apenas um. Quantos metros cúbicos de lama será necessário para matar um rio como o São Francisco? Isso saberemos em breve.