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Redução dos reservatórios avança. São Paulo está perto de nova crise hídrica

Ambientalista afirma que desde as obras já feitas, até a falta de informações para a população, gestão Alckmin fez abordagem equivocada do problema de abastecimento na região metropolitana da capital

©Luis Moura/WPP/Folhapress
Cantareira crise hídrica São Paulo

Em estado de alerta, o volume do sistema Cantareira está próximo de um terço de sua capacidade e pode entrar em faixa de restrição nos próximos dias

São Paulo – Na última quarta-feira (25), os seis sistemas que abastecem a região metropolitana São Paulo apresentavam níveis de água armazenada piores do que em 2013, período que antecedeu a crise de abastecimento daquele ano. No reservatório Rio Claro, por exemplo, a diferença representa uma queda de 56,9%.

Em estado de alerta desde julho deste ano, o volume do sistema Cantareira está em 34,1% – 7,2% a menos do que o mesmo período em 2013, quando estava com 41,3% de sua capacidade. Caso continue em queda e chegue aos 30%, o Cantareira entrará em estado de restrição, o que permitirá a retirada de apenas 23 mil metros cúbicos por segundo do reservatório.

O Rio Claro é o que apresenta maior diferença de volume, comparado com o período que antecedeu a crise. No mesmo dia, em 2013, o sistema registrava 93,1% de sua capacidade. Agora está em 36,2%. Outra queda é vista no sistema Alto Cotia. De 87,6%, em 2013, o reservatório está, atualmente, com 42,9% – uma diferença de 44,7%.

Segundo os dados da Sabesp, os sistemas Guarapiranga, Rio Grande e Alto Tietê também apresentaram redução significativa em seus volumes: 28,6%, 15,2% e 7,8%, respectivamente.

Com a região metropolitana próxima de uma nova crise de gestão hídrica, o planejador ambiental Renato Tagnin explica que há três motivos para que São Paulo volte a passar pelos mesmos problemas que os de 2013 e 2014: as políticas elaboradas pelo governo de Geraldo Alckmin (PSDB), a falta de campanhas de educação e de informação para a população e a constante alteração de clima na capital.

Para ele, a discussão sobre novas crises hídricas não vai acabar enquanto a sociedade não mudar o modo de pensar. “Enquanto acharem que só obra resolve, sem olhar para o ambiente, nada muda. Depois do que vivemos em 2014, não tem mais desculpa para não se evitar uma crise”, critica ele.

Tagnin, que é consultor do Ministério do Meio Ambiente para a elaboração da Estratégia Federal de Gestão Ambiental Urbana, também afirma que um dos processos que agrava a crise hídrica é a falta de informação para a população. “Na crise de 2014, enquanto foi negada a sua existência, a pessoa abria a torneira e não encontrava água. Negar a crise com finalidade eleitoral é sacanear a população. O povo colaborou, reduziu o consumo, ou seja, existe um potencial de mobilização que não pode ser desprezada.”

O especialista também alerta para a mudança do clima na região metropolitana, como o aumento da estiagem no inverno e as precipitações de verão. “O avanço da urbanização e do desmatamento também é um dos motivos disso. A alteração da cobertura do solo reduz a umidade, aumenta a erosão e remove o ecossistema da Mata Atlântica, ou seja, acaba com a estabilidade da natureza. Poderemos ter períodos de estiagem em períodos de chuva e, quando chover, ter enchente e não servir nada para o abastecimento. A ilha de calor sobre a cidade rouba parte da chuva que deveria cair nas áreas verdes e dos reservatórios”, diz.

Tagnin alerta que a escassez reduz a qualidade da água, resultando em doenças para a população. Além disso, ele também conta que a crise faz as pessoas recorrerem à fontes não seguras, como caminhões pipa, nascentes e poços rasos. 

“A quantidade de água reduz, mas os poluentes continuam indo nos cursos da água, só que eles estão mais concentrados, já que há pouca água para diluir. Portanto, a qualidade piora cada vez mais. Mesmo que fique tirando água de um lado e jogue para outro. Você pega água da Billings, uma água suja, e coloca no reservatório Rio Grande. Ou seja, você piora a qualidade da água limpa. A crise hídrica tem uma face trágica”, acrescenta Renato.

Outro lado

A Sabesp esclarece que o abastecimento de água está normal em todas as cidades operadas pela Companhia. “Não há “crise hídrica” instalada ou próxima, conforme o título faz crer. De 2014 para cá, a Sabesp investiu R$ 6,8 bilhões em 36 grandes obras que garantem água nova para a capital e a Grande São Paulo, resultando em mais segurança hídrica no período de estiagem. Além das obras da interligação Jaguari-Atibainha e do novo Sistema São Lourenço, a Sabesp aumentou a capacidade de tratamento e também o  sistema flex, que interliga as represas e os reservatórios, podendo abastecer diversos locais com mais de um manancial. O consumo também é 17% menor que em 2013″, diz a empresa.
  
“A reportagem, que não ouviu a Sabesp, informa que, ao entrar em “estado de restrição”, a retirada de água no Cantareira será restrita a 23 mil litros por segundo. Caso tivesse procurado a Companhia, saberia que há um ano a Sabesp faz uma gestão eficiente dos recursos hídricos do Sistema Cantareira, retirando menos água do que o permitido pela outorga. Atualmente, a retirada permitida é de 27 mil litros por segundo, mas a Sabesp retira 23 mil litros por segundo. Esta gestão permitiu poupar, em pouco mais de um ano, 27,5% do volume útil do Cantareira, o equivalente à economia de 270 bilhões de litros de água. Não fosse esta gestão, o Cantareira não estaria hoje (28/09/18) com 33,8% de sua capacidade e, sim,  próximo ao seu limite, com apenas 6%”, acrescentam.