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Agronegócio: setor nada ‘pop’ e insensível aos apelos da população contra agrotóxicos

Atlas que será lançado nesta terça, no Rio, mostra que poucas e gigantescas empresas controlam a cadeia produtiva do setor e como o Brasil contraria movimentos mundiais, ao discutir o Pacote do Veneno
Publicado por Redação RBA
12:50
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CC 2.0 wikimedia
Atlas do Agronegócio

87 corporações com sede em 30 países dominam a cadeia produtiva do agronegócio. Impactos negativos começam na ameaça à saúde dos trabalhadores e chegam à mesa e ao corpo dos consumidores

São Paulo – Expansão das plantações de monocultura, além de 87 corporações do setor que possuem sede em 30 países orientam e dominam a cadeia produtiva e o uso do agrotóxicos pelo agronegócio. Esses são alguns dos dados apontados pelo Atlas do Agronegócio 2018, que terá lançamento oficial nesta terça (4), no Rio. O estudo é uma iniciativa das fundações Heinrich Böll e Rosa Luxemburgo e traz artigos e dados que mostram os vários ângulos – e problemas – da atuação do agronegócio no Brasil e no mundo. Segundo uma das organizadoras do estudo, Maureen Santos, o objetivo da pesquisa é desmistificar a falsa propaganda de que o “o agro é pop”. 

“O Atlas questiona essa propaganda, será que o agro é tão pop assim? É tudo assim como eles falam? O grande pop do agro é o glifosato“, questiona ela, ao lembrar da liberação do agrotóxico feita pelo Tribunal Regional Federal da 1ª Região (TRF-1), nesta segunda-feira (3). “A decisão da justiça a gente vê como uma tragédia“, acrescenta a coordenadora de Justiça Socioambiental da Heinrich Böll, à Rádio Brasil Atual.

Entre as 87 empresas, então gigantes do setor de bebidas e carnes, como a Coca-Cola, AmBev, JBS e a Unilever, incluindo também multinacionais de tecnologia como a IBM, a Microsoft e a Amazon, atraídas para a produção agrícola. “O Atlas traz esse elemento da concentração, como essas grandes empresas, na verdade são cada vez menores os número delas, e elas vêm concentrando de ponto a ponto e criando essa distância cada vez maior entre o produtor e o consumidor”, explica a especialista.

“Muitas vezes você acha que está comprando uma marca diferente, e na verdade são da mesma empresa. Essa falta de informação sobre aquele produto, a forma como ele é concebido, de onde ele vem, isso cada vez mais está distanciando o consumidor da origem do local em que ele é produzido”, diz ela.

reproduçãoAtlas Agronegócio
Atlas do Agronegócio: radiografia de um setor dominado por interesses pouco públicos

O Atlas possui tradução e adaptação dos artigos de uma versão em alemão, publicada no ano passado. Entre os textos nacionais, autores falam sobre a cadeia agroindustrial global, o lobby que atua junto à bancada ruralista, além da qualidade dos alimentos produzidos segundo esse modelo, e os conflitos por posses de terra no campo. “É uma discussão bem ampla até chegar na alternativa, com a agroecologia”, diz Maureen.

Bastante criticado no estudo é o chamado Pacote do Veneno, que busca flexibilizar as regras de regulação desses agrotóxicos do Brasil. “É muito ruim como o Estado está caminhando não para os interesses de cuidado com a população, ao contrário,  para interesses específicos de alguns setores industriais do agronegócio brasileiro”, critica.

Já entre as medidas elogiadas pela especialista estão o Programa de Aquisição de Alimentos, o Programa Nacional de Merenda Escolar e a própria Política Nacional de Agroecologia, que ela classifica como “momento importante dessa transição de um modelo para tentar resgatar a agricultura familiar e camponesa”. Ela destaca que, por meio dessas alternativas” é possível valorizar a qualidade dos alimentos e sua distribuição.

Ainda segundo Maureen, o mérito do projeto é mapear, em uma só publicação, dados do setor que passam sobre os temas de finanças, investimentos e maquinário; conflitos relacionados ao acesso à terra e à água; sementes e uso de fertilizantes no mercado de commodities; e o processamento de alimentos até a chegada à mesa dos consumidores.

“São 22 capítulos que mesclam essa relação da cadeia global industrial, mostra todo esse processo de concentração e como ele está enraizado na dinâmica brasileira do agronegócio”, diz.

A versão brasileira do Atlas do Agronegócio, na íntegra, pode ser encontrada no site da Fundação Heinrich Böll.

Ouça a entrevista na Rádio Brasil Atual: