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Sem reflorestamento, ações de combate à seca não têm efeito

Dos 5 mil quilômetros de extensão dos rios que formam o Sistema Cantareira, somente 1.190 quilômetros estão com a mata preservada. Nessas condições, uma área produtora de água tem muito menos condições de passar por um período de estiagem prolongado
por Rodrigo Gomes, da RBA publicado 12/02/2015 17h56, última modificação 12/02/2015 18h06
Dos 5 mil quilômetros de extensão dos rios que formam o Sistema Cantareira, somente 1.190 quilômetros estão com a mata preservada. Nessas condições, uma área produtora de água tem muito menos condições de passar por um período de estiagem prolongado
sos mata atlântica/reprodução
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SOS Mata Atlântica lança edital para plantio de 1 milhão de mudas para recuperar até 400 hectares de mata, promovendo conservação de 4 milhões de litros de água por ano na área do Cantareira

São Paulo – Sem um programa intensivo de reflorestamento, boa parte das ações para enfrentar a crise hídrica em São Paulo vai ter efeito reduzido, e o problema tende a se repetir com o passar do tempo, segundo afirmou a coordenadora da Aliança pela Água, Marussia Whateli, hoje (12), na Câmara Municipal, em reunião promovida pela Comissão de Meio Ambiente.

De acordo com um mapeamento por satélite feito pela Fundação SOS Mata atlântica, em parceria com Instituto de Pesquisas Espaciais (Inpe), somente 21,5% da área que compreende o Sistema Cantareira contam com cobertura vegetal. Dos 5 mil quilômetros de extensão dos rios que formam o sistema, somente 1.190 quilômetros estão com a mata preservada. O entorno de outros reservatórios estão em situação semelhante e implicados em outros problemas, como a poluição na represa Billings.

“Nessas condições, uma área produtora de água tem muito menos condições de passar por um período de estiagem prolongado como o que estamos vivendo”, explica Marussia. Sem vegetação, a água infiltra menos no solo, reduzindo o volume de água nos lençóis freáticos, que alimentam nascentes. Além disso, sem mata ocorre erosão do solo, cuja terra vai para os rios e, consequentemente, para os reservatórios. Isso reduz a capacidade de armazenamento, além de tornar a região mais propícia a enchentes.

Malu Ribeiro, coordenadora da Rede das Águas da SOS Mata Atlântica, ressalta que os planejamentos estratégicos de saneamento, como o Plano de Ação da Macrometrópole Paulista, produzido pelo governo de São Paulo, não contam com propostas de reflorestamento. “Nós encaixotamos nossos rios, poluímos nossas águas, destruímos a mata. E só pensamos em buscar água cada vez mais longe. É claro que em algum momento ficaríamos sem água”, afirmou.

Propostas

As ativistas fizeram suas ponderações após o professor e diretor do Centro Internacional de Referência em Reúso de Água da Universidade de São Paulo (USP) Ivanildo Hespanhol defender uma série de ações para enfrentar a crise, sobretudo voltadas ao tratamento de esgoto. Segundo ele, seria possível aumentar os atuais 16 metros cúbicos por segundo (m³/s) de esgoto tratado para 35m³/s sem realizar obras civis, somente com a mudança do sistema de filtragem atual para o sistema de membranas de ultrafiltração.

Prioritariamente, podemos ampliar o processo na estação de tratamento de esgoto de Barueri, dos atuais 4m³/s para 11m³/s. E levá-los para o Sistema Cantareira por uma rede de dutos que utilize o caminho do trecho Norte do Rodoanel Mário Covas. A obra toda levaria de dois a três anos”, explicou o professor.

Hespanhol defendeu que, com a ampliação do tratamento nas demais estações, essa água seja lançada nos reservatórios para posterior tratamento e fornecimento à população. E que ao longo do tempo o sistema pode ser melhorado, para que o esgoto seja tratado a ponto de ser potável novamente. “Temos tecnologia para produzir e certificar água potável. Em condições, inclusive, para fornecer à indústria farmacêutica, que exige um grau de pureza da água ainda maior do que para consumo humano”, afirmou.

O professor também propôs que sejam pensados sistemas de captação de água de chuva na região metropolitana, utilizando construções amplas como shoppings e estádios. Isso poderia garantir uma grande reserva de água, que poderia ser utilizada para consumo não potável. “Tem chovido intensamente na área urbana e essa água acaba correndo para os rios e córregos, que estão poluídos”, ponderou Hespanhol.

Já o professor doutor da Escola Politécnica da USP Nelson Rodrigues Nucci defendeu maior controle no adensamento populacional da região metropolitana de São Paulo, além de um efetivo controle de perdas na rede da Sabesp. Segundo ele, havendo controle da demanda, o aumento na oferta de água deve ser de 13 m³/s até 2035. Caso contrário, serão necessários mais 58 m³/s, o que levaria a uma insegurança hídrica ainda maior e à necessidade de se buscar água cada vez mais longe. Hoje a Sabesp produz 69 m³/s de água tratada para a região metropolitana.

Divergências

Os professores defenderam as obras propostas pelo governador Geraldo Alckmin (PSDB) – alterar a fonte de água dos bairros, redução de pressão, bônus, multa, transposição do rio Paraíba do Sul, trazer água do rio São Lourenço – e a atuação da Sabesp no enfrentamento da crise. “A Sabesp foi extremamente eficiente”, disse Nucci, para quem não havia condições de prever tamanha falta de chuvas.

A afirmação foi contestada pela coordenadora da Aliança pela Água. Ela analisa que a Sabesp agiu muito mais com preocupações políticas do que técnicas. “Não é que simplesmente chegou menos água nos reservatórios. Se retirou mais água do que entrava. A Sabesp desrespeitou a curva de aversão a riscos. Desde 2011 está havendo redução na afluência do sistema, mas só em fevereiro de 2014 se começou a reduzir a retirada de água”, disse Marussia.

Para Malu, é preciso ter cuidado para que as críticas à má gestão da Sabesp não sirvam de justificativa para defender a privatização do sistema. “Não se trata de privatizar a gestão. Quando criticamos, falamos de ter sido feita uma gestão política e não técnica, econômica e não social. É preciso pensar em uma agência reguladora com participação da sociedade”, defendeu a coordenadora da Rede das Águas.

O vereador Gilberto Natalini (PV), organizador do debate, fez coro com as ativistas. “Há, sim, responsabilidade do governo de São Paulo. Estavam sambando em uma nota só. Não há governo que acredite nas mudanças climáticas. E por isso não tomaram as medidas necessárias”, afirmou.

Já o rodízio de água, que pode ser adotado a qualquer momento em São Paulo, é visto com preocupação pelos especialistas. Isso porque com os dutos vazios, a água que vazou por fissuras no sistema da Sabesp pode retornar à rede, levando poluentes e contaminação. Hoje, a Sabesp perde até 30% da água produzida, segundo o Instituto Trata Brasil, ou 20%, segundo a companhia.

Um ponto em que todos os palestrantes concordaram é que vivemos um momento de incerteza. Projeções de que o sistema vai se recuperar ou que vai secar completamente são consideradas frágeis pelos especialistas. O Sistema Cantareira opera hoje com 6,7% da capacidade. “Uma certeza que temos é de que é preciso economizar água, fazer uma gestão responsável, esclarecer a população e investir em proteção e recuperação dos mananciais. A crise é grave, mas podemos passar por ela”, concluiu Malu.

Edital de reflorestamento

A Fundação SOS Mata Atlântica prorrogou para 7 de agosto deste ano edital para seleção de áreas prioritárias para a restauração florestal da Mata Atlântica – por meio do qual a entidade pretende plantar 1 milhão de mudas – com propostas de conservação e proteção dos recursos hídricos do Sistema Cantareira. Por meio do programa Clickarvore, serão investidos até  R$ 2 milhões em propostas enviadas por pessoas físicas ou jurídicas, associações, Oscips ou ONGs ambientalistas e por proprietários de terras.