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Direção dos Correios quer reduzir plano de saúde, mas trabalhadores resistem

Sindicalistas tiveram reunião ontem com a presidência da empresa: 'Era para discutir o convênio médico, mas virou mais uma ladainha sobre o déficit financeiro, que sempre fala, mas nunca prova'
por Gabriel Valery, da RBA publicado 31/01/2018 17h10, última modificação 31/01/2018 17h37
Sindicalistas tiveram reunião ontem com a presidência da empresa: 'Era para discutir o convênio médico, mas virou mais uma ladainha sobre o déficit financeiro, que sempre fala, mas nunca prova'
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Correios fecharam seu balanço com um crescimento físico e financeiro de 13% em 2017

São Paulo – Trabalhadores da Empresa Brasileira de Correios e Telégrafos estiveram na noite de ontem (30) com o presidente da estatal, Guilherme Campos, para discutir o que os representantes dos trabalhadores chamam de processo de desmonte da ECT. Segundo eles, esse processo é sistemático, com fechamento de agências e redução de benefícios para os trabalhadores. Campos alega déficit constante nas contas e, para resolver, propõe alterar o plano de saúde dos funcionários.

“A reunião era para discutir o convênio médico, mas virou mais uma repetição da conversa de sempre. O presidente da ECT teceu sua ladainha sobre o déficit financeiro, que sempre fala, mas nunca prova”, afirma o Sindicato dos Trabalhadores da ECT e Similares de São Paulo (Sintect-SP). A ausência da comprovação do endividamento é uma das queixas dos trabalhadores. De acordo com a estatal, os Correios operam com caixa negativo em R$ 1 bilhão, mas o conteúdo das contas segue com confidencialidades, como afirmam os sindicatos da categoria.

O diretor de Relações Internacionais da Federação Nacional dos Trabalhadores em ECT e Similares (Fentect), Eduardo Marinho, diz que “faltam subsídios necessários para que entendamos de fato os números da empresa. Muitos dados são fechados. Pedimos alguns balanços financeiros e eles falam que são confidenciais. Para nós, é difícil. O que sabemos é que a empresa vem aumentando a arrecadação. Os Correios bateram recorde de entradas de encomendas neste fim de ano”, afirma.

Mesmo com a operação da empresa com o caixa negativo, em 2017, os Correios fecharam seu balanço com um crescimento físico e financeiro de 13%. O ministro da Ciência, Tecnologia, Inovações e Comunicações (MCTIC), Gilberto Kassab, afirmou à Agência Brasil que o resultado positivo é fruto de um programa de austeridade implementado pela gestão, e que para alcançar o equilíbrio nas contas será necessário alterar o plano de saúde dos funcionários, retirando familiares dos trabalhadores do benefício. “Impomos uma rigorosa recuperação e sua administração financeira foi melhorada”, disse.

Chantagem

Os trabalhadores dos Correios possuem uma média salarial das mais baixas do funcionalismo público. Cerca de 80% de seu pessoal recebe salários próximos, ou inferiores, aos R$ 2 mil. Por isso, os sindicatos que representam a categoria afirmam que retirar os familiares dos trabalhadores do plano de saúde será um grande golpe contra a qualidade de vida dessas pessoas.

Frente à reivindicação, o presidente Campos manteve sua postura severa sobre a necessidade do corte e subiu o tom. “Dessa vez, Campos foi mais longe. Fez terrorismo e chantagem ao afirmar que se não melhorar o caixa da empresa, entre os meses de abril e agosto poderá faltar dinheiro para o pagamento de impostos, fornecedores e salários”, afirma o Sintect-SP.

Marinho também expôs o ponto como central da reunião. “O presidente passou a visão dele sobre o fluxo de caixa com a perspectiva de que de maio a agosto a empresa não terá como honrar os compromissos com os salários dos trabalhadores sem ser desafogada do prejuízo financeiro”, disse.

Sanha privatista e reforma trabalhista

Outra queixa dos trabalhadores é a extinção do cargo de Operador de Triagem e Transbordo (OTT), anunciado pela empresa na última quinta-feira (25). A Fentect solicitou à ECT a suspensão da medida e convocou os trabalhadores a iniciarem um processo de mobilização em defesa do cargo. “Uma decisão tomada sem nenhuma discussão com os trabalhadores e seus representantes”, afirma a entidade em documento assinado pela secretaria-geral.

Para Marinho, a intenção do presidente, que é político de carreira, filiado ao DEM, é a “terceirização de todos os segmentos de operação de triagem e transbordo. Para nós, isso já é efeito da reforma trabalhista que vem com o processo de avanço da terceirização e enxugamento da máquina para justificar, futuramente, uma privatização ampla”.

O ministro Kassab, cuja pasta está acima dos Correios, não descarta processos privatistas localizados, mas afirma que não está em discussão no momento a venda da ECT. Para ele, algumas funções executadas pela empresa vão desaparecer “seja com privatização, parceria ou extinção. É natural que, com o passar do tempo, foram mudando o seu objetivo (os Correios). Há alguns séculos, entregavam cartas, hoje ainda entregam muitas cartas, ainda é a principal fonte de receita, mas cada vez mais temos outras atividades importantes, como por exemplo, a logística”, disse.