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Pelo Brasil

Greve geral de 28 de abril já está na história, mas promete desdobramentos

Movimentação de dimensão nunca vista tomou todo o território nacional, com centenas de categorias que cruzaram os braços nos 26 estados e no Distrito Federal, dispostas a barrar as reformas de Temer
por Redação RBA publicado 28/04/2017 19h58, última modificação 28/04/2017 22h19
Movimentação de dimensão nunca vista tomou todo o território nacional, com centenas de categorias que cruzaram os braços nos 26 estados e no Distrito Federal, dispostas a barrar as reformas de Temer
Jornalistas Livres
Viaduto do Chá

Viaduto do Chá, na região central de São Paulo, normalmente muito agitada, amanheceu silenciosa neste 28 de abril

São Paulo – A maior cidade da América do Sul amanheceu fria e diferente nesta sexta-feira, 28 de abril. Mas não foi só a capital paulista, onde linhas do metrô, ônibus e trens não circularam, estradas foram bloqueadas e avenidas trancadas. Por todo o Brasil, a união para muitos inédita do sindicalismo brasileiro e dos movimentos sociais, Frente Brasil Popular e Frente Povo sem Medo, junto a setores significativos da Igreja Católica e outros segmentos, conseguiu produzir um movimento de que não se tem notícia, pelo menos não desde 1917, quando ocorreu a primeira greve geral do país.

Conforme avaliação preliminar do Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST), uma movimentação de dimensão nunca vista tomou todo o território nacional, com centenas de categorias que cruzaram os braços nos 26 estados e no Distrito Federal, dispostas a barrar as reformas previdenciária, trabalhista e a terceirização. Foram realizadas marchas, piquetes, bloqueios de rodovias e atos culturais, alguns dos quais valendo-se da criatividade e do bom humor brasileiros, que o povo não abandona nem mesmo nas horas mais difíceis como a atual.

No meio rural, informou o MST, e também em algumas cidades, a entidade mobilizou sua base  "intensamente" em Mato Grosso do Sul, São Paulo, Pernambuco, Pará, Paraíba, Espírito Santo, Rio de Janeiro, Maranhão, Rio Grande do Norte, Paraná, Piauí, Bahia, Tocantins, Alagoas, Minas Gerais, Rio Grande do Sul, Distrito Federal, Santa Catarina e Goiás.

João Paulo Rodrigues, da direção nacional do MST, disse que a greve geral "conseguiu chegar ao conjunto da classe trabalhadora e, acima de tudo, fazer um grande debate sobre a importância da luta e da resistência contra as reformas do governo golpista de Michel Temer". Ele pediu ao Congresso Nacional sensibilidade e que pare imediatamente as votações das reformas que retiram direitos históricos dos trabalhadores e cidadãos. "Caso contrário, nós vamos convocar uma nova greve geral por tempo indeterminado." As centrais sindicais avaliam que o movimento de hoje irá pressionar o Planalto e o Congresso.

Enquanto isso, em Brasília, encastelado e acuado com a gigantesca rejeição de 92% dos brasileiros, o presidente Michel Temer continua como que alheado do país que diz governar, e disse que "não haverá recuos" nas reformas que pretende implementar.

Em entrevista à Rádio Brasil Atual, ainda pela manhã, o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva atribuiu o sucesso da greve a uma maior conscientização dos brasileiros sobre os impactos das mesmas reformas com que Temer está destruindo a nação. Para Lula, o movimento de hoje mostra a força do movimento sindical. "A greve teve adesão da dona de casa, dos trabalhadores do pequeno comércio. O movimento sindical e o povo brasileiro estão fazendo história", destacou.

Em entrevista à CartaCapital, antes mesmo de ser possível fazer um balanço  mais completo da greve, o presidente da CUT, Vagner Freitas, lembrou que senadores, como Renan Calheiros (PMDB-AL), têm afirmado que a reforma trabalhista tal como foi aprovada na Câmara não passará no Senado. Freitas anunciou a intenção dos trabalhadores de se reunir com senadores e líderes para conversar, mas também para avisar da disposição de "enfrentar todos aqueles que estiverem a favor dessa reforma". Mas, apesar da disposição de conversar, "nosso campo de batalha é a rua", avisou.

A fala do presidente da CUT sinaliza para uma constatação que tem sido feita por inúmeros ativistas, militantes, líderes e analistas, de que a greve geral deste 28 de abril não é um movimento que se extingue nem hoje, nem em si mesmo.

O coordenador da Frente Povo sem Medo e do Movimento dos Trabalhadores Sem Teto (MTST), Guilherme Boulos, por exemplo, alertou: "Caso os ouvidos de Brasília permaneçam surdos à vontade da maioria, mesmo com o forte recado de hoje, o país poderá entrar de forma mais profunda na rota do conflito social".

Raimundo Bonfim, coordenador geral da Central de Movimentos Populares e um dos coordenadores da Frente Brasil Popular, atribuiu a dimensão do movimento grevista ao envolvimento unitário e de grande amplitude dos movimentos populares no Brasil inteiro. "Nossa intenção é derrotar, de fato, as reformas (trabalhista e previdenciária)." Ainda antes da greve, na quinta-feira (27), Bonfim havia previsto que a forte unidade dos movimentos popular e sindical, das centrais sindicais, das frentes Brasil Popular e Povo sem Medo apontava para a possibilidade de que neste 28 de abril se realizasse "a maior greve da história do Brasil".

O sociólogo Laymert Garcia dos Santos considerou impressionante, na greve geral, a união e capacidade de organização de sindicatos, centrais e movimentos sociais.

Como se poderia esperar, todo esse gigantesco movimento no país inteiro foi vergonhosamente ignorado pela mídia tradicional brasileira, notória aliada e partícipe do golpe parlamentar que apeou Dilma Rousseff definitivamente do poder em 2016.

Porém, como observou Laymert, embora a Globo tenha, ontem, boicotado a greve, hoje de manhã "teve que fingir uma surpresa, de que tinha uma greve". Em nota divulgada à tarde, o MST também observou, sobre a questão midiática, que a repercussão do dia de greve geral no Brasil atingiu proporções internacionais.

"A hashtag #BrasilEmGreve se posicionou em primeiro lugar dos assuntos mais falados na rede social Twitter em todo o globo, desde as primeiras horas desta sexta-feira. Pronunciamentos de solidariedade chegaram de diferentes partes da América Latina, como Nicarágua, Panamá, Venezuela, Cuba e outros", disse a entidade. "Nem a grande mídia consegue esconder a indignação organizada da classe trabalhadora contra o governo golpista de Temer."