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"Não vamos dar sossego"

Governo não está 'nem aí' para a sociedade organizada, diz novo presidente da Contag

Aristides Veras dos Santos diz que prioridade será combater a 'reforma' da Previdência. Segundo ele, fim do MDA desarticulou políticas para o campo. Momento é de transição para agroecologia, afirma
por Vitor Nuzzi, da RBA publicado 17/03/2017 18h21
Aristides Veras dos Santos diz que prioridade será combater a 'reforma' da Previdência. Segundo ele, fim do MDA desarticulou políticas para o campo. Momento é de transição para agroecologia, afirma
Divulgação/Contag
Diretoria da Contag

Pela primeira vez, direção será paritária: seis homens e seis mulheres (Aristides é o quarto a partir da esquerda)

São Paulo – Aristides Veras dos Santos, 52 anos, nascido em Tabira, no sertão de Pernambuco, foi eleito na tarde de hoje (16) para a presidência da Confederação Nacional dos Trabalhadores na Agricultura (Contag), ao encerramento do 12º congresso da categoria, que pela primeira vez terá uma direção paritária com seis homens e seis mulheres. A prioridade imediata será o combate à "reforma" da Previdência, diz Aristides, com mobilização na perspectiva de "restabelecer a democracia em 2018". Segundo ele, os movimentos não darão sossego ao governo Temer, com o qual não há interlocução possível. "O diálogo dele é com o meio empresarial. Esse governo não está nem aí para a sociedade organizada", afirmou, pouco depois do final do congresso, realizado durante toda a semana em Brasília, com 2 mil delegados.

Com o fim do Ministério do Desenvolvimento Agrário (MDA) após o impeachment, houve desarticulação das políticas públicas voltadas para o campo e retrocessos. "Até agora, a gente não tem mais nada em relação ao Plano Safra. A política agrária ninguém resolve mais. O que estão fazendo é entregar as terras para vender aos estrangeiros", critica Aristides, que será empossado na presidência da Contag no final de abril. Ele destaca ainda o desinteresse do governo no combate ao trabalho escravo, problemas de crédito e na comercialização de alimentos aos pequenos agricultores. "Você não tem com quem tratar", diz.

No caso da Previdência, a implementação da mudança proposta pelo governo representaria a exclusão da maior parte dos trabalhadores do campo. "Não é reforma, é retrocesso, para toda a classe trabalhadora. Imagine ter de comprovar 49 anos (para a aposentadoria integral), você vai ter de nascer já com a carteira de trabalho." O combate à Proposta de Emenda à Constituição (PEC) 287 está sendo feito em cada domicílio eleitoral dos parlamentares. "Estamos dizendo aos deputados federais: vamos marcar cada um e fazer de tudo para que não seja eleito (em 2018)", afirma.

Nesta gestão, ele era secretário de Administração e Finanças da Contag. O atual presidente, Alberto Broch, assume a vice-presidência e a Secretaria de Relações Internacionais. Com a mudança, a confederação passa a ter um presidente vinculado à CUT, embora a entidade não seja filiada a nenhuma central. Broch é ligado à CTB.

Política social

Aristides lembra ainda o possível impacto, com a reforma, sobre a economia dos pequenos municípios brasileiros, dependentes de recursos vindos da renda da aposentadoria. "Essas cidades vão quebrar. E os jovens vão disputar emprego na cidade grande. Estamos matando toda uma política social conquistada nos últimos 14 anos, que ainda não é a ideal. A desigualdade é muito grande."

Uma das novidades da nova direção da entidade é a paridade de gênero. "Não é só dividir a direção, é mudar o comportamento", observa Aristides, acrescentando que o desafio, agora, é implementar essa política nas federações, além de efetivar cota mínima de 20% de jovens nas entidades e valorizar a participação da terceira idade na gestão.

É momento também de acompanhar um período de transição no campo, com visão mais agroecológica do processo produtivo. "Acho que esse é o grande nicho de mercado que a gente tem. É um dos grandes investimentos da Contag. Vamos precisar nos voltar muito mais para a produção agrícola, agroindustrialização da produção, fazer um debate mais amplo sobre assistência técnica", afirma. "O agronegócio produz para exportação e não para alimentar o povo brasileiro."

Agricultor familiar de origem, Aristides mantém a atividade em Tabira, em uma pequena propriedade mantida pelos pais e pelos irmãos. Militante de Comunidades Eclesiais de Base e da Pastoral da Juventude nos anos 1980, foi vereador pelo PT em sua cidade por dois mandatos e vice-prefeito. Há 30 anos, foi eleito presidente Sindicato dos Trabalhadores e Trabalhadoras Rurais do município. Ocupou a vice-presidência da CUT de Pernambuco e presidente da Fetape, a federação dos rurais no estado. Tem licenciatura em Letras. "O dirigente que não lê é um dirigente desinformado. Você tem de ler, ouvir, estudar, pesquisar", aponta.

No ano passado, durante a discussão do impeachment, Aristides envolveu-se em uma polêmica por causa de uma declaração sobre ocupações como forma de resistência. Foi, segundo ele, "uma fala forte em um momento bastante complicado da política brasileira", mas que possivelmente passaria despercebido em outra contexto. "Os adversários da presidenta aproveitaram. Mas violência foi tirar uma presidenta legítima e honesta. Violência é tirar direitos, congelar recursos públicos, entregar o pré-sal."