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Pesquisas tentam pôr fim à 'invisibilidade' de trabalhadores

Simpósio no 4°Seminário Internacional O Mundo dos Trabalhadores e seus Arquivos' permite trocar experiências sobre a investigação de documentos e mostrar o resgate de histórias que seriam apagadas
por Helder Lima, da RBA publicado 10/06/2016 08h37, última modificação 10/06/2016 17h06
Simpósio no 4°Seminário Internacional O Mundo dos Trabalhadores e seus Arquivos' permite trocar experiências sobre a investigação de documentos e mostrar o resgate de histórias que seriam apagadas
Cléo Velleda/Folhapress
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Cortadores de cana: “É preciso tirar esse problema da invisibilidade”, diz a pesquisadora Tainá

São Paulo – Vem o inverno e os moradores de rua até podem receber ajuda solidária, de entidades humanitárias e grupos voluntários, mas isso não muda sua condição, marcada pela "invisibilidade" – a pessoa é ignorada nas ruas, vítima de uma atitude que está naturalizada na sociedade. Da mesma forma, enquanto a mídia e entidades ambientais defendem o uso do etanol para reduzir os impactos ambientais dos automóveis, cortadores de cana-de-açúcar, muitos deles migrantes que trabalham na safra desse combustível, adoecem entre dez e 15 anos de atividade, exauridos por um ritmo cruel e desumano, assentado na forma de pagamento por produção.

"É preciso tirar esse problema da invisibilidade", diz a pesquisadora Tainá Reis de Souza, doutoranda da Universidade Federal de São Carlos (UFScar). Segundo dados que ela cita de outros estudos, um cortador desfere cerca de 3.500 golpes por dia, trabalhando com frequência cardíaca de 200 batimentos por minuto, e com queima de 3.500 quilocalorias, o que o obriga a ingerir oito litros de água durante esse processo.

"Os cortadores perdem sais minerais, sofrem cãibras no corpo inteiro com frequência, às vezes a cãibra é tão forte que chegam a urinar e defecar e há até casos de morte por exaustão", afirma a pesquisadora, destacando que o ciclo de abraçar a cana e golpear o facão consome apenas 5 segundos para que a produção do cortador seja elevada ao máximo. "O aumento da produção depende da capacidade física, de quanto consegue colocar seu corpo à prova", afirmou. Ela diz também que a mecanização do corte nas usinas não chega a pôr fim na necessidade do corte manual, ou porque há áreas que a máquina não alcança ou por outra razão.

Tainá apresentou a experiência de sua pesquisa ontem (9), em um encontro com pesquisadores de diferentes universidades do país, que investigam problemas de gênero, raça e classe social no cotidiano dos trabalhadores. O encontro foi realizado durante o segundo dia do 4° Seminário Internacional o Mundo dos Trabalhadores e seus Arquivos: Memória, Verdade, Justiça e Reparação, no Sindicato dos Químicos de São Paulo. O seminário é promovido pela CUT e pelo Arquivo Nacional, do Ministério da Justiça, desde quarta-feira e termina hoje (10).

"Nas pesquisas surgem as dificuldades que os trabalhadores passam no capitalismo, a gente sabe que é um mundo absorvido pela exploração", afirma a coordenadora do encontro, a pesquisadora Lorena Almeida Gill, da Universidade Federal de Pelotas, onde atua com o Núcleo de Documentação Histórica. O núcleo mantém acervos sobre o mundo dos trabalhadores, como uma documentação da Justiça do Trabalho com 100 mil processos trabalhistas entre 1941 e 1995, e todo o acervo da Delegacia Regional do Trabalho do Rio Grande do Sul, entre as décadas de 1930 e 1960. Há ainda o acervo da Laneira Brasileira S.A., indústria de lã fundada em 1945 em Porto Alegre e transferida para Pelotas em 1948.

"Invisibilidade. É isso o que eu senti porque os ferroviários desapareceram da história local, porque a Rede (Rede Ferroviária Federal S.A.) foi privatizada", disse a pesquisadora da Universidade Estadual de Ponta Grossa, Rosângela Petuba. Ela contou que a paranaense Ponta Grossa era uma cidade profundamente identificada com a categoria dos ferroviários, mas que com o processo de privatização da empresa iniciado por Fernando Collor em 1992 e levado a cabo pelo governo de Fernando Henrique Cardoso toda a documentação histórica da empresa não pôde ser mais encontrada. "Os marcos da presença dos ferroviários na cidade vão se tornando invisíveis", disse, depois de destacar que a cidade tinha também escola, cooperativa, time de futebol e hospital ligados a esses trabalhadores. "Collor na tevê chamou os ferroviários de vagabundos", lembrou.

Para preservar a memória dos trabalhadores face ao poder destrutivo do processo de privatização, Rosângela teve de optar pela busca de fontes orais, retomando trajetórias individuais e coletivas. Ela também consultou atos da Câmara Municipal para identificar e preservar o modo de viver dos ferroviários. "A elite do passado se tornou o inimigo a ser abatido", afirmou a pesquisadora, sobre o contexto em que os funcionários públicos passaram a ser demonizados pela mídia.

"Vícios de pobreza"

Em uma investigação sobre o período do fim da escravidão e o pós-abolição na cidade mineira Mariana, a historiadora Marileide Cassoli, da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG), ao buscar informações sobre proprietários de terra encontrou em Belo Horizonte autos de corpo de delito da Chefia de Polícia, envolvendo mulheres por motivo de defloramento. "E todas eram afrodescendentes, voltadas ao serviço doméstico", disse Marileide. Debruçada sobre a documentação, ela mapeou a vivência de algumas dessas mulheres, histórias que ela define como de "múltiplos retratos no contexto de uma conduta moral sobre o corpo feminino".

Segundo a pesquisadora, as mulheres ex-escravas eram submetidas a uma visão de que não tinham capacidade para lidar com a liberdade. Pela análise que fez do arquivo, a pesquisadora pôde identificar como a educação naquele momento era pautada pelos valores morais das elites. O código penal de 1890 estabelecia penas diferenciadas para o ato de violência contra mulheres. "Tratava-se de controlar a vadiagem e a mendicância e conduzir para o mercado de trabalho", diz Marileide.

Em uma sociedade moldada por "costumes ordeiros", as raparigas, como eram chamadas, não se adequavam a esses modelos. "Traziam em si supostos vícios de pobreza, escravidão, lascívia", diz a pesquisadora, usando o jargão dos documentos históricos. Mas ela também reconhece que esses preconceitos estão vivos ainda hoje. "Histórias nos remetem a coisas que deveriam ter sido alteradas e não foram."

Na sua pesquisa, Marileide comparou os ambientes urbanos e rurais nas relações das mulheres com o mercado de trabalho. Enquanto no campo, a estrutura favorecia um controle do corpo da mulher, na cidade a circulação para o trabalho expunha o corpo. Ela também destaca que ante a autoridade a penalidade do deflorador dependia da honestidade da mulher deflorada.

Saiba mais:

Serviço
4° Seminário Internacional o Mundo dos Trabalhadores e seus Arquivos: Memória, Verdade, Justiça e Reparação, de 8 a 10 de junho, no Sindicato dos Químicos: rua Tamandaré, 348, Liberdade, São Paulo. Web: seminariomundodostrabalhadores.cut.org.br.