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Campanha

Glover vê elo entre causas trabalhistas, sociais e raciais

Brasileiros e americanos da UAW, em campanha contra práticas antissindicais da Nissan nos Estados Unidos, trocam experiências em agendas que vão de encontros sindicais a visita em favela
por Paulo Donizetti de Souza e Viviane Claudino, da RBA publicado 01/07/2013 19h55, última modificação 01/07/2013 20h15
Brasileiros e americanos da UAW, em campanha contra práticas antissindicais da Nissan nos Estados Unidos, trocam experiências em agendas que vão de encontros sindicais a visita em favela
Paulo Donizetti de Souza/RBA
Danny Glover

Ator de 'A Cor Púrpura' e 'Ensaio sobre a Cegueira' considera que Brasil está amadurecendo sua democracia

São Paulo – Os sonhos de um vida com moradia e trabalho dignos, sem preconceito racial e sem discriminação nortearam a troca de experiências em um evento que reuniu brasileiros e norte-americanos na favela de Heliópolis, na zona sul de São Paulo. O encontro, na manhã de sábado (29), reuniu cerca de 300 pessoas na quadra da comunidade para ouvir o ator e ativista Danny Glover, que acompanha um empreitada de trabalhadores e sindicalistas norte-americanos da UAW (entidade que representa os empregados do setor automobilístico nos Estados Unidos, Canadá e Porto Rico) pelo Brasil desde o início da semana passada.

O grupo promove uma campanha mundial para denunciar práticas antissindicais da montadora Nissan em Canton, cidade do estado americano do Mississipi. Houve manifestações na unidade da Renault no Paraná, em concessionária da marca no ABC paulista, encontros com dirigentes da CUT, Força Sindical e UGT, visitas a lideranças políticas e comunitárias, o que incluiu passagem pela quadra da torcida e escola de samba Gaviões da Fiel, na zona norte. A jornada da delegação americana termina amanhã (2), com reuniões em Brasília.

Os compromissos têm como pano de fundo o direito de organização e sindicalização negado pela montadora japonesa, controlada pela Renault. Enfatizam tratar-se de uma demanda que está no mesmo patamar dos demais direitos civis, como trabalho digno, igualdade de oportunidades, saúde e educação pública de qualidade.

“Percebemos que no Brasil as pessoas têm superado as próprias expectativas diariamente”, afirma Glover, referindo-se ao nível de consciência política e social dos homens e mulheres da comunidade: “Moradia e educação de qualidade para nossos filhos não são um privilegio, mas um direito. Vocês estão mudando a realidade e o rosto do Brasil”.

José Marcelo da Silva, morador da favela e representante da Ação Comunitária Nova Heliópolis, disse que os moradores das periferias não vivem, são “sobreviventes” e que, se o país ainda vive uma situação de desigualdade, ela é ainda maior quando se trata de negros e pobres. “Atualmente, ainda buscamos a legalização de terras para moradores na área de urbanização da comunidade”, afirma. Heliópolis, numa uma área de aproximadamente 1 milhão de metros quadrados, é a segunda maior favela de São Paulo.

O líder comunitário Derrick Johnson, integrante da delegação trazida pela UAW, concorda com a relação direta entre as demandas por trabalho decente e por direitos sociais. “Para garantir condições de vida dignas precisamos atuar juntos. Por isso, oferecemos e buscamos o apoio de vocês para nossa luta pelo direito à sindicalização dos trabalhadores”, diz.

Johnson é presidente do escritório da Associação Nacional para o Progresso de Pessoas de Cor (Naacp, na sigla em inglês) no estado do Mississipi, uma das maiores e mais antigas organizações antirracistas do mundo e apoiadora da causa dos empregados da Nissan em Canton. A cidade onde está sediada a fábrica da montadora é composta por maioria de população negra e o Mississipi é o estado mais pobre dos Estados Unidos. “Nosso direito de nos sindicalizar foi cassado pela Nissan e não podemos nos organizar”, afirma Morris Mock, representante da UAW.

Aos 66 anos e famoso no Brasil por sua atuação em filmes tanto de ação, com Máquina Mortífera, ao lado de Mel Gibson, como de cunho social e reflexivo, como A Cor Púrpura, de Steven Spielberg, e Ensaio sobre a Cegueira (de Fernando Meirelles), Danny Glover é figura conhecida em causas sociais em seu país e no mundo. Para ele, é necessário repactuar as relações humanas e minimizar o papel do lucro no funcionamento da economia. “Já tive oportunidade de vir ao Brasil várias vezes, mas nunca para o carnaval ou ir à praia, mas sempre para dar minha contribuição e apoiar as lutas sociais”, afirma.

Evolução

Bob KIng, da UAW, e Dereck Johnson, da Naacp, observam crescimento da solidariedade a funcionários da Nissan

Bob King (UAW) e Dereck Johnson (Naacp) veem crescimento da solidariedade a funcionários da Nissan

Em entrevista à RBA, ontem (30), o presidente da UAW, Bob King, considera que grande parte dos problemas socioeconômicos do mundo é decorrente da ação nociva do sistema financeiro internacional. Segundo King, desde a crise de 2008 o mundo não soube responder à crise e o Brasil acabou se tornando um contraponto. “Enquanto os principais países se rendem a políticas de austeridade que não têm contido o crescimento do desemprego, o Brasil vem respondendo com medidas ousadas, ao apostar no crescimento, na produção, na proteção dos empregos e das políticas sociais como forma de se proteger”, observa.

O ator admitiu não ter informação o bastante para avaliar os acontecimentos de junho no Brasil, alegando que quando programou a viagem havia um cenário e que, quando chegou, encontrou outro. “Mas se há mobilização espontânea, não deixa de ser uma resposta às políticas ou à falta delas. Entendo que o que acontece é uma demonstração de que há um amadurecimento da democracia no país. E o Brasil tem sido nos últimos anos uma referência para o mundo em vários aspectos”, afirmou Glover. “Os problemas sociais, o prolongamento das injustiças raciais e sociais e as questões ambientais revela que os gestores do planeta estão no caminho errado. É atuando coletivamente que as pessoas vão construir o caminho certo.”

O sindicalista norte-americano ainda não viu sinal por parte da direção da Nissan de abertura de diálogo visando à democratização da relações de trabalho. “Por parte da fábrica não. Mas vemos um movimento de solidariedade muito forte na comunidade do Mississipi, na Europa, no Japão, na África do Sul e por parte das centrais sindicais brasileiras”, disse, referindo-se aos países em que há unidades da Renault/Nissan instaladas. “E outro dia, os trabalhadores da planta de Canton realizaram um protesto silencioso, mas coletivo, demonstrando que o sentimento de coragem também está crescendo. Ao não mudar de postura, a empresa está colocando em risco a sua imagem.”