Ministro do Trabalho diz que substituição precoce e constante de mão de obra afeta vida do trabalho e contas do seguro-desemprego. E lembra o feriado paulista como tentativa de golpe da elite contra direitos de trabalhadores
Brizola Neto destaca preocupação com alta rotatividade e vê infelicidade no 9 de julho
Presente ao 11º Congresso Nacional da CUT, em seu primeiro ano no governo federal, o ministro do Trabalho e Emprego, Brizola Neto, conversou com o repórter Leandro Melito, da reportagem da Rádio Brasil Atual, minutos antes da cerimônia de abertura do congresso. Ele aproveitou para criticar o tratamento de feriado cívico dado pelo estado de São Paulo à data. “É duro ver um congresso da CUT em 9 de julho, desculpe. A data não é o que os jornais estão falando, não foi a luta dos paulistas pela democracia. Foi a luta de uma elite paulista contra o processo de afirmação do regime de direitos e garantias”, observou. Confira a entrevista na íntegra.
Qual a importância,
nesse seu primeiro mandato, de participar desse congresso falando da
democratização das relações de trabalho?
Esse congresso
tem a maior importância. A CUT, com grande liderança na
representação dos trabalhadores, tem colaborado muito nesse
processo de unidade do movimento sindical. Esse é o grande caminho
que nós temos pela frente, construir uma agenda de unidade do
movimento sindical. O Ministério do Trabalho está servindo como um
mediador dessas negociações. E hoje um congresso tão
representativo, com delegados do Brasil inteiro, é mais uma grande
oportunidade para os trabalhadores de afirmarem sua pauta e para nós,
ministério, de levar para dentro do governo as reivindicações dos
trabalhadores.
Como está essa
agenda de diálogo do com as centrais para o segundo semestre?
A
gente estabeleceu que uma das premissas da condução do Ministério
do Trabalho vai ser o diálogo social. Então, para todas as questões
principais ou que estavam sob polêmica, como a dos registros
sindicais, vamos fazer reuniões com as centrais, com as
confederações patronais também, e construir saídas. No caso
específico dos registros sindicais, construir um novo regramento,
mais objetivo, que faça o ministério cumprir o seu papel – que é
simplesmente verificar se foram cumpridos requisitos ou não para o
registro. Sem interferir na liberdade sindical. A conversa constante
com as centrais sindicais, com as direções dos sindicatos
representativos do Brasil, é fundamental para uma gestão realmente
democrática.
Como o senhor vê
essa bandeira da CUT pelo fim do imposto sindical?
Eu tenho
insistido muito com os companheiros que neste momento é importante
avançarmos naquilo que une o movimento sindical. Existem questões
de natureza filosófica, se você for falar de sistema confederativo,
sobre unicidade, sobre pluralidade, liberdade sindical, que todas as
vezes que tentamos aprofundar essas discussões as incompreensões e
as divisões começam a aparecer. Eu não esqueço o ensinamento de
um velho judeu alemão (referindo-se a Karl Marx), que dizia
que o caminho do movimento operário era a unidade. E acho que é
possível a gente avançar sem ter que levantar questões que nos
dividem. A questão do imposto sindical, sem dúvida nenhuma, é uma
questão que divide o movimento sindical. A posição do Ministério
do Trabalho é a posição do governo em relação a isso. A posição
do ministro Brizola Neto é a posição da presidente Dilma. Então,
acho que o fundamental é a gente conseguir avançar em outras
pautas.
Por exemplo?
Pautas
de conquistas reais para os trabalhadores. A questão da rotatividade
é uma pauta que o mundo sindical tem de se envolver, porque é
dinheiro do trabalhador que sai para pagamento de seguro-desemprego.
E muitas vezes a rotatividade tem sido usada como ferramenta das
empresas para contenção de custos. Então é importante discutir
como combater essa alta rotatividade, porque é um drama para o
trabalhador é demitido e tem sido uma forte oneração das contas
públicas através das contas do seguro-desemprego. Tem a pauta do
fator previdenciário, que foi jogada para agosto. A questão da
convenção 158 da OIT, que inibe a demissão imotivada. Acho que
nesses pontos a gente consegue unidade das centrais sindicais. E
partir para o convencimento interno dentro do governo para a gente
conseguir avançar em mais direitos e mais garantias para o
trabalhador.
Você falou da questão
da rotatividade. A rotatividade está muitas vezes ligada à terceirização do trabalho. Agora com essas grandes obras, como que
vai se lidar com essa questão? Existem
alguns projetos de regulamentação dessa atividade, alguns deles
muito criticados pelas centrais.
Existe
uma comissão especial na Câmara que está debatendo todos os
projetos sobre terceirização que foram apensados. Existem muitas
pressões e muitas incompreensões nesse processo. Mas o que tem de
ficar muito claro é que a terceirização nunca pode ser usada como
processo de precarização de trabalho, que é o que a gente tem
visto. É fundamental avançar em uma regulamentação que garanta
aos trabalhadores terceirizados os mesmos direitos e garantias
daqueles que têm vínculo direto com as suas empresas.
Há algo do Fórum
Nacional do Trabalho, que começou início no governo Lula, que possa
ser recuperado em termos de reformulação das relações de
trabalho?
Sim. Saiu uma pauta muito clara do fórum, que foi
tocada até determinado momento, quando havia uma unidade maior das
centrais. Mas em determinado momento aquela pauta foi deixada de
lado, começou um processo de isolamento e não se conseguiu mais
avançar. Eu acompanhei bem isso porque eu era líder do PDT na
Câmara. A gente conseguiu avançar bastante em algumas coisas.
Na época, o governo
defendia a discussão de uma reforma sindical, que aprimorasse a
democratização das relações de trabalho, antes de de se falar em
reforma trabalhista, que é uma agenda empresarial. Esse pensamento
continua?
Existem muitas resistências a uma reforma da
organização sindical. Porque, com todas as críticas que possa
haver ao sistema confederativo, foi ele que ensejou tudo o que nós
temos aí. Aliás, é duro ver um congresso da CUT em 9 de julho,
desculpa... Sabe por quê? Porque 9 de julho (de 1932) não é
o que os jornais estão falando, não foi a luta dos paulistas pela
democracia. Nove de julho foi a luta de uma elite paulista contra o
processo de afirmação do regime de direitos e garantias, entende?
Era o estopim do processo que começou em 1917 aqui, nas fábricas,
nas greves, que depois foram para o Rio Grande do Sul, com os
ferroviários. E o que se levantou aqui foi uma elite incipiente
paulista, junto com o segmento estudantil ligado a uma pequena
burguesia. E que se levantou contra o processo de afirmação de
direitos da massa trabalhadora. Tanto é verdade que o Getúlio
Vargas (que derrotou a chamada Revolução de 1932) se elege
depois presidente. E ganha a eleição em São Paulo. Depois se elege
senador por São Paulo, e o estado ainda elege Marcondes Filho, do
PTB, senador também. Então esse 9 de julho daqui... não é a
melhor data.


































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