Acordo mantém viagens de médicos pagas pela indústria farmacêutica
Protocolo assinado entre Conselho Federal de Medicina e Associação da Indústria Farmacêutica, já em vigor, reduz regalias aos profissionais de saúde, mas ainda permite o pagamento de viagens
Publicado em 14/02/2012, 17:04
Última atualização às 17:48
São Paulo - O Conselho Federal de Medicina e a Associação da Indústria Farmacêutica de Pesquisa (Interfarma) assinaram nesta terça-feira (14) um protocolo inédito que estabelece parâmetros para o relacionamento entre os médicos e a indústria farmacêutica. O pagamento de viagens e a distribuição de brindes e presentes pelos laboratórios passam a ser regulamentados.
“O acordo é bem vindo e pertinente porque disciplina a relação médico-indústria farmacêutica, que deixa a população à mercê de interesses comerciais, muitas vezes escusos. Além disso, a indústria interfere na autonomia dos médicos no tratamento dos pacientes”, avalia o neurocirurgião Cid Carvalhaes, presidente do Sindicato dos Médicos de São Paulo.
Segundo ele, muitos critérios dessa carta de intenções ainda serão regulamentados por câmaras técnicas. Pelo protocolo, os laboratórios que convidarem médicos para congressos, simpósios e outros eventos do setor poderão pagar somente as despesas relacionadas a transporte, refeições, hospedagem e taxas de inscrição cobradas pela entidade organizadora. O pagamento será limitado ao profissional, que não poderá mais levar familiares, acompanhantes ou convidados por conta das indústrias. Ficam vetados também pagamentos ou reembolsos de despesas relacionadas a atividades de lazer e festas mesmo que estiverem associadas à organização do evento científico para o qual foi convidado.
Nos últimos 30 anos, as estratégias comerciais ficaram mais intensas e agressivas, com o patrocínio de congressos médicos e shows de artistas famosos para o lançamento de medicamentos que nem sempre são inovadores. Sem contar as viagens nacionais e internacionais, os presentes e brindes a médicos. “Embora os grandes laboratórios neguem, é claro que todo esse gasto está embutido no preço”, diz o médico intensivista Guilherme Barcellos, diretor do Sindicato Médico do Rio Grande do Sul. Recentemente, a entidade lançou a campanha “Alerta – Amostra nunca é grátis”, que por meio de atividades, aulas e palestras voltadas principalmente aos médicos residentes pretende reduzir a influência das indústrias sobre a escolha do medicamento a ser receitado. O protocolo começou a ser discutido em 2010 pela Interfarma, Associação Médica Brasileira (AMB) e Sociedade Brasileira de Cardiologia (SBC), envolvendo ainda 28 conselheiros do CFM.

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