Publicado em 03/11/2011
Para professor espanhol, referendo na Grécia é mostra de "dignidade e integridade"
Vicenç Navarro considera que ameaças a país que quer consultar o povo são evidências de “deterioração da consciência democrática” e cobra do Banco Central europeu independência em relação ao mercado
Decisão do primeiro-ministro da Grécia, George Papandreou, de submeter acordo à população recebeu resposta dura dos demais países europeus (Foto: © Yves Herman/Reuters)
São Paulo - Vicenç Navarro, economista e professor da Universidade Pompeu Fabra, de Barcelona, na Espanha, acredita que o primeiro-ministro da Grécia, George Papandreou, deu uma mostra de “dignidade e integridade democrática” ao defender a realização de um referendo no qual a população deve opinar sobre o pacote de medidas imposto pela União Europeia na tentativa de sanar a crise econômica local.
Novo centro das inquietações financeiras europeias, a Grécia foi ameaçada na quarta-feira (2) de sofrer expulsão do bloco de nações caso não cumpra as determinações, que preveem corte de investimentos sociais e de custeio da máquina pública, com perda de direitos e provável aumento do desemprego.
“Não é democrático que ao povo grego se imponham tantas medidas impopulares sem que lhes consulte”, avalia o docente da John Hopkins University, que já foi consultor de governos como o de Salvador Allende, no Chile, e o de Cuba.
Em entrevista à rádio La Voz de Galicia, também reproduzida na página do professor na internet, ele critica as pressões colocadas pelo presidente da França, Nicolas Sarkozy, sobre Papandreou. “É um indicador da deterioração da consciência democrática no establishment europeu que se questione a decisão de um governo de consultar o povo em um tema de tamanha transcendência.”
Ele lamenta ainda a visão de que um eventual cenário sem solução do caso grego possa “arrastar” o restante da zona do euro para a quebradeira. “Já estamos em uma situação que está se convertendo em intolerável. E nos dizem que não se resolverá por muitos anos. Para milhões de europeus e espanhóis a Grande Recessão já é uma Grande Depressão”.
Navarro aponta que o caso deve servir de reflexão à maneira como se construiu a União Europeia, excessivamente influenciada pelos chamados “mercados” e deixando de lado o Estado de Bem-estar. O professor pondera que o Banco Central europeu deve deixar de servir ao lobby para continuar a ajudar os Estados que necessitem saldar as respectivas dívidas públicas. “O problema não é o euro, se não o custo que pode significar para um país continuar no euro sem mudanças”, pontua. “Esses custos no caso grego são excessivamente altos e pode ser mais rentável a eles como país abandonar o euro.”









