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Apesar de repressão, ciclistas de SP celebram “cardume pacifista”

Violência atrapalha desfecho da terceira edição da Pedalada Pelada e manifestantes pedem investigação de policiais

Por: João Peres, Rede Brasil Atual

Publicado em 15/03/2010, 15:50

Última atualização às 18:36

Apesar de repressão, ciclistas de SP celebram “cardume pacifista”

A PM foi motivo de diversão para os ciclistas, que se dividiram em vários grupos para dar "perdido", mas no fim houve repressão ao ato (Foto: Thiago Beleza)

A repressão contra ciclistas na terceira edição da Pedalada Pelada em São Paulo não eliminou o lado positivo do evento, garantem os participantes. A detenção de ao menos quatro pessoas ocorreu no fim da versão nacional da World Naked Bike Ride.

Antes disso, os ciclistas haviam transformado a tensão pela presença de policiais em uma brincadeira de gato e rato. Dar o famoso “perdido” nos PMs foi a diversão maior do encontro, que reuniu 500 pessoas na capital paulista no último sábado (13).

André Pasqualini, diretor do Instituto CicloBR, aponta que, como a divulgação foi menor este ano, apareceram menos curiosos e estiveram na Pedalada os ciclistas que realmente conhecem os problemas do dia-a-dia e a real finalidade do evento. Ele lembra que aqueles que têm o hábito de pedalar estão acostumados a formar uma espécie de cardume em que um protege o outro. “A interação com as pessoas nas ruas foi fantástica. A energia foi muito boa, um protesto muito bem humorado e totalmente pacífico”, afirma.

>> Visite uma das galerias de fotos da Pedalada Pelada

A fotógrafa Laura Sobenes, que foi autuada ao fim da manifestação, entende que há um equívoco em não focar o lado positivo da Pedalada Pelada, que é a grande afinidade entre os participantes e o crescimento da adesão ao seminu. “Os policiais não têm de ir contra a gente. Por que vão ficar com arma na mão? Vamos fazer o que com nossas bicicletas? É óbvio que é uma atitude para mostrar serviço”, aponta.

Detidos

Os participantes relatam que, ao longo do trajeto, os policiais faziam provocações, muitas vezes tentando forçar a queda de algum ciclista. Quando um deles reagiu, acabou detido. Na sequência, um rapaz foi tentar falar com os policiais que, de acordo com os manifestantes, rasgaram sua bermuda e fizeram a detenção por ato obsceno.

“Foram arrastando ele até o camburão. É uma truculência absurda por parte da polícia. Deixou bastante claro que a gente não está protegido de forma alguma”, relata a estudante Talita Noguchi. Ela, em companhia de Laura, foi até o 4º Distrito Policial, para onde foram levados os outros manifestantes.  As duas esperavam do lado de fora da delegacia quando souberam que o delegado queria conversar. Foram então informadas que seriam autuadas por ato obsceno – durante o protesto, foram vistas sem roupa.

“Foi uma situação totalmente ridícula por parte da polícia. Um contingente enorme para tentar coibir a nudez e que em nenhum momento protegeu os ciclistas”, afirma André Pasqualini, que destaca que os policiais afirmaram que apenas a nudez artística, como a do Carnaval, seria permitida. “O Brasil é muito hipócrita nessa situação. Não aceita esse tipo de nudismo por causa de um protesto, mas aceita Mulher Melancia. Se você vê TV aberta no domingo à tarde, é só baixaria”, complementa Laura Sobenes.

Nudez

A nudez surgiu como uma necessidade de chamar atenção para os problemas dos ciclistas. A ideia é que, ao menos naquele dia, os cidadãos em geral voltem os olhos para os riscos aos quais está submetido aquele que decide trocar o transporte motorizado pela força das pernas. “É um sentimento que está sempre com a gente. A gente está sempre pelado no trânsito, sem proteção alguma de nada nem de ninguém”, aponta Talita Noguchi.

Essa questão motivou a criação do calendário “Como nus sentimos”, que está à venda na internet e começa a ser entregue esta semana. Cada mês traz a foto de um ou uma modelo, anônimos ou famosos. Entre as mais conhecidas estão a subprefeita da Lapa, Soninha Francine, a apresentadora da ESPN, Renata Falzoni, e a ex-jogadora de vôlei Ida.

André Pasqualini entende que o calendário só é possível por conta das edições anteriores da Pedalada Pelada, que foram abrindo espaço para essa discussão: “O legal do calendário é que tem uma explicação detalhada do que é o movimento. O pessoal vai ter o ano inteiro para ver as imagens e ir entendendo a questão”.

O calendário tem custo de R$ 45 e o preço cai de acordo com o tamanho da encomenda. As entregas dentro da cidade de São Paulo serão feitas por ciclistas.

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