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efeito colateral

Doria deixa faltar até dipirona nas farmácias do SUS que quer fechar

Para Fórum Popular de Saúde, escassez reforça imagem negativa do serviço público para justificar parcerias privadas; trabalhadores, usuários e vereadores fizeram ato em defesa das farmácias nas UBSs
por Cida de Oliveira, da RBA publicado 09/02/2017 20h02, última modificação 10/02/2017 13h09
Para Fórum Popular de Saúde, escassez reforça imagem negativa do serviço público para justificar parcerias privadas; trabalhadores, usuários e vereadores fizeram ato em defesa das farmácias nas UBSs
Fórum Popular de Saúde/Núcleo Itaquera
UBS jardim Helian.jpg

Usuários da UBS Jardim Helian, em ato contra a falta de medicamentos e em defesa da farmácia na unidade

São Paulo – Usuários da Unidade Básica de Saúde do Jardim Helian, no Parque do Carmo, zona leste da capital, já não encontram medicamentos básicos, como dipirona. "Sempre tinha alguma coisa; já peguei durante muito tempo até medicamento de uso controlado para minha mulher. Mas agora não tem nada. E para piorar, não temos nem farmácia no bairro", queixa-se o usuário da UBS e integrante do núcleo Itaquera do Fórum Popular de Saúde de São Paulo, Sérgio Lima.

A situação é tão séria, segundo Lima, que os moradores protestaram ontem (8) em frente à unidade de saúde para cobrar reabastecimento e distribuição de medicamentos. "Abrimos o microfone para as pessoas opinarem sobre a falta de remédios e o processo que pode levar ao fechamento da farmácia que funciona ali. O pessoal está tão indignado que queria sair em marcha ontem mesmo. Mas decidimos esperar mais uns dias até que haja uma definição. Se for preciso, vamos marchar, trancar a Avenida Jacu Pêssego", disse.

O líder comunitário conta que foram feitos cartazes e até um mural, onde os usuários colaram as receitas médicas que não foram atendidas por falta de remédios. "Se for necessário, vamos procurar a supervisão de saúde, buscar outros órgãos. Esse desabastecimento, proposital, é para reforçar junto à comunidade a percepção negativa em relação às farmácias do SUS, de que não funcionam. Isso aí é para dizer 'olha, está ruim, não tem mais jeito, vamos ter mesmo de fechar'. Essa é a nossa opinião."

A reclamação da população do Jardim Helian não é um fato isolado. Segundo a assessoria da vereadora Juliana Cardoso (PT), chegam ao gabinete denúncias de que os processos de compra de medicamentos estão parados, levando ao desabastecimento em todas as unidades.

Por essa razão, Sérgio Lima se juntou na tarde de hoje (9) a outros usuários, integrantes de movimentos populares de saúde, farmacêuticos, técnicos, dirigentes do Sindicato dos Servidores Municipais de São Paulo (Sindsep), do Sindicato dos Farmacêuticos no Estado de São Paulo (Sinfar-SP), da Federação Nacional dos Farmacêuticos (Fenafar) e vereadores, que fecharam a rua diante da Secretaria Municipal de Saúde em ato contra a proposta de extinção das farmácias existentes nas unidades básicas de saúde. 

Embora afirme tratar-se apenas de uma proposta ainda em estudo, a gestão Doria sinaliza que o projeto avança rapidamente. Depois de se reunir com executivo da rede Raia Drogasil, o secretário municipal da Saúde, Wilson Pollara, alegou no último dia 31, não ter condições de entregar remédios nas UBS "porque é impossível competir com a rede logística das farmácias (privadas)". Segundo o jornal O Estado de S. Paulo, Pollara afirmou que "só para eu ter o estoque de remédios nas UBSs, tenho de ter um investimento de R$ 100 milhões. Sendo que esse remédio já está lá na prateleira da farmácia".

Ontem (8), os gestores anunciaram que laboratórios farmacêuticos estariam "doando" 165 tipos de medicamentos, “sem contrapartida” para a prefeitura, para suprir a falta de remédios na rede municipal. Versão questionada pela vereadora Juliana Cardoso. Para ela, esses laboratórios serão beneficiados pela prefeitura, que pagará pelos remédios desses laboratórios que serão distribuídos nas farmácias comerciais. Um negócio estimado em mais de R$ 300 milhões por ano.

A direção do Conselho Regional de Farmácia de São Paulo (CRF-SP) tem se reunido com gestores municipais e com farmacêuticos para definir seu posicionamento em relação à proposta.

De acordo com o presidente do CRF-SP, Pedro Eduardo Menegasso, Wilson Pollara nega que esse projeto esteja definido. "Ele também nega que haverá extinção das farmácias, embora reforce dificuldades na logística. No entanto, não vamos abrir mão de conquistas sociais como o direito a assistência farmacêutica, inserida numa política pública de saúde que beneficia a população, e repudiamos quaisquer ações que venham a desvalorizar também o exercício da profissão ", afirmou.

Ainda segundo ele, os problemas vão além da falta de medicamentos. "Esses problemas têm de ser solucionados e as farmácias públicas fortalecidas, assim como o trabalho do farmacêutico no contexto de políticas públicas de saúde. Essa solução tem de ser construída coletivamente por todos os setores envolvidos, e não apenas gestão municipal e empresários", afirmou.