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Inovação

'A ciência precisa de um banho de povo', defende Miguel Nicolelis

Coordenado pelo neurocientista, Campus do Cérebro vai além das pesquisas: pretende transformar a sociedade e diminuir a distância que separa brasileiros e cientistas
por Cida de Oliveira, da RBA publicado 02/01/2017 12h11, última modificação 03/01/2017 20h51
Coordenado pelo neurocientista, Campus do Cérebro vai além das pesquisas: pretende transformar a sociedade e diminuir a distância que separa brasileiros e cientistas
Roberto Fleury/Secom UnB
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Nicolelis defende que os cientistas "abram seus braços e abracem o Brasil" – um país distante da ciência

São Paulo – Um improvável "casamento" entre os legados de dois gênios brasileiros – o audacioso Alberto Santos Dumont (1873-1932), para quem o céu não era o limite, e do pensador da educação transformadora e emancipadora Paulo Freire (1921-1997) – está na gênese da ciência praticada por outro brasileiro genial, o neurocientista Miguel Nicolelis.

Uma ciência que vai além de seu laboratório na Universidade de Duke, na Carolina do Norte, Estados Unidos, onde é professor de neurobiologia desde 1994. E de tantos outros por onde passa mundo a fora, como um centro na AACD, em São Paulo, onde são acompanhados os pacientes paraplégicos inseridos em seu projeto de reabilitação Andar de Novo.

Aos poucos, e de maneira inédita em toda a história da Medicina, eles estão recuperando a sensibilidade e movimento de membros inferiores e de regiões do corpo logo abaixo da lesão na coluna. Tudo isso por meio de uma tecnologia desenvolvida por Nicolelis, a interface cérebro-máquina (leia destaque).

Trata-se da ciência que há nove anos vem transformando a realidade de meninos e meninas dos bairros mais carentes do município de Macaíba, na região metropolitana de Natal (RN), que ele conta no livro recém-lançado Made in Macaíba – a História da Criação de uma Utopia Científico-Social no ex-Império dos Tapuias (Editora Planeta de Livros Brasil).

“No começo, quando eles chegaram na escola de educação científica, em Natal, olhavam para o chão quando conversavam com as pessoas. Hoje olham nos olhos, com a autoconfiança de quem é protagonista na construção do conhecimento, por meio de uma ciência transformadora da qual se apropriaram", conta o cientista.

Educação é o único caminho para a felicidade. O cérebro é o único órgão que conhecemos em todo o universo em que a informação altera a morfologia microscópica do tecido orgânico. O cérebro só tem funcionamento pleno quando encontra educação. É única orquestra em que cada nota produzida por ela muda a configuração dos instrumentos musicais.

De acordo com o cientista, os estudantes que frequentam a escola no Campus do Cérebro, em horário complementar ao da escola regular, aprendem fazendo ciência na prática. Em vez de decorar conceitos, enunciados e teorias, realizam diversas experiências práticas até chegarem às conclusões que vão embasar a construção, por eles próprios, dessas leis. "Aos 10, 12 anos, eles entendem o que fizemos no exoesqueleto. Nossos alunos são protagonistas da própria educação, são nossos parceiros. Por isso os alunos não se sentem mais inferiores quando se sentam com pesquisadores de várias partes do mundo que nos visitam”, destaca.

"Um dia, um presidente da República muito popular foi nos visitar em Macaíba. Ele pôs aquela mão de torneiro mecânico em um aluno e perguntou: 'o que você acha dessa escola?'. A resposta foi: 'Escola? Escola vou pela manha. Isso aqui é meu parque de diversões'", diverte-se Nicolelis.

Gatos

Essa educação pelo fazer científico tem reflexos até na vida das comunidades de Macaíba. Nicolelis conta que graças aos circuitos elétricos trabalhados pelos alunos no aprendizado da leis de Ohm, sobre tensão e correntes elétricas, não houve mais incêndios devido a instalações irregulares, os famosos "gatos".

"Essa lei de Ohm é uma das conquistas da nossa escola. Depois de aprende a lei, os alunos ensinaram os pais a fazer o "gato" direito. Para a companhia de eletricidade é uma má notícia. Mas para os bombeiros é um remédio; para mim foi o auge. Isso é ciência. A ideia era fechar esse ciclo. Vamos ter escola em tempo integral e curso de doutorado. Mestrado já temos aqui."

Outra história que o cientista sempre conta, sem citar nomes: "Um presidente do Senado, da Câmara, não importa quem, se encontrou com 600 nossas crianças. Quando ele começou fazer campanha e ameaçou pedir votos, uma menina levantou e interrompeu: 'o senhor concorreu na última eleição, prometeu esgoto e não tem esgoto não. Agora o senhor vem aqui pedir voto? Aqui a gente aprendeu que tudo tem causa e efeito. O senhor não é causa nem efeito.' Essa escola forma cidadãos."

Transformação

Ele defende que a ciência transformadora da sociedade e emancipadora – que já formou crianças que a princípio queriam ser jogadores de futebol ou modelos mas que resolveram ser cientistas, e voltam para o campus para visitar ou para trabalhar – contribua também para disseminá-la entre a sociedade brasileira, para quem ciência ainda é coisa de ficção científica.

"Quem aqui já leu um livro de ciências? Quem fez experimentos em bancada? Achar o DNA de uma cebola? Explodir panelas da mãe, como fiz muito?", questiona à plateia que lota o auditório do Instituto Sedes Sapientiae, em São Paulo, para sua palestra.

Eduardo G. de Oliveira/Agência ALESC nicolelis ciência precisa de banho de povo.jpg
Nicolelis em uma das palestras realizadas pelo lançamento de Made in Macaíba

Uma das estratégias, segundo ele, é trazer os professores da rede pública para dentro dos laboratórios do Campus do Cérebro. Todas as sextas-feiras, a escola de educação científica é fechada para seus alunos e aberta aos docentes da rede pública de ensino, que podem "brincar" de fazer ciência nos laboratórios.

Para ele, o distanciamento entre a ciência e o povo tem raízes na histórica desigualdade de acesso à educação, à universidade, aos cursos de maior prestígio social – que também são os mais concorridos, levando vantagem estudantes com mais bagagem educacional e cultural – é uma disputa no campo educacional, científico e político. Mas requer sobretudo ousadia.

"É ousar todos os dias, numa desobediência civil, porque a utopia está lá no horizonte", diz. E encerra sua fala com as palavras do cineasta argentino Fernando Birri muito propagadas pelo jornalista e escritor uruguaio Eduardo Galeano (1940-2015): "Me aproximo dois passos, ela se afasta dois passos. Caminho dez passos e o horizonte corre dez passos. Por mais que eu caminhe, jamais alcançarei. Para que serve a utopia? Serve para isso: para que eu não deixe de caminhar."

Na abertura da Copa do Mundo de 2014, no Brasil, a Fifa tentou esconder a cena de um jovem com paralisia se levantando, com a ajuda de um exoesqueleto movimentado por suas próprias ondas cerebrais, para chutar uma bola. "Eu senti o chute", garantiu mais tarde o jovem Juliano, numa sensação que disse jamais esquecer.
Após dois anos, no começo de agosto passado, as principais revistas científicas do mundo publicaram artigo em que Nicolelis descreve os primeiros meses de treinamento de oito pacientes realizados na AACD.
Ele, os especialistas da sua equipe e o mundo foram surpreendidos com a recuperação motora parcial desses pacientes. Doze meses após o início do projeto, metade dos pacientes foram reclassificados. A paralisia completa tornou-se parcial e hoje, após 28 meses de trabalho, todos eles melhoraram sua condição motora, sensorial, psíquica e também a auto-estima.
Uma das pacientes decidiu engravidar novamente porque desejava sentir os movimentos do bebê em seu útero e, mais tarde, as contrações.
Segundo Nicolelis, a explicação da evolução dos pacientes está na reorganização plástica do córtex cerebral. Conforme explicou, ao reinserir a representação dos membros inferiores e locomoção nessa região do cérebro, os pacientes podem ter transmitido algumas informações do córtex por meio dos pouquíssimos nervos que devem ter sobrevivido ao trauma que causou a paralisia.
O projeto Andar de Novo reúne cientistas de várias partes do mundo no desenvolvimento de um aparato capaz de estimular os movimentos perdidos por meio de uma tecnologia estudada pelo cientista, chamada interface cérebro-máquina. “Pacientes nos relataram que foram à praia e pediram protetor solar, porque sentiam o sol queimando as pernas. O Juliano, que deu o chute inicial na Copa do Mundo e que era paralisado do tórax para baixo, nos pediu para refazer seu uniforme de treinamento porque ele machucava sua virilha”, contou.