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'Internet molda o cérebro das pessoas', diz Nicolelis

Neurocientista teme sincronização de cérebros, que poderá reduzir características humanas como solidariedade e empatia
por GGN publicado 27/12/2016 10h57
Neurocientista teme sincronização de cérebros, que poderá reduzir características humanas como solidariedade e empatia
Divulgação/Black Mirror
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As pessoas se moldaram ao mundo virtual. 'Estão cada vez mais se comportando como se fossem máquinas'

GGN – Testes apontam que a internet, o meio de comunicação mais veloz já existente, está moldando o cérebro das pessoas, fazendo com que a razão humana funcione com características do mundo digital.

O grande problema nesse processo é que, ao mimetizar o funcionamento dos computadores, a humanidade tende a perder peculiaridades analógicas de empatia, solidariedade e respeito à opinião alheia. O alerta é do neurocientista Miguel Nicolelis, feito em entrevista exclusiva ao GGN.

Segundo o pesquisador, as mentes de bilhões em todo o mundo podem estar sendo moldadas pela imersão contínua no mundo virtual. "As pessoas estão cada vez mais se comportando como se fossem máquinas", reforça, afirmando que é capaz de provar como isso acontece:

"Eu sincronizo os cérebros dos meus macacos num laboratório quando dou estímulos visuais comuns, de forma muito rápida. O meio, como diz Marshall Mcluhan (teórico da comunicação), é a mensagem, e uma vez que essa mensagem entra no seu cérebro e no meu, e bate com nossos preconceitos inerentes e nossa visão de mundo crua, é que nem um vírus, infecta e começa a ser broadcast (transmissor) pelo cara que foi infectado. Então, você começa a amplificar um grupo de indivíduos que pensa igual".

Nicolelis afirma que, nos anos 1960, Mcluhan foi capaz de prever o momento em que a humanidade chegaria hoje. "Ele previu que os grupamentos sociais iam começar a fragmentar a sociedade, porque os grupos de interesse iam começar a se auto referenciar no momento em que houvesse um meio de mídia capaz de ser rápido o suficiente para sincronizar as pessoas na ordem da magnitude de funcionamento do cérebro".

Não por acaso, completa o neurocientista, é cada vez maior a existência de espaços dentro do Facebook "cujos integrantes acham que seu grupo é mais importante do que o país".

Para Nicolelis, ao contrário do que muitos cientistas da área de inteligência artificial defendem, a mente humana jamais poderá ser clonada pelos sistemas digitais, até porque um computador nunca terá a capacidade intuitiva de uma pessoa. Porém, um meio de comunicação rápido, e bem instruído para um público específico, pode reforçar padrões preconcebidos e, a partir disso, aumentar a concepção de que seu modo de pensar é verdadeiro, não abrindo espaço para reflexão e desconstrução de ideias.