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80% dos trabalhadores expostos ao amianto têm doenças pulmonares, revela estudo

A pesquisa, da Escola Nacional de Saúde Pública, ligada à Fundação Oswaldo Cruz, identificou também que 1/3 deles tem asbestose, mais conhecida como pulmão de pedra
por Cida de Oliveira publicado 03/09/2009 15h07, última modificação 03/09/2009 15h10
A pesquisa, da Escola Nacional de Saúde Pública, ligada à Fundação Oswaldo Cruz, identificou também que 1/3 deles tem asbestose, mais conhecida como pulmão de pedra

Também conhecido como asbesto, o amianto é usado em telhas, caixas d'água e outros produtos, como pastilhas de freio. Apenas sete estados têm leis que proibem uso (Foto: Wilson Dias/Agência Brasil)

Depois de acompanhar o estado de saúde de 52 trabalhadores expostos ao amianto e de outros 26 sem exposição, a farmacêutica Isabele Campos Costa constatou alterações pulmonares em 80% do primeiro grupo. E, pior, que um terço deles apresenta asbestose. A doença, mais conhecida como pulmão de pedra, pode levar à morte por causa da redução da elasticidade em várias de suas estruturas responsáveis pela irrigação sanguínea e pela pressão interna, essencial para a respiração.

“Em contato com o tecido pulmonar, as fibras de amianto aumentam a formação de espécies reativas de oxigênio, que podem acabar com o sistema de defesa dos pulmões e, ainda por cima, danificar moléculas celulares importantes, como proteínas e DNA", explica a autora da pesquisa. Segundo ela, os resultados encontrados apontam que a população exposta ao mineral apresentou diferença bastante significativa dos resultados dos testes que mediram os danos ao núcleo das células pulmonares. “Os resultados demonstram clara relação entre a exposição e alterações e danos no DNA”.

O estudo

Isabele Campos Costa realizou os estudos no Laboratório de Toxicologia do Centro de Estudo da Saúde do Trabalhador e Ecologia Humana (Cesteh), da Escola Nacional de Saúde Pública, onde defendeu recentemente seu mestrado em Saúde Pública. O objetivo do trabalho era avaliar alterações de parâmetros enzimáticos e de danos no material genético devido à longa exposição ao mineral.

Os trabalhadores expostos são pessoas já acompanhadas pelo Cesteh e provenientes de diferentes empresas do Rio de Janeiro, que utilizam o asbesto em seus diversos processos produtivos. Os não expostos são técnicos do Laboratório de Toxicologia do Cesteh. Todos passaram por exames físicos, radiográficos de tórax, espirometria e entrevista, com a finalidade de avaliar o grau de acometimento dos indivíduos e a evolução dos sintomas. Foram aplicadas ainda técnicas para avaliar os danos tóxicos aos genes das células dos pulmões.

Como Isabele explica, isso caracteriza um risco para as populações expostas ao amianto, também chamado de asbesto. “Com este estudo encontramos evidências toxicológicas que respaldam o movimento político e social pelo seu banimento no Brasil", afirma. Como ela destaca, a situação é tão grave que, mesmo que o amianto fosse banido hoje no país, nos próximos 20 anos ainda estarão surgindo novas vítimas.

Além de causar doenças como a asbestose, o amianto é altamente cancerígeno. Para a Organização Mundial da Saúde, todas as variedades do mineral, quando inaladas, lesam tecidos pulmonares, causando processos inflamatórios que levam à formação de tumores como de pulmão e pleura. A exposição ainda eleva os riscos de câncer de estômago, esôfago, intestinos, rins e pâncreas. Por causa disso, o mineral já foi banido em mais de 48 países.

Contrariando diretrizes da Organização Internacional do Trabalho (OIT), o Brasil optou pelo uso controlado. Mas a decisão não é consensual. Tanto que diversos Estados e Municípios decidiram bani-lo, como Rio de Janeiro, Rio Grande do Sul, Pernambuco, São Paulo, Mato Grosso do Sul, Mato Grosso e Pará. Mas há tentativas de revogação em vários deles graças ao lobby dos fabricantes e exportadores.

No final de agosto passado, a Justiça do Rio de Janeiro proibiu a Eternit, um dos principais fabricantes, de comercializar produtos que o contenham. A decisão, que vale apenas para o território fluminense, acatou pedido do Ministério Público daquele Estado. O promotor de Justiça Julio Machado Teixeira Costa levou em consideração pareceres de diversos órgãos de saúde, como o Instituto Nacional do Câncer, a Fiocruz, Agência Internacional de Pesquisa sobre o Câncer, Programa Internacional sobre Segurança das Substâncias Químicas e da Organização Mundial da Saúde. Todos reforçam que o amianto é cancerígeno.

Para o promotor, além de a empresa fabricar e comercializar produtos em clara desconformidade com a lei estadual que veda seu uso, os prejuízos que vêm sendo causados ao consumidor são irreparáveis ou de difícil reparo. “A atitude da empresa expõe ao aumento de risco de câncer consumidores que tenham esses produtos”, justificou.

Para os fabricantes, o tipo de amianto usado no Brasil, o crisotila, não seria absorvido pelo pulmão. E assim não traria os mesmos riscos à saúde. O discurso, no mínimo suspeito, é embasado por pesquisas financiadas e manipuladas pela indústria. Recentemente, o site Vi o Mundo publicou uma denúncia.

Estima-se que chegam a 1 milhão os trabalhadores brasileiros expostos ao amianto, desde a extração em minas até a indústria de transformação. Diferente do que se pensa, a fibra não é usada apenas na fabricação de telhas e caixas d’água. Segundo cálculos da Associação Brasileira de Expostos ao Amianto, mais de 3 mil produtos levam o mineral em sua composição, como tubulações, argamassa, peças para fogões, geladeiras e secadores de cabelo, cabos e fitas isolantes, gaxetas, revestimentos, tecidos especiais, lonas e pastilhas de freio, entre tantos outros. Pelas contas do Sindicato Nacional da Indústria de Autopeças, há trezentos mil trabalhadores envolvidos em manutenção e reparos de sistemas de freio no país.

Há ainda uma parcela ainda maior, desconhecida, de trabalhadores informais, envolvidos principalmente na indústria da construção civil, em instalação de coberturas, caixas d'água, reformas, demolições e instalações hidráulicas, entre outras, completamente expostos ao pó do amianto e desprotegidos das incipientes políticas públicas de saúde do trabalhador.

Só a partir de 2006 as empresas ligadas à cadeia produtiva do amianto passaram a ser obrigadas a informar ao Sistema Único de Saúde, todo ano, a lista de trabalhadores que manipulam o mineral. Além de dados da empresa e do empregado, a relação deve conter os exames realizados para acompanhar o quadro de saúde do trabalhador, como radiografia de tórax e prova de função pulmonar, com o diagnóstico médico.