Viagem
O sertão além do tempo
A região do Seridó, no Rio Grande do Norte, guarda mistérios e surpresas de Caatinga. E prova que o sertão também é terra de encantos, hoje ou há milhares de anos
Por: João Correia Filho
Publicado em 20/03/2009
E preciso baixar o corpo, esquivar-se sob uma fenda e adentrar o oco de uma rocha côncava, onde cabem três ou quatro pessoas. Os olhos demoram um tanto a se acostumar. Aos poucos as paredes de pedra vão revelando desenhos em tom avermelhado. Em instantes, uma verdadeira festa primitiva – homens com os braços levantados parecem dançar de um lado a outro, aves ensaiam o vôo e famílias se reúnem em torno de uma fogueira. Os desenhos, localizados nos arredores da cidade de Cerro Corá, interior do Rio Grande do Norte, são pinturas feitas há cerca de 9 mil anos, quando o homem primitivo já habitava a região hoje conhecida como Seridó. Além de Cerro Corá, a região inclui os municípios de Acari, Currais Novos, Caicó, Jardim do Seridó, Parelhas e Carnaúba dos Dantas, que fazem parte de um grande roteiro pela Pré-História.
Carnaúba dos Dantas, a 219 quilômetros de Natal, possui mais de 60 sítios arqueológicos. A quantidade e a qualidade dos desenhos impressionam visitantes e pesquisadores do mundo todo. Um dos sítios mais visitados é o Xique-Xique I, localizado nas encostas de uma pequena serra, onde o que se vê são homens caçando, exibindo lanças e flechas, um casal que espanta pássaros (ou quem sabe os encurrala tentando garantir o jantar), crianças sobre uma árvore e mais uma dezena de cenas com grande precisão e expressividade. São centenas de figuras que variam entre 5 e 15 cm, a maioria feita com pigmentos em vermelho, retirados do óxido de ferro. O Xique-Xique I proporciona também ótima visão de todo o vale, onde nossos artistas se protegiam de animais e de tribos inimigas.
A Talhada do Gavião é outro grande abrigo onde foram deixadas mais pinturas, dessa vez de artista mais detalhista, que trabalha com figuras geométricas minuciosas e utiliza cores além do vermelho para cobrir quase toda a superfície de pedra. Em meio ao grande mosaico multicolorido, além de algumas cenas envolvendo homens e animais, destacam-se desenhos de pirogas, barcos rudimentares feitos de um único tronco. Para alguns pesquisadores, tais símbolos poderiam indicar que onde hoje prevalece a caatinga pode ter havido um ecossistema bastante diferente, com rios navegáveis e clima mais úmido.
Na cidade de Parelhas, os primeiros habitantes também demonstram saber escolher o lugar para morar e deixar suas marcas. No sítio arqueológico do Mirador, como o nome insinua, tem-se uma visão geral de toda a planície que hoje é o Açude Boqueirão, resultado do represamento do Rio Seridó. As pinturas estão localizadas no alto do morro, num paredão inclinado de mais de 100 metros que as protegeu da chuva e do sol. São vários blocos de desenhos, com temas que variam: bandos de aves (muito parecidas com emas, comuns na região), caçadores que seguram tacapes e flechas. Os traços são perfeitos.
Não muito longe dali, em Caicó, uma das maiores
cidades do Seridó, chega-se à Gruta da Caridade, onde são encontradas
pinturas com outras características, as itacoatiaras (pedra riscada).
Aí os grafismos, em baixo relevo, são considerados pinturas mais
recentes, em torno de 2 mil anos. No interior da gruta há um pequeno
riacho que forma quedas d’água. Não é à toa que o local tem se tornado
ponto de visitação constante de aventureiros e espeleólogos.
Fonte de alimento
A busca pela água forjou uma outra característica do Seridó: a presença
de açudes, construídos, a maioria, em meados do século passado. Hoje,
quando se olha para um mapa hidrográfico do sul do estado, o que se tem
é uma região coalhada de áreas azuis, indicando onde a mão do homem fez
a água se acumular. Mais de 400 mil pessoas vivem em função da água
desses açudes.
Alguns,
como o Gargalheiras, o Boqueirão e o Sabugi, permeiam toda a vida do
sertanejo, servem de fonte de alimento e mantêm irrigadas plantações de
milho, feijão e cana-de-açúcar. Também representam uma expectativa para
o turismo, que já começa a descobrir a beleza de seu entorno – as
imensas estruturas geraram as paisagens mais belas do Seridó, quando
montanhas e vales desenham um horizonte inusitado para o Semi-Árido
brasileiro.
O Açude
Gargalheiras, na cidade de Acari, passou a atrair aventureiros em busca
de esportes radicais (trilhas, rapel e escaladas são praticados ali) e
de sossego (a única pousada do lugar é um verdadeiro refúgio em meio ao
imenso espelho d’água, ao qual se chega apenas de barco). Do topo da
serra, a visão impressiona aqueles que imaginam o sertão estéril, seco
e sem vida.
Toda essa
diversidade se apresenta ao visitante em meio a um ecossistema que,
assim como o interior nordestino, foi subjugado e agora está sendo
descoberto pelo mundo. Conhecida como sinônimo de seca e pobreza, a
Caatinga começa a se mostrar um local cheio de vida, cor e surpresas.
Quem visita a região pode ver na fauna (preás, veados, emas e grande
quantidade de pássaros), na flora (vários tipos de cacto, árvore e uma
imensidade de flores) e na vida do sertanejo (com suas roupas de couro
e sua sabedoria) muito da cultura do Brasil. Um lugar que espera pelo
viajante atento, em busca de paisagens únicas, que já encantou nossos
antepassados há milhares de anos.
Roteiro Seridó: O Sebrae do Rio Grande do Norte criou recentemente o Roteiro Seridó, projeto de turismo que inclui as sete cidades da região. Além do roteiro arqueológico, oferece opções de ecoturismo, turismo cultural e turismo rural – www.roteiroserido.com.br
Como chegar: Saindo de Natal, a cidade mais próxima é Currais Novos. São 180 quilômetros seguindo pela BR-304 até Macaíba e de lá pela BR-226. A partir daí quase todas as cidades ficam bem próximas.
Onde ficar: Pousada Pé de Serra, nas margens do Açude Gargalheiras, em Acari. A energia é toda solar e não há estradas até lá. Chega-se ao açude numa pequena lancha.
(84) 3412 1413 / 9995-6127.
O projeto “Cama, Café e Rede”, no qual os visitantes ficam em casa de moradores da região, garante bom atendimento. Informe-se pelo site do Roteiro Seridó.



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