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Número 98, Agosto 2014

cultura

Luz do sol, câmera, ação. O cinema móvel do Cinesolar

Estação de arte, sustentabilidade e cinema, projeto promove sessões itinerantes de filmes brasileiros. De graça e com energia limpa
por Xandra Stefanel publicado 24/08/2014 09h43, última modificação 24/08/2014 09h46
Estação de arte, sustentabilidade e cinema, projeto promove sessões itinerantes de filmes brasileiros. De graça e com energia limpa

Em 2013, o cinema brasileiro bateu recorde de produção e de público. Segundo a Agência Nacional de Cinema (Ancine), de 4 de janeiro de 2013 a 2 de janeiro deste ano 127 longas-metragens nacionais foram lançados no país e 27,8 milhões de espectadores estiveram às salas para ver produções nacionais. Foi o melhor resultado das duas últimas décadas.

Mesmo sem a mesma velocidade, o parque cinematográfico  brasileiro também tem aumentado. Dados da Ancine mostram que 2013 foi o quarto ano consecutivo de crescimento, com destaque para as regiões Nordeste e Centro-Oeste, com, respectivamente, 14,3% e 13,1% salas a mais. Ao todo, são 2.679 cinemas espalhados pelo país. Mas nem tudo são flores: dos 5.570 municípios brasileiros, apenas 392 tinham salas de cinema.

Além disso, mesmo nas cidades bem servidas de salas de cinema nem sempre o acesso – seja pela localização, seja pelo preço – é facilitado. Outro obstáculo é que, salvo as produções cercadas de grifes televisivas e fortes sistemas de distribuição, muitos filmes nacionais de qualidade acabam ficando pouco tempo em cartaz e logo desaparecem da programação.

Para suprir essa lacuna e levar o cinema onde geralmente ele não chega, alguns projetos começaram a ficar conhecidos por realizar sessões itinerantes e gratuitas, como o Cine Tela Brasil e o Cinema BR em Movimento. Se o público não vai ao cinema, o cinema vai ao público. O resultado passa pela democratização do acesso e do espaço de exibição. No ano passado, surgiu mais uma iniciativa, o Cinesolar, idealizado pela agência e produtora cultural Brazucah, com apoio da Associação Cultural Simbora e a Semearte Productil.

Parceira do Sindicato dos Bancários de São Paulo, Osasco e Região com o projeto Cine B – que proporciona a exibição de filmes nacionais em regiões periféricas da Grande São Paulo –, a Brazucah agora investe em aliar a versatilidade do cinema itinerante com conceitos de sustentabilidade. A iniciativa foi inspirada na experiência holandesa do World Solar Cinema. “E quando a gente foi desenvolver no Brasil, descobriu que seria mais que um cinema solar simplesmente. A gente entendeu que daria para montar essa estação móvel de arte, sustentabilidade e cinema”, afirma Cynthia Alario, diretora da Brazucah e responsável pela iniciativa. Assim nasceu o primeiro cinema itinerante sustentável do Brasil, que também promove workshops de ecografite e construção de instrumentos musicais com materiais reutilizados.

Compacto e atraente

Tudo o que precisam para as sessões de filmes e ateliês cabe em uma van: três arte-educadores, as placas que captam energia solar e a transformam em energia elétrica, uma bateria de armazenamento, cadeiras, tela de cinema, sistema de projeção, de som e uma mesa de DJ.

O impacto começa pelo visual do carro, grafitado por Deddo Verde a partir de estêncil de folhas naturais, especialidade do artista. “A ideia era que essa van chamasse a atenção das pessoas onde quer que chegasse, que fosse uma instalação artística móvel.

Trouxemos o lúdico para o carro. Às vezes, as pessoas nem reparam que tem placas solares em cima, mas elas vão reparar que o carro está todo grafitado. É uma maneira de a gente trazer as pessoas, explicar o que vai acontecer para que elas participem dos workshops e das sessões de cinema”, acrescenta Cynthia.

Os filmes são sempre brasileiros e apresentam a temática de sustentabilidade com três eixos principais: meio ambiente e questões sociais e econômicas. A intenção é promover as sessões sempre em locais abertos, como praças e parques, e priorizar os filmes que tiveram pouco espaço nas salas convencionais.

“Nossas palavras-chave são democratização e acesso ao cinema, por isso buscamos principalmente lugares abertos para poder ter essa mágica do cinema ao ar livre e damos prioridade para lugares que têm poucos equipamentos culturais. Quando a cidade é grande, a gente vai até as periferias”, afirma a responsável pelo projeto.

Até meados de junho, o Cinesolar já tinha realizado quase 60 sessões em vários municípios de São Paulo, Bahia, Brasília e Goiás. Levou filmes como Saneamento Básico, dirigido por Jorge Furtado, e Colegas, de Marcelo Galvão, a mais de 6 mil pessoas, com uma economia de energia que chegou a aproximadamente 56 mil watts. A programação e outras informações sobre o Cinesolar estão no site do projeto: www.cinesolar.com.br.

Duas dessas sessões foram organizadas em parceria com o Instituto de Desenvolvimento Ambiental Sustentável (Ideas), que atua em Capão Bonito e ­Ribeirão Grande, no interior de São Paulo. Cada ateliê contou com cerca de 60 estudantes de escolas públicas – inclusive da área rural – e as sessões de filmes reuniram em média 100 pessoas cada, a maioria alunos dos cursos de Educação de Jovens e Adultos (EJA).

Segundo o coordenador executivo do instituto, Paulo Henrique Queiroz, grande parte não tinha acesso à salas regulares de cinema, localizadas a 60 quilômetros de distância, nas cidades de Itapetininga ou Itapeva. “Dificilmente os moradores daqui têm acesso a cinema, especialmente os de Ribeirão Grande, que é uma cidade menor, com 5 mil habitantes. Não são pessoas familiarizadas com esse tipo de arte”, diz. “Mas quem foi para assistir, ficou até o final e gostou. O cinema já não é uma coisa comum aqui, ainda mais com essa tecnologia, que traz a questão da energia solar. Chamou muito a atenção.”

No início de junho, o vigilante Benedito do Carmo Costa, de 48 anos, assistiu a Saneamento Básico em uma sessão do Cinesolar em Cajamar, região metropolitana paulista. Sua cidade também não tem nenhuma sala de exibição – para isso, tem de ir à vizinha Jundiaí. “Nunca tinha assistido nada em um cinema assim. Fiquei maravilhado com o esquema e com o filme. Os que eu vejo no cinema normal, como Titanic e Tarzan – A Evolução da Lenda, são diferentes. Gostei de ver um filme nacional. É claro que tem filmes estrangeiros bons, mas a gente tem de valorizar o cinema brasileiro.”