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Número 96, Junho 2014

MUNDO

Salvos, mas não ilesos

Quatro anos depois, o cinema reconstitui o drama dos 33 trabalhadores chilenos que ficaram debaixo da terra durante 69 dias. Maioria está doente, e os responsáveis não foram acusados
por Cida de Oliveira publicado 22/06/2014 10h40, última modificação 30/06/2014 18h30
Quatro anos depois, o cinema reconstitui o drama dos 33 trabalhadores chilenos que ficaram debaixo da terra durante 69 dias. Maioria está doente, e os responsáveis não foram acusados
Ian Salas/efe
O Bombeiro do inferno

Elisabeth Segovia, irmã do mineiro Darío Segovia aguarda a saída do irmão

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María ficou conhecida por sua determinação durante o resgate

 

Depois de um forte estrondo, toneladas de terra e pedra são despejadas sobre um túnel. Quando a densa nuvem de poeira se dissipa e os trabalhadores percebem que estão presos no interior da mina, vem o desespero.

“Estamos enterrados vivos”, grita Antonio Banderas, em cena gravada no começo do ano para o filme Os 33, em fase de finalização.

Previsto para estrear em 2015 no festival de Cannes, na França, o longa é dirigido pela mexicana Patricia Riggen, de Sob a mesma Lua (2007), tem produção do norte-americano Mike Medavoy, o mesmo de Cisne Negro (2011) e roteiro assinado pelo porto-riquenho José Rivera, de Diários de Motocicleta (2003).

No elenco, a francesa Juliette Binoche, vencedora do Oscar pelo papel em O Paciente Inglês (1996), e o brasileiro Rodrigo Santoro, de Carandiru e 300, entre outros.

A produção, de primeira, tem a pretensão de levar para as telas o drama de 33 trabalhadores e suas famílias, que na vida real protagonizaram uma das maiores tragédias da história da mineração em todo o mundo. Na tarde de 5 de agosto de 2010, uma pedra de 700 toneladas, equivalente ao tamanho de duas torres Eiffel, bloqueou a única saída da mina de cobre e ouro San José, em Copiapó, na região do deserto do Atacama, no norte do Chile.

Ao longo de 17 dias, até que fossem descobertos pela equipe de resgate, os mineiros com idades entre 19 e 64 anos dividiam pequenas porções de atum e leite encontrados em um abrigo. Como contariam depois, em entrevistas, recearam enfrentar a mesma situação dos sobreviventes uruguaios do acidente aéreo ocorrido nos Andes, em 1972, que não tiveram outra alternativa senão se alimentar da carne dos próprios amigos mortos.

Em um domingo, dia 22 de agosto, em meio a um fio de esperança dos familiares apesar de todas as evidências, o então presidente Sebastián Piñera anunciou que os trabalhadores estavam vivos. Diante das câmeras de TV, exibiu um bilhete trazido à tona por uma sonda instalada pelo resgate: “Estamos bien en el refugio los 33”, escrito por José Ojeda.

Desde então, como num reality show, o drama passou a ser transmitido pela TV para todo o mundo. Os trabalhadores foram transformados em heróis capazes de sobreviver em condições extremas, quando não passavam de vítimas de um grave acidente que por pouco não custou suas vidas e que por mais de duas semanas o deixaram perdidos no centro da terra, morrendo aos poucos de fome, chegando ao ponto de escrever cartas de despedida.

“Estávamos na antessala da morte. Eu esperava por ela e estava tranquilo. Sabia que a qualquer momento as luzes se apagariam e seria uma morte digna”, diria meses depois Mario Sepúlveda, interpretado por Antonio Banderas, ao jornalista britânico Jonathan Franklin, autor de Os 33 – A milagrosa sobrevivência e o dramático resgate dos mineiros no Chile. “Preparei meu capacete, minhas coisas, vesti o cinto e arrumei as botas. Queria morrer como um mineiro. Caso me encontrassem, o fariam dignamente, com a cabeça erguida.”

A apuração exemplar das causas do acidente, a cobrança por fiscalização e melhores condições de segurança e trabalho num setor tão perigoso, mutilante e letal como a mineração – promessas de Piñera à época – perderam espaço para a cobertura dos preparativos do resgate espetacular, que mesmo com tecnologia da Agência Espacial Americana, a Nasa, poderia falhar numa região sujeita a terremotos.

Tragédia anunciada

“A transmissão ao vivo do resgate como um espetáculo obscureceu a tragédia trabalhista e as expressões dos próprios trabalhadores sobre o trauma, a precarização do trabalho, o enfraquecimento dos sindicatos e a ausência do Estado nas questões trabalhistas”, afirma a professora de Estudos Ibéricos e Latinoamericanos Else Vieira, da Queen Mary Universidade de Londres, em artigo que contrapõe a ênfase no resgate como um capítulo nobre da história política chilena às condições de trabalho na mineração, a principal atividade econômica do país.

Ela destaca o depoimento de Yessica Chilla, companheira do trabalhador Darío Segovia, o “bombeiro do inferno”, que apagava pequenas chamas na mina, que marca a certeza de que o colapso ocorreria a qualquer momento. “No dia anterior ao acidente, ele me disse que a mina estava a ponto de sofrer um ajuste, e que ele preferia não estar no turno em que o desmoronamento acontecesse. Mas precisávamos do dinheiro. Seu turno terminara, mas ofereceram horas extras.” Maria, irmã de Segovia, que pela firmeza ficou conhecida como a “prefeita” do acampamento dos familiares até o final do resgate, será interpretada por Juliette Binoche.

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Castillo, da CUT: más condições continuam, e espetáculo da mídia distorce a realidade

Ainda segundo Else Vieira, a certeza do desabamento aumentava a poucas horas da tragédia, conforme o próprio mineiro. “Antes das 11 da manhã, eu sabia que a mina desabaria, mas eles nos enviaram para colocar redes de reforço. Nós sabíamos que o teto estava mal e que poderia cair”. A montanha estalou meia hora depois. Conforme o depoimento do próprio trabalhador a Jonathan Franklin, o chefe de operações mineiras, Carlos Pinilla, chegou a esclarecer que o barulho era um “ajuste normal da mina”, indo imediatamente para a superfície, deixando o local de trabalho mais cedo do que o costume. Houve então um segundo estalo e um terceiro.

O desmoronamento começou, com camadas e mais camadas do túnel desabando. Às 16h, a mina tinha desmoronado totalmente. ”Nesse momento pensei que eu não voltaria a subir nunca mais”, disse Mario Gomez, o mais velho de todos, à época com 64 anos. “O que se vivia lá embaixo foi bem duro”, completou José Ojeda, ambos ao documentário Os 33: Com os pés na terra.

Uma investigação do Congresso do Chile, encaminhada pela Confederação Mineira Chilena, já tinha constatado que a mina San José nunca teve uma saída de emergência, obrigatória pelas leis do país, assim como escadas de fuga nas chaminés, que além de fornecer oxigênio deve ser uma segunda via de escape em caso de desmoronamento dos túneis. A confederação já tinha denunciado, durante anos, que a escada da San José estava decrépita e que a segunda chaminé, além de não ter luzes, corria junto ao túnel principal, fazendo com que um único acidente destruísse simultaneamente as duas vias de saída. Assustadoramente perigosa, conforme a entidade, a mina estava à beira de um colapso.

Na sua batalha contra os proprietários da San José por mais de dez anos, o presidente da regional Copiapó da CUT do Chile, Javier Castillo Julio, aponta ainda o descuido do Serviço Nacional de Inspeção de Minas. Em 2002, o sindicato dos mineiros fez um filme que já advertia para práticas inseguras de trabalho e os riscos de desmoronamento devido a um grande acidente na mina San Antonio, na mesma montanha, em 2003. Em vão, foram encaminhados documentos e relatórios para os donos da San José.

O resgate foi seguido de manifestações de solidariedade, presentes, convites e pedidos de entrevista cada vez menores com o passar do tempo. Três anos depois do acidente, em agosto de 2013, a fiscalização chilena encerrou as investigações sem apontar culpados por entender que não havia convicções suficientes sobre os responsáveis.

Os proprietários, Alejandro Bohn e Marcelo Kemmeny, que em 2010 responsabilizaram os trabalhadores por não colocar as redes protetoras, foram desresponsabilizados pela falta de segurança. O gasto que tiveram foi pagar os custos do resgate. A decisão foi criticada até pelo ex-ministro Laurence Golborne, que no cinema será vivido por Rodrigo Santoro. “Para que houvesse condenação, era necessário sair dali um par de velhos mortos. Assim, não há prisão”, disse o mineiro Mario Sepúlveda. A partir de então, o mineiro Luis Urzúa, o chefe de turno no momento do acidente e que decidiu ser o último a deixar a mina, tenta protocolar uma representação à Organização Internacional do Trabalho (OIT).

A tragédia não desencadeou medidas efetivas para a melhoria da segurança no trabalho no Chile. O Serviço Nacional de Geologia e Mineração, órgão do Ministério da Mineração, registrou em 2010 a morte de 45 mineiros enquanto trabalhavam. No ano seguinte, 29 mortos; em 2012, 25. E só entre janeiro e fevereiro de 2013 seis trabalhadores morreram. A maioria dos acidentes ocorre na região do Atacama, geralmente em minas de pequeno porte. As vítimas têm entre 20 e 30 anos e menos de três anos de casa. “A mineração chilena vai bem, mas os acidentes com morte continuam”, lamenta Castillo, da CUT. Segundo ele, em geral, os trabalhadores assumem o próprio risco sob pena de perderem seus empregos. Apenas 13% dos mineiros são sindicalizados.

Quatro anos depois do desmoronamento, os 33 estão longe de usufruir das benesses de celebridades que a mídia produziu. Tampouco se tornaram milionários, como muitos supõem, e esperam pelo pagamento dos direitos pelo filme. Aliás, a vida é bem diferente da rotina digna que tinham antes. Sepúlveda, o mais midiático desde o confinamento no interior da mina, com frequência é convidado para palestras e entrevistas. A maioria, no entanto, enfrenta problemas psiquiátricos, sofre com pesadelos e problemas de memória, conforme uma reportagem produzida pela BBC no final de janeiro. O acompanhamento especializado é feito por entidades privadas.

Dos que conseguiram novos empregos em minas menores, alguns estão afastados por licença médica. Há quem não consiga trabalho justamente pelas condições de saúde mental. Das promessas feitas por Piñera em 2010, nada foi honrado, nem a ajuda em assistência social, treinamento e tratamento dentário para amenizar os danos causados pela água dos tanques subterrâneos. Recebem pensão (equivalente a R$ 500) apenas 14 dos mineiros, os mais velhos. O governo alega que faz a sua parte e que cabe à Justiça decidir sobre o pagamento de indenizações. Até a Fundação Os 33, criada após o resgate, está com atividades suspensas por falta de recursos. Como diz Castillo, “ninguém se preocupa com eles porque prevalece a premissa neoliberal de que o mundo oferece oportunidades e cada um deve agarrar a sua”.

Enquanto o longa não chega aos cinemas, mais afeitos a aventuras de heróis em suas epopeias, quase sempre com final feliz, sobram expectativas. Castillo, que por 12 anos trabalhou no interior de uma mina, aprova a iniciativa dos cineas­tas por mostrar a fraternidade, união e companheirismo que mantiveram vivos 33 seres humanos, principalmente quando incomunicáveis. Mas lamenta a distorção da realidade por relatos equivocados. “Prevaleceu a ideia de que trabalhar em condições precárias, sem segurança, é opção dos mineiros, que aceitam a situação de bom grado porque habita dentro deles um herói disposto a enfrentar todas as circunstâncias para levar o pão para casa”, diz. “Não se trata de uma opção, mas sim de uma condição.”

União e companheirismo

Felipe Trueba/efe
No filme, “Super” Mario é interpretado por Antonio Banderas

Segundo a ser retirado da mina, Mario Sepúlveda ficou conhecido como Super Mario após o resgate dos trabalhadores chilenos. Para ele, mais importante que o acidente é a própria história deles, com a mensagem de união e companheirismo que os acompanhou durante todos os dias, à espera do salvamento.

O que o acidente mudou na vida de vocês?
Mudou nossas vidas por completo em todos os aspectos. Uma situação limite à beira da morte nos fez valorizar o dia a dia, nos faz pensar tanto no futuro como viver o presente valorizando as coisas essenciais e simples.

Vocês foram indenizados?

Até o momento não recebemos indenização correspondente. É uma luta que segue até o dia de hoje.

O acidente de San José deixou alguma lição?
Hoje no Chile tem se avançado no tema segurança, mas nos falta muito. A lição que o Chile recebeu é que falta segurança e mais fiscalização. De todo modo o acidente incentivou melhorias, mas lamentavelmente, como podemos ver hoje, é insuficiente.

Creem que a história está viva ou sendo esquecida?
Lamentavelmente a memória é frágil, a gente se esquece. Mas com outros acidentes como este, o caso da Turquia, o tema volta a ressurgir e a gente volta a recordar e sentir de perto. Nosso acidente foi algo que marcou a todos e o mundo inteiro, mas que lamentavelmente com o tempo se esquece, já que é uma notícia que envelhece. Mas, nesse caso, se trata da história de nossas vidas e de um final feliz.

O que pensam sobre o filme? Até que ponto vai chamar atenção para o acidente?
Levar às telas nosso acidente claramente fará reviver uma história que teve um final feliz e que foi uma lição de vida para todos. Não estamos acostumados a finais felizes. O filme poderá fazer a história ficar no tempo e ultrapassar fronteiras, mas o mais importante é nossa história, a mensagem, a união e companheirismo que nos levou adiante até o último dia.