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Número 95, Maio 2014

FUTEBOL

Maracanã, julho de 2014

Os resultados só serão definidos em campo, mas as análises de trajetórias e probabilidades sobre os times e craques da Copa do Mundo já estão postas
por Glauco Faria, do Futepoca* publicado 10/05/2014 08h25
Os resultados só serão definidos em campo, mas as análises de trajetórias e probabilidades sobre os times e craques da Copa do Mundo já estão postas
Érica Ramalho/GERJ
Maracanã

Às 17h do dia 12 de junho, quando Brasil e Croácia abrirem o primeiro jogo da Copa do Mundo, em São Paulo, terá início um evento com audiência estimada em 3,2 bilhões de pessoas em todo o planeta. Uma rara ocasião que coloca frente a frente ídolos já consagrados do esporte e dá a chance de diversos jogadores menos conhecidos despontarem em uma competição que tem em sua história confrontos épicos, gratas surpresas e grandes decepções a marcar gerações inteiras.

ROBERT GHEMENT/EFE EM CASA
De 19 Copas, em seis o país-sede foi campeão

Entre as seleções favoritas estão sempre as tradicionais, já campeãs ou que chegaram a mais de uma final de Copa, como a Holanda, presente em três delas. A Copa de 2010, que trouxe a Espanha como vencedora, foi uma exceção ao coroar­ um time que nunca havia levantado a taça, algo que não acontecia desde o título da Argentina em 1978. De acordo com levantamento realizado em abril pela Ladbrokes, maior empresa de apostas do mundo, o Brasil, com cinco triunfos, é o principal favorito, pagando 3 libras para cada 1 apostada. Na sequência vêm Argentina (com uma cotação de 4,50 para 1); Alemanha (5 para 1) e Espanha (6 para 1).

Além da parte técnica e da tradição, contribui para o favoritismo brasileiro o fato de jogar em casa. Novamente, a história mostra a importância de ter a torcida favorável (e talvez não ter a arbitragem desfavorável...). Das 19 edições de mundiais disputadas até hoje, em seis o campeão foi o país-sede. Para o jornalista Juca Kfouri, esse pode ser o diferencial a favor da seleção. “A torcida cantando o hino brasileiro à capela deu um combustível a esse time que ninguém imaginava que ele poderia ter, e o Felipão soube aproveitar isso muito bem. Se você pesquisar os ­jogos da Copa das Confederações, vai ver que o Brasil, em quatro jogos, fez gol logo no começo da partida, ainda tomado por aquela manifestação dos torcedores. Imagino que isso vá se repetir agora na Copa do Mundo”, avalia.

Em termos técnicos, Kfouri acredita que um dos problemas da seleção pode estar no gol. O titular vive uma fase no mínimo oscilante desde a derrota brasileira no Mundial de 2010. Goleiro da Internazionale de Milão à época, Júlio César seguiu em baixa no clube depois da Copa e foi para um time menor da Inglaterra, o Queens Park Rangers, em 2012. Sem nunca ter convencido como titular, está agora no inexpressivo Toronto FC, mas mesmo assim tem a confiança de Felipão.
O uruguaio Ghiggia, autor do gol que derrotou o Brasil em 1950, em partida lembrada até hoje

“Ao contrário da nossa tradição, o ponto forte do time é a defesa e o ponto fraco é o Júlio César. Aí vai uma idiossincrasia pessoalíssima, porque não confiava nele nem quando era tido, com razão, como o melhor goleiro do mundo, e essa desconfiança ganhou um respaldo menos pela falha em si contra a Holanda (na eliminação da seleção na Copa de 2010) do que pela sua reação depois, por não ter sido capaz de conviver com aquela falha”, diz Kfouri. “Um grande goleiro tem de ser um cara que toma um frango e faz como Gilmar (goleiro da seleção nas Copas de 1958, 1962 e 1966) fazia, sacode a poeira e avisa o time: ‘Agora aqui não entra mais’. Na minha visão, tem de ser um cara de sangue frio, e o Júlio César é um cara de sangue quente.”

Para o jornalista e pesquisador Celso Unzelte, há um grupo destacado de países que chega à Copa com chances maiores de título. “Hoje há quatro times acima dos outros: Alemanha, Espanha, Brasil e Argentina, cada um por motivos diferentes e dependendo do caminho que enfrentarão, já que brasileiros e espanhóis podem se cruzar logo nas oitavas”, avalia.

Ele destaca ainda o fato de a seleção alemã chegar à Copa em um estágio mais maduro e ser, como a Espanha, uma equipe mais homogênea e que depende menos de craques, como ocorre com as equipes brasileira e argentina. “A Alemanha talvez tenha menos talento concentrado em um jogador só, mas conta com grandes nomes em todas as posições, algo que o Brasil não tem. Vão para a terceira Copa do Mundo. Na primeira que disputaram em casa eram muito jovens, e agora chegam muito fortes.”

O fantasma do Maracanã

“Em 1950 ainda éramos suficientemente inocentes para achar que o futebol provava tudo, e que um país que construí­ra aquele estádio (Maracanã) e formara aquele time estava abençoado pela história. Assim, não só o drama de 16 de julho foi passado à geração seguinte como um relato cada vez mais depurado nos seus piores significados, como a decepção daquele dia ficou nas células, passa geneticamente para cada novo brasileiro, que já nasce massacrado pelo Ghiggia, já nasce com 2x1 contra.”

Era assim que o escritor Luis Fernando Verissimo definia em artigo publicado no Zero Hora em 1988 o que significava a derrota na final da Copa de 1950 para o Uruguai, um revés considerado o momento mais triste do futebol nacional, transcendendo o mundo da bola. O triunfo memorável afetou a alma brasileira, consolidando à época aquilo que Nelson Rodrigues chamava de “complexo de vira-latas”, um sentimento cultivado por muito tempo de que os brasileiros estavam fadados ao fracasso, e não apenas no futebol. Agora, novamente em casa, é possível fazer alguma comparação com o que ocorreu há 64 anos?

Copa no Brasil, 64 anos depois, desperta lembranças e temores, após superação do “complexo de vira-latas”


Para o historiador Gerson Wasen Fraga, autor da tese de doutorado A derrota do Jeca na Imprensa Brasileira: Nacionalismo, Civilização e Futebol na Copa do Mundo de 1950, ainda que haja muitas diferenças de contexto entre aquela competição e a que vai se iniciar em junho, há ao menos uma semelhança. “Era parte do objetivo em 1950, e também é um pouco hoje, mostrar para o mundo que o Brasil é um país moderno, de Primeiro Mundo, onde as coisas funcionam. Interessante que não é uma preocupação nossa com nós mesmos, mas sim com a forma como vamos ser vistos e entendidos.”

Contudo, o algoz da seleção brasileira em 1950 deve ter dificuldades para repetir o feito. Desde a falha na Copa de 2010, o goleiro Júlio César provoca desconfiançaO Uruguai, que mais uma vez se classificou para a Copa do Mundo dependendo da repescagem, caiu no chamado “grupo da morte” da competição, que tem ainda as campeãs Itália e Inglaterra, além da Costa Rica. “Coube à seleção um grupo muito complicado. Se conseguir passar, creio que a equipe vai ganhar confiança para fazer uma campanha similar à de 2010. Diria que pode perfeitamente chegar às quartas de final”, acredita Andrés Reyes, autor do livro El Propio ­Fútbol Uruguayo.

Se a Copa de 1950 influenciou a vida brasileira a partir daquela derrota, também foi responsável por forjar a identidade do futebol do país vencedor. E o desempenho da Celeste Olímpica em 2010, quando chegou ao quarto lugar, resgatou a autoestima de uma nação que parecia condenada a somente recordar as glórias passadas.

“O Maracanazo está presente na identidade dos uruguaios. Existe um antes e um depois de 16 de julho de 1950 (há muitos que sustentam que o antes era melhor que o depois)”, aponta Reyes. “Até 2010, ver o Uruguai campeão do mundo era visto como um feito fantástico e irrepetível, mas depois do que se passou na África do Sul, onde estivemos perto da final, já não se vê isto de uma forma tão distante. Seguramente, como aquela partida (a final de 1950) não haverá outra.”

Candidatas a surpresa

Embora o clube dos campeões do mundo ainda seja restrito, muitas seleções acabam sendo gratas surpresas em Copas mesmo não chegando a finais. Além do já citado Uruguai, um exemplo clássico é a equipe de Camarões no Mundial de 1990, sétima colocada do torneio. Os chamados Leões Indomáveis, que tinham o veterano de 38 anos Roger Milla como estrela, bateram a então campeã mundial Argentina na estreia, mesmo atuando quase todo o segundo tempo com um jogador a menos. Derrotaram a Romênia de Hagi, superaram a Colômbia de Valderrama e Rincón nas oitavas e só pararam diante da Inglaterra nas quartas de final, na prorrogação.
Neymar machucado, Messi em má fase: a circunstância pode ser boa para o desempenho dos dois na Copa

Hoje, a Bélgica é uma considerável candidata a surpresa/sensação da Copa entre as seleções que não têm tanta tradição. Sua campanha nas eliminatórias europeias foi impecável, e o time ocupava a 11ª posição no ranking da Fifa de abril deste ano, tendo chegado ao 5º posto em outubro de 2013 (agora está em 12º). Tal colocação garantiu o lugar de cabeça de chave à seleção no grupo F, com Rússia, Argélia e Coreia do Sul. Apesar de ter participado de 11 mundiais e ter até um título que o Brasil ainda não possui, a medalha de ouro olímpica conquistada em 1920, a seleção belga tem como sua melhor colocação em Copas um quarto lugar, obtido em 1986.

“Depende muito do que ocorrer nos cruzamentos entre grupos, mas, se fosse apostar em uma surpresa, seria a Bélgica, que ainda é uma equipe muito jovem para ser campeã do mundo, mas tem jogadores com muita qualidade que atuam nas principais competições. Da América do Sul, tem a Colômbia. Já dos outros continentes não vejo nenhum com condição de ser candidato a zebra”, analisa Celso Unzelte.

A se levar em conta o desempenho das Eliminatórias, a Suíça – de pouca tradição no futebol e país-sede da Copa de 1954 –, é 8ª no ranking da Fifa e é cabeça-de-chave do Grupo E, ao lado de França, Equador e Honduras. Vive, portanto, momento respeitável.

Fim de temporada

Maior artilheiro de uma edição só da Copa do Mundo, tendo feito 13 gols somente na Copa de 1958, o francês Just Fontaine explicou um dos porquês do seu desempenho em uma entrevista concedida quando fez 80 anos, em 2013. “Acho que para alcançar aquele recorde na Copa minha grande vantagem foi ter operado o menisco em dezembro de 1957. Como voltei a jogar apenas em fevereiro do ano seguinte, tive um perío­do de repouso que me permitiu estar mais inteiro do que os outros [atletas] em junho.”

Para Juca Kfouri, o desgaste de alguns atletas que estarão em final de temporada na Europa e em especial na disputa da Liga dos Campeões pode influenciar no desempenho de algumas seleções. “Há jogadores que certamente chegarão à Copa do Mundo esgotados. É só olhar pra trás e lembrar do melhor jogador do mundo à época da Copa de 2002, Zidane, e o desempenho que teve a França, o mesmo valendo para a Copa de 2006, quando o melhor era o Ronaldinho Gaúcho, e para a Argentina em 2010, com o Messi. O jogador que é campeão da Liga dos Campeões tira uma tonelada de responsabilidade das costas e relaxa. Só que aí dizem pra ele: ‘Espera aí, você tem um mês de Copa do Mundo para disputar’. É quase sobre-humano.”

A final da Liga dos Campeões será disputada em 24 de maio, a pouco menos de 20 dias do início da competição no Brasil. Entre as quatro equipes finalistas (as semifinais seriam disputadas em 29 e 30 de abril), há diversos astros e protagonistas de seleções importantes como o Bola de Ouro da Fifa, o português Cristiano Ronaldo, jogador do Real Madrid, e boa parte dos atletas do setor defensivo brasileiro como David Luiz, Dante e Marcelo, além de possíveis convocados, como Rafinha e Filipe Luis. O Bayern de Munique é a base da seleção alemã; o Chelsea tem figuras importantes da seleção inglesa como John Terry, Ashley Cole e Gary Cahill, e a Espanha possui vários de seus atletas entre os semifinalistas Real e Atlético de Madrid.

Neste aspecto, Brasil e Argentina poderiam comemorar a desclassificação precoce do Barcelona, já que isso preservaria um pouco mais suas duas principais estrelas, Neymar e Messi. No entanto, o argentino vive a pior temporada no Barcelona desde que foi escolhido como melhor do mundo.

Neymar, que também não vive um grande momento no Barcelona, passou por um período turbulento em função da obscura negociação que o levou para a Espanha, episódio que determinou a renúncia do então presidente do clube catalão, Sandro Rossell. Agora, uma contusão deve deixá-lo fora de ação por um mês, fato que pode lhe dar uma folga das cobranças no clube e também desgastá-lo menos fisicamente para a Copa. Ruim para o Barça, mas algo que pode ser providencial para a seleção brasileira.

O que pode ficar da Copa

*Acompanhe a partir de 7 de maio, o dia a dia da Copa. Uma parceria do Futepoca com a RBA e veículos parceiros.