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Número 85, Julho 2013

viagem

Mil retratos em um, na gigantesca Feira de Caruaru

'Já escrevi poesia/ Falando em mulher faceira/ Que anda de saia curta/Desfilando a rua inteira/Agora faço um cordel/Falando o que vi na feira' (Caxingó, cordelista da Feira de Caruaru, PE)
por Arthur Maciel publicado 20/07/2013 11h04, última modificação 21/07/2013 12h52
'Já escrevi poesia/ Falando em mulher faceira/ Que anda de saia curta/Desfilando a rua inteira/Agora faço um cordel/Falando o que vi na feira' (Caxingó, cordelista da Feira de Caruaru, PE)
Jesus Carlos
Feira de Caruaru

O Museu do Cordel é apenas uma das maiores bibliotecas do gênero e fica mais ou menos no meio do passeio, no meio do agreste. Os títulos, cerca de 10 mil, estão ali, desfilando uma profusão de versos e prosas com sotaque e almas sertanejas. “Chapas” originais, esculpidas em madeira de xilogravura, estão ali para provar que a obra é fresca. O Valor Que o Peido Tem, História da Donzela Teodora, O Casamento do Boiola, 2 Burros Discutindo Política, A Alma Pantariosa (e uma resposta bem dada), O Cordel e a Métrica, Pinochet no Inferno Recebido por Hitler, A Chegada de Lampião no Inferno, Almanaque dos Cornos, A Palestra das 3 Donzelas, O Sertão de Alma Lavada. E por aí vai. É só escolher:

R$ 1. E mais, Antônio Teodoro dos Santos (O Poeta Garimpeiro), Lampião, o Rei do Cangaço, Amores e Façanhas. Opa, este é R$ 3.

Os autores também são muitos. Entre eles, Olegário Fernandes, criador do museu, Maria Betânia, sua filha, Caxiado e Abaeté, José Pacheco, J. Borges, mestre maior da xilogravura, Leandro Gomes de Barros, paraibano que datou em 1865 a primeira edição. E Onildo Almeida, o cordelista que escreveu a música, gravada por Luiz Gonzaga em 1957, e tornada hino do lugar. E segue o baião:

A feira de Caruaru
Faz gosto a gente ver
De tudo que há no mundo
Nela tem pra vender
Na feira de Caruaru
Tem massa de mandioca
Batata assada, tem ovo cru
Banana, laranja e manga
Batata-doce, queijo e caju
Cenoura, jabuticaba, guiné
Galinha, pato e peru
Tem bode, carneiro e porco
E se duvidar inté cururu
Tem cesto, balaio, corda
Tamanco, greia, tem tatu
Tem fumo, tem tabaqueiro
Tem peixeira e tem boi zebu
Caneco, alcoviteiro, peneira
Broa e mel de uruçu
Tem calça de alvorada
Que é pra matuto não andá nu

A feira é lugar de artista. E também de abacates, graviolas, peras, ramos de coentro e cebolinha, pés de alface. Laranja, vermelho, verde, amarelo, cores suculentas de terra lavada, dispostas em bancadas. Vendedoras de tantas cores, agriculturas de tantas sementes, velhos e velhas observadores calados, fumo de rolo, gengibre, jurubeba. Mercado, carne, grãos, processados e a granel. Panelas, alumínio, ferro e barro. Passarela de becos, carros carregados em de mão, transportadores de compras manuais, carrinhos inteligentes. São 20 mil bancas, milhares de rostos.

Tem importados? Tem. E vestuário? E como. A cidade, um dos maiores polos de produção têxtil do país, vende ali boa parte de sua arte. Raízes, ervas, plantas e flores. Tem troca-troca, também. Ferragens. É a praia dos interiores. E democrática. Do lavrador ao senhor de engenho que toma caldo de cana e come uma galinha, um bode, guisado, cozido, um pirão, ou macaxeira. Um festival de cores e sabores, de desejos e ofertas. E trabalho para mais de 100 mil pessoas o ano inteiro, de segunda a sábado, das 8h às 17h.

Peças de barro, grandes e miúdas, bonecos que retratam as bandas de pífano, os trios de forrozeiros, morenas rendeiras, mulatas do cotidiano. Artesanato em couro, sandálias, chapéus, cintos, botas, carteiras, casacos, gibão e selas. Tapeçaria, rendas pra vestir o corpo, pra fazer a cama e a mesa, artefatos de madeira. Caminhos das lojas de artesanato, espalhadas entre corredores que parecem sem fim, um labirinto de arte em toda parte.

A feira pulsa, de domingo a domingo, com dias específicos para a sulanca, para os produtos eletrônicos, a chamada Feira do Paraguai, para as verduras, as carnes, cada dia um movimento diferente e novo, embora todas as peças estejam todos os dias presentes.

No meio disso tudo tem muita gente, indo e vindo de todos os cantos, carro de mão, bicicleta, motoqueiro. Coração de Caruaru. A história do seu surgimento confunde-se com a da cidade. Estima-se que surgiu há cerca de 200 anos, como ponto de parada de vaqueiros, que levavam gado do interior para Recife, e de mascates, que no sentido inverso carregavam produtos que chegavam do mundo à capital, pelo porto, direto para o interior.

É o epicentro da cidade, de onde tudo parte, de onde tudo se origina, os bares, as ruas, as avenidas, os prédios, os centros comerciais, empresariais, as casas, os conjuntos habitacionais, as rodovias. Em 1992 foi transferida do Largo da Igreja da Conceição, onde se formou originalmente, para o Parque 18 de Maio, também no centro da cidade.

Quanto mais efervesce, mais Caruaru cresce. Trezentos mil moradores, outros tantos visitantes, passageiros e viajantes, comerciantes e negociantes. Gente de Belo Jardim, Pesqueira, Sertânia, Garanhuns, Bonito, Triunfo, Ingazeira, Floresta, Santa Maria da Boa Vista, Gravatá. Da Paraíba, do Ceará, de São Paulo, do Rio de Janeiro, da Argentina. De todo canto, quem vê a feira conhece mil retratos em um, do Nordeste. Do Brasil.