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Número 73, Julho 2012

Mudança de hábito

O lixo produzido pelas fraldas descartáveis preocupa ambientalistas e as de pano voltam a conquistar espaço
por João Correia Filho publicado 04/04/2013 12h36, última modificação 13/07/2012 16h40
O lixo produzido pelas fraldas descartáveis preocupa ambientalistas e as de pano voltam a conquistar espaço

As fraldas de pano já não são as mesmas. Deixaram de ser um simples tecido de algodão dobrado e fechado com alfinetes ou fita adesiva. Estão modernas, bonitas, práticas e começam a fazer parte da vida de brasileiros que haviam se rendido às facilidades das descartáveis.

Ecoativa. Maya, com Maria Giulia: “Dá menos trabalho do que se imagina e tenho a sensação de estar ajudando o meio ambiente” (Foto: João Correia Filho)

Uma das explicações para essa tendência está na preocupação ecológica. Cada bebê utiliza cerca de 5 mil fraldas descartáveis durante os dois primeiros anos de vida. Elas podem demorar até 500 anos para se decompor – as de pano levam entre um e dois – e representam 2% de tudo o que é jogado nos aterros.

Os números assustam ambientalistas, desafiam fabricantes e consumidores e, pouco a pouco, têm levado famílias com bebês a retornar a uma prática que parecia fadada ao esquecimento ou às classes mais baixas da população, por motivos puramente econômicos. Trata-se de um mercado respeitável. Dois terços da população ainda usam as antigas fraldas de pano, o que tem animado as indústrias de descartáveis (a maioria multinacionais), cujas vendas cresceram 10% no ano passado e 16% no anterior.

Em contrapartida, o apelo ecológico vem incentivando um mercado que há menos de cinco anos era incipiente no Brasil e faz surgir confecções que se especializam na fabricação de fraldas de pano. “Elas estão mais práticas e conseguem ser inseridas no dia a dia de mães que trabalham e não têm muito tempo para os afazeres de casa”, diz Bettina Lauterbach, empresária da cidade de Gramado (RS) que investe no segmento desde 2007. 

Ela conta que há pouco menos de uma década esse novo tipo de fralda era fabricado somente nos Estados Unidos e na Europa, o que limitava o consumo às classes mais altas. “Agora começa a existir uma fabricação brasileira e, ainda que nossos números sejam pequenos se comparados aos das fraldas descartáveis, as de pano já despertam o interesse da população em geral e animam empresários”, afirma.

Na prática

O grande trunfo das fraldas descartáveis, a praticidade, parece ser ainda muito maior na concepção dos pais do que o dano ambiental que possam causar. Mas para a publicitária Maya Segers, de 28 anos, esse é também um dos primeiros equívocos de quem não adere às de tecido. “É só questão de criar uma rotina, pois elas podem ser lavadas na máquina ou no tanquinho”, diz. Terminada a licença-maternidade, Maya passou a deixar a filha de 5 meses, Maria Giulia, numa creche e, mesmo assim, seguiu com as fraldas de pano. 

“Deixo um saco plástico e as mulheres que trabalham na creche têm apenas o trabalho de tirar as fraldas sujas e jogá-las nesse saco, como fariam se fosse descartável. Quando chego em casa tiro o excesso de xixi e cocô e coloco na máquina de lavar. Dá menos trabalho do que se imagina e tenho uma sensação muito boa de estar ajudando o meio ambiente.” 

Joyce Guerra, 28 anos, moradora de Guaxupé (MG), concorda com Maya. “Quando me informei sobre os danos causados pelas fraldas descartáveis fiquei estarrecida. Confesso que senti uma enorme culpa por tê-las usado nos meus dois primeiros filhos. Com o Cristóvão, de ­­3 meses, só uso as de pano”, conta Joyce, que é deficiente visual. Ela explica que em poucos meses as fraldas de pano já compensam o investimento. “Gastei R$ 600 comprando o bastante para usar nos dois primeiros anos. Fiz as contas e constatei que gastaria muito mais em descartáveis. A gente nem sente o quanto são caras porque o valor é diluído no dia a dia”, avalia.

A empresária Bettina Lauterbach de­talha: “Se um bebê usa ­5 mil fraldas­ e ­cada uma custa em média ­R$ 0,50, temos uma economia de R$ 1.900, pois todas sairiam por R$ 2.500, isso depen­dendo da ­marca”.  Além disso, como ­observa ­Bettina, as fraldas de pano podem ser compradas de maneira gradual, ao longo da ges­tação, e ter seu custo diluído, “o que as torna ainda mais econômicas”, contabiliza a empresária. 

Mercado virtual 

Apesar do crescimento do mercado, as modernas fraldas de pano, diferentemente das tradicionais, ainda não encontraram espaço nas lojas e dependem das vendas pela internet. Ana Paula Silva, proprietária da marca Bebês Ecológicos, considera que um dos motivos é o custo alto da ­produção, o que reduz as margens de ­lucro. ­“Temos planos de aumentar e ­baratear nossa produção e de colocar ­nossas fraldas em ­lojas que se predispuseram a diminuir a margem de lucro”, diz Ana ­Paula, que no ­entanto viu crescer 400% ­suas ­vendas nos últimos três anos. 

Essa expansão está atrelada ao fato de os consumidores serem mulheres conectadas, bem informadas e abertas a hábitos ecologicamente corretos. “Os lojistas ainda têm um problema de preconceito com esse tipo de atitude, muitas vezes considerada fora do padrão”, afirma Bettina.
Para as duas empresárias, o que falta para o negócio decolar é mais informação. 

Bettina cita como exemplo um episódio em que a apresentadora Ana Maria Braga anunciou em cadeia nacional que a filha (Mariana Maffei) usava fraldas de pano em seu filho. “Sua força midiática fez com houvesse um aumento expressivo na procura pelo produto, muita gente querendo saber como era, como funcionava. E, quando as pessoas tomam conhecimento das vantagens, acabam aderindo”, afirma.  

Maya, mãe de Maria Giulia, aponta a necessidade de mudança de hábitos. Para ela, isso vai acontecer lentamente. “Eu espero que minha filha veja em mim um exemplo de contribuição para um planeta melhor, mesmo que isso nos obrigue a mudar a rotina. As próximas gerações só vão ter essa preocupação se dermos o exemplo.” 
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Modernas e eficientes

  • A nova geração de fraldas de pano em nada lembra os tecidos de algodão que eram dobrados e presos ao bebê. Os atuais modelos são basicamente compostos­ de uma capa em tecido impermeável em formato semelhante ao das antigas ­calças plásticas e, na parte interior, tecido absorvente. Elas também ficaram mais bonitas e práticas, com botões para regulagem de tamanho de acordo com o ­peso e a idade do bebê. Isso possibilita que sejam utilizadas por praticamente ­todo o período de uso de fraldas, cerca de dois anos.
  • Os absorventes internos também evoluíram e podem ser de fibras eficientes, que dão sensação “sempre seca”, similar à das fraldas descartáveis, mas sem ­adição de produtos químicos. No lugar dos absorventes também podem ser ­usadas as tradicionais fraldinhas brancas, ou ainda toalhas de banho, cortadas no tamanho adequado. Tudo depende do formato do corpo da criança, da quantidade de cocô e xixi que ela faz e, claro, do gosto e da disposição do consumidor
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