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Número 71, Maio 2012

Invisíveis na cabine

Em salas multiplex, cinemas de rua, cineclubes ou cinematecas, os projecionistas são as estrelas anônimas
por Guilherme Bryan publicado 04/04/2013 12h35, última modificação 14/05/2012 17h55
Em salas multiplex, cinemas de rua, cineclubes ou cinematecas, os projecionistas são as estrelas anônimas

(Foto: Jailton Garcia)

Em uma das cenas mais inesquecíveis de Cinema Paradiso (1988), do italiano Giuseppe Tornatore, o personagem Alfredo (Philippe Noiret) se vale do reflexo proporcionado pela lente do projetor para exibir o filme numa parede externa do cinema, para as pessoas que não conseguiram entrar na sala.

Eu ficava ali na cabine, em cima da plateia de um cinema enorme, com 600 lugares, e adorava ver a reação das pessoas, explica Juliana  

É também uma imagem emblemática da paixão dos projecionistas pelo ofício. Praticamente esquecidos pelos frequentadores de cinema, eles são os responsáveis por fazer com que cada imagem revelada na película, geralmente de 35 milímetros, chegue com perfeição à tela onde o filme “acontece”.A cada 24 fotogramas, um segundo de história. O ofício foi quase sempre ensinado pelos mais velhos aos novatos, de forma oral e manual, e por quem é apaixonado. Isso pode ser visto no documentário O Homem da Cabine, dirigido por Cristiano Burlan. Por 80 minutos, esses profissionais – de carreira ameaçada pela era digital – vão parar na tela para onde se dirige o olhar do espectador.

Encantado pela sequência de Cinema Paradiso, Matheus Alberto Gomes, de 22 anos, fez alguns testes de dentro da cabine de uma das quatro salas de um shopping de Poços de Caldas, em Minas Gerais, onde trabalha há um ano. “O importante no cinema é o projecionista, pois é ele quem vai saber colocar e montar o filme, descer para ouvir se o som está bom e controlar o foco e a luz. Há muita curiosidade em torno da profissão. Quando perguntam, explico com prazer. Na cabine, você se sente dentro do filme, é emocionante”, garante.

Burlan conta que costuma chamar o projecionista de profissional invisível. “Você só sente a presença dele quando alguma coisa dá errado. Se ele executa bem o trabalho, ninguém percebe que está ali. Hoje, com as cabines-mãe das salas multiplex, um projecionista cuida de quatro ou cinco salas ao mesmo tempo, o que já diminuiu bastante a possibilidade de emprego desse profissional. E, com o advento do digital, você precisa dele praticamente para acender e apagar a luz da sala”, diz o diretor, que quando criança via um tio projecionista trabalhar em Porto Alegre.

Tornatore captou de forma poética o sentido do ofício. Numa pequena cidade da Itália, o garoto Totó se refugiava da rotina familiar na cabine comandada por Alfredo. Mais de duas décadas depois, o clássico continua referência para os jovens projecionistas. “O filme demonstra muito bem o que fazemos. Eu ficava ali na cabine, em cima da plateia de um cinema enorme, com 600 lugares, e adorava ver a reação das pessoas. Muitas vezes também descia, porque gostava de ver a luz da projeção saindo da janela. Ninguém repara nisso quando vai ao cinema, mas eu adorava”, conta Juliana Britto, que foi projecionista, entre 2006 e 2009, no Cine FAC, em Assis, interior de São Paulo.

Com 34 anos, Juliana é exceção num ambiente majoritariamente masculino. Herdou a paixão do avô, ferroviário e dono de um projetor de 16 milímetros. O coordenador do cinema ainda duvidava que ela pudesse se firmar na função. “Achavam que eu não daria conta, por ser muito miudinha. Tudo era manual, os projetores eram da década de 1950, os rolos, pesados. Muitas vezes precisava fazer o motor pegar no tranco e sujar as mãos de óleo. Em outras, o filme começava a sair da parte de baixo do rolo e eu ia puxando, formando um montinho do lado e chorando, com medo de estragar, mas não querendo parar a exibição”, lembra.

Juliana acredita que, se acabar a projeção em 35 milímetros, a profissão corre o risco de desaparecer, pois qualquer pessoa que saiba mexer num computador poderá programar o filme para ser exibido no horário correto. “Mas, pelo que converso com os diretores de cinema, se depender deles, não acabará. Muitos não gostam do cinema digital, tanto que o número de títulos ainda é pequeno”, opina. Hoje, ela é produtora cultural da Brazucah Produções e coordena projetos.

Para Bruno Machado, de 25 anos, os museus também sempre precisarão dos projecionistas, uma vez que os acervos requerem cuidados especiais. Por isso, a profissão tende a passar por constantes mudanças, mas não vai desaparecer. “O Brasil está com um projeto aprovado para que até 2015 todas as salas do circuito comercial virem digital. O problema é que 90% têm mais de dez anos e foram criadas para um tipo de projeção. Assim, precisam mudar toda a estrutura, e não só os projetores, para superarem a projeção em 16 e 35 milímetros”, afirma. Bruno trabalhou durante dois anos na Cinemateca Brasileira, em São Paulo, e considera gratificante manusear a película, projetar um filme pela primeira vez e ser reconhecido por um diretor ou um produtor. Atualmente, ele colabora na coordenação da projeção de filmes do festival de documentários É Tudo Verdade.

cinema

O diretor Burlan não vê a profissão com tanto glamour como se imagina. Ao contrário. Diz que é “dura e insalubre”, porque até há pouco tempo a projeção era feita com carvão, cancerígeno. “Você juntava o negativo e o positivo, e gerava a luz que projetava a imagem da película. E hoje há as lâmpadas de xenônio, que podem causar até cegueira se forem manuseadas incorretamente. 

No foco O documentário O Homem da Cabine coloca os projecionistas na tela

Eles também ficavam sozinhos dez horas numa sala de projeção e eram explorados pelos donos dos cinemas, por não terem uma representatividade muito grande. A maioria não casava, alguns enlouqueciam”, lamenta. Burlan destaca, porém, exceções como a de um ex-faxineiro do Cinesesc, em São Paulo, que chegou a projecionista sem ter concluído o ensino médio e hoje faz faculdade, em função de o cinema ter-lhe despertado a busca pelo conhecimento.

Benedito Carlos Silva, 53 anos, começou a trabalhar com cinema aos 15, em Francisco Alves, no Paraná. Para ele, hoje presidente do Sindicato dos Operadores Cinematográficos de São Paulo, as salas atuais oferecem melhores condições de segurança. A jornada é de cinco horas diárias e o piso, cerca de R$ 1.000. “O novo sistema digital precisará do operador, mas ainda não sabemos como deverá ser esse novo profissional. Certamente, ele precisará passar por uma qualificação.”

O jornalista, escritor e roteirista Marcos Carvalho, de 52 anos, foi projecionista do antigo Cineclube Bexiga, em São Paulo. “No cineclube havia apenas um projetor, e não dois, como deve ser. Tínhamos de fazer um intervalo no meio da projeção para trocar os carretéis”, conta Carvalho. “A ideia de projetar filmes e ficar mais perto do cinema era interessante, ainda mais naquele momento de ditadura. Todos vinham com certificado de censura com duração de cinco anos para ser exibidos. Se saíam de circulação e não eram exibidos pela TV, não havia como vê-los a não ser nos cineclubes”, lembra. 

 
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