Ambiente
A química da morte e da impunidade
Agressões à saúde e ao meio ambiente por parte de indústrias – especialmente químicas – ainda são comuns. A impunidade favorece os agressores, torna o presente ameaçador e o caminho para o futuro insustentável
Por: Cida de Oliveira
Publicado em 03/04/2009
Dezembro de 1984. Na madrugada do dia 3 uma nuvem com 40 toneladas de gases letais, como isocianato de metila e hidrocianeto, espalhou-se sobre áreas residenciais vizinhas à fábrica Union Carbide Corporation, em Bhopal, na Índia. Três dias depois do maior acidente químico da história, causado por um vazamento num tanque durante operações de rotina, pelo menos 8 mil pessoas estavam mortas. Por omissão de informações por parte da empresa, o atendimento aos sobreviventes foi inadequado. Estima-se que mais de 30 mil pessoas sofreram seqüelas graves, irreversíveis distúrbios respiratórios, lesões oculares e vários tipos de câncer. A tragédia ganhou destaque internacional, gerou grandes manifestações e levou a Organização Internacional do Trabalho (OIT) a desenvolver programas de prevenção de acidentes industriais. Passados 22 anos, a água e o solo da região continuam contaminados. Segundo a organização ambientalista Greenpeace, a Dow Química, nova proprietária da fábrica, ainda não deu todas as informações sobre a composição dos gases e seus efeitos à saúde. A Union Carbide vendeu a empresa e tentou se esquivar da responsabilidade, pagando ao governo da Índia uma indenização irrisória. Hoje, mais de 150 mil sobreviventes com doenças crônicas ainda necessitam de cuidados médicos e uma segunda geração de crianças continua a sofrer os efeitos da herança tóxica deixada pela indústria. A lição de Bhopal parece não ter sido totalmente assimilada. O descaso com a saúde e o meio ambiente ainda prevalece em muitas corporações. De lá para cá, episódios semelhantes – em proporções menores, é verdade – continuam a ocorrer, inclusive no Brasil.
No mês passado, o administrador de empresas Elias Soares Vieira levou ao Ministério Público do Trabalho de Campinas (SP) denúncia de contaminação e prejuízos à sua saúde por metais pesados. Ele acusa a companhia norte-americana Eli Lilly, do ramo químico-farmacêutico, onde trabalhou durante dez anos. Já se passaram outros dez desde que saiu da empresa. Segundo Vieira, ele e outros colegas foram contaminados devido à exposição, durante o trabalho, a resíduos tóxicos, entre eles alumínio, arsênio, cádmio, chumbo e mercúrio. Essas substâncias provocam problemas neurológicos e câncer, entre outras complicações. “Tive o rim direito retirado por causa de um tumor maligno”, diz. Sua história, e a dos colegas, está contada em detalhes, fotos e documentos no site www.casolillynobrasil.blogspot.com. Em 2004 a indústria fez uma autodenúncia. Comunicou à Cetesb, a agência de meio ambiente do governo estadual, sua responsabilidade na contaminação do solo e se comprometeu a tomar providências para recuperar a área. Segundo afirmaram técnicos do órgão, do ponto de vista ambiental a situação já estaria sendo resolvida e restaria uma questão trabalhista. Para Elias, não. O ex-funcionário desconfia de um acordo entre a Cetesb e a Lilly. E diz que a indústria, logo depois de se autodenunciar, pagou indenizações de 2,5 milhões a 10 milhões de reais a ex-funcionários “em caráter reparatório”, como mostram documentos anexados por ele ao processo que move contra a empresa.
Até o fechamento desta edição, a multinacional não atendeu a reportagem da Revista do Brasil para dar sua versão. Localizada entre Cosmópolis e Paulínia, a fábrica foi construída próxima às margens do Rio Jaguari, que abastece três municípios e deságua no Rio Piracicaba. Nos anos 70 e 80 a Lilly foi uma das poucas empresas químicas da região de Campinas que não depositaram seus resíduos no Aterro Montovani, em Santo Antônio de Posse. Em vez disso, segundo Vieira, cavou poços e valas em seu terreno, nos quais enterrou o material tóxico, e construiu um incinerador que queimava a produção interna e de terceiros. “Parte do terreno foi arrendada e usada para o cultivo de frutas e verduras, que chegaram, inclusive, a ser vendidas à população”, diz.
Espeto de pau
Por ironia, a irresponsabilidade faz parte do caráter até de quem fatura para garantir proteção à saúde e ao meio ambiente. A Ultresa, empresa que presta serviço terceirizado de tratamento de efluentes das indústrias de couro localizadas na região do Vale dos Sinos (RS), foi apontada pelo Ministério Público Estadual como culpada pelo desastre ambiental do começo de outubro passado. Mais de 100 toneladas de peixes foram mortos no Rio dos Sinos. A investigação apontou altas concentrações de mercúrio, cromo, benzeno e xileno, todos potenciais cancerígenos. Ficou constatado que a empresa lançava parte dos efluentes diretamente nos afluentes do rio.
O ambientalista Henrique Prieto, do Instituto Martim Pescador, fazia uma expedição pelo rio quando foi surpreendido pelos milhares de peixes boiando, a cerca de seis quilômetros do centro de São Leopoldo. Ele diz que o problema não vem de hoje. “Tem a questão do esgoto doméstico, já que a maioria dos municípios não oferece tratamento, e muitas empresas aproveitam o relaxo da fiscalização, insuficiente, para poluir as águas”, diz. “O lado positivo da tragédia é mostrar que o rio ainda tem vida.”
O mesmo não acontece com o Rio Tietê, no trecho que atravessa a região metropolitana de São Paulo. E nem deve acontecer, segundo especialistas. “É difícil explicar para as pessoas que o maior programa de despoluição deixará, no máximo, suas águas menos turvas”, lamenta Maria Luisa Ribeiro, coordenadora da rede de águas da Fundação SOS Mata Atlântica. Símbolo do avanço urbano e industrial desordenado, o Tietê era fonte de abastecimento e lazer até o começo do século 20. Entre as décadas de 20 e 40 ganhou algumas barragens com a finalidade de produzir energia elétrica e passou a receber todo tipo de esgoto. Em menos de 20 anos, já estava morto. “As pessoas precisam se conscientizar do seu papel na preservação, na pressão sobre as indústrias. Não adianta ficar só culpando as empresas. Depois, mesmo que haja todos os recursos financeiros, nem sempre é possível recuperar.”
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