economia
Temos a receita
O Brasil suportou a turbulência de 2008 com mercado interno forte e crescimento e mostrou ao mundo que proteger empregos e salários é vacina contra efeitos da crise
Por: Vitor Nuzzi
Publicado em 16/09/2011
A exemplo da Petrobras, mercado tem se mostrado promissor para os mais diversos setores da economia (foto: © Agência Petrobras)
Bancários, metalúrgicos, petroleiros e químicos, categorias que reúnem mais de 2 milhões de trabalhadores e são consideradas referências nas negociações, abriram as campanhas salariais em um ambiente econômico desconfiado da situação internacional. Mas o cenário interno, apesar da desaceleração da economia, e os resultados obtidos recentemente pelas empresas animam os dirigentes sindicais a continuar reivindicando ganhos acima da inflação. A expectativa é superar, no segundo semestre, o ritmo das campanhas do primeiro.
De janeiro a junho, de um total de 353 acordos coletivos de trabalho estudados pelo Departamento Intersindical de Estatística e Estudos Socioeconômicos (Dieese), 93% foram celebrados com reajustes que não perderam para a inflação e a maioria deles com aumentos reais.
Esse desempenho duradouro das campanhas salariais na última década e a política de valorização do salário mínimo têm algo em comum: contribuem para proteger o poder de compra dos consumidores. E, por extensão, o mercado interno, sem com isso ter representado qualquer ameaça ao controle da inflação. Para os setores da imprensa e do mercado que costumam praguejar contra a renda sob a alegação de ser uma ameaça à estabilidade de preços – uma conversa do século passado –, o professor Claudio Dedecca, do Instituto de Economia da Universidade de Campinas (Unicamp), rebate.
Afirma que, a não ser para algumas pessoas “mal intencionadas”, não há nenhum sinal de que o crescimento do consumo esteja na raiz do processo inflacionário. O ambiente, aliás, favorece as batalhas por percentuais de reajuste acima da inflação.
O coordenador de Relações Sindicais do Dieese, José Silvestre Prado de Oliveira, observa que, embora nos acordos salariais tenham superado a inflação, os ganhos reais conquistados estão abaixo dos ganhos de produção, das vendas e dos resultados alcançados pelas empresas. Em 2010, por exemplo, o aumento real médio dos assalariados foi de 1,7%, enquanto o PIB do país alcançou 7,5%.
Para Dedecca, o aumento real de salário deve ser visto não apenas como fator de justiça social, mas instrumento para garantir o desenvolvimento econômico – considerando que a economia brasileira vem se sustentando via mercado interno. “Os aumentos reais no segundo semestre podem ser um fator importante na busca pela manutenção do crescimento de 4%”, afirma. O governo agora trabalha internamente com uma previsão de 3,7%.
O diretor-técnico do Dieese, Clemente Ganz Lúcio, afirma que o atual momento é favorável a que se busque bem mais do que o “empate” com a inflação. “Se estivéssemos no início dos anos 2000, diria que no quesito de negociação salarial estaríamos na série C do campeonato com a perspectiva de empatar em alguns jogos”, compara.
Para ele, um dos desafios para o futuro das negociações coletivas é justamente debater o crescimento dos salários em harmonia com a melhora da produtividade. Ou seja, o trabalhador tem motivos concretos para pleitear o aumento da renda sem que precise para isso acumular funções e tempo de trabalho. “É uma batalha que os sindicatos têm de travar”, adverte.
De vento em popa
Ainda que não seja possível calcular o tamanho, para o Brasil, de um impacto da crise nos Estados Unidos e na Europa, na avaliação do diretor do Dieese o país está “bem”. Mantidos os padrões outrora usados para o enfrentamento de crises, segundo ele, a instabilidade deixaria muitos desempregados.
(Foto: © Nacho Doce/Reuters)
“Alguém imaginaria nos anos anteriores (referindo-se ao governo Fernando Henrique Cardoso), em plena crise, a gente estar por aqui em negociação salarial?”, argumenta. No país em que se conquistou recorde de estoque de empregos com carteira assinada no último ano, ele defende a disputa pelo aumento real como estratégia de crescimento. “E mais empregos e mais salários são a base para sustentar o mercado interno.”
Mesmo com a previsão de um PIB menor para este ano, o fato é que os bons resultados continuam acontecendo em quase todos os setores da economia. A Petrobras, por exemplo, anunciou lucro líquido de R$ 21,9 bilhões no primeiro semestre, crescimento de 37% sobre igual período de 2010. Seu plano de negócios para o período 2011-2015 vai a US$ 224,7 bilhões, e em um ano o valor de mercado da companhia cresceu 28%, para R$ 328,4 bilhões.
Em julho, o Conselho de Administração da empresa aprovou a segunda parcela de distribuição antecipada de juros sobre o capital próprio aos acionistas, no valor de R$ 2,609 bilhões. “Com relação à atual conjuntura econômica, o cenário mundial apresenta instabilidade, porém ainda sem impacto em nossos negócios em função da concentração de nossas atividades no Brasil, onde o mercado se encontra em expansão, o que vem nos propiciando uma robusta geração de caixa necessária ao desenvolvimento de nossos negócios”, assinala o presidente da Petrobras, José Sergio Gabrielli, na apresentação dos resultados.
Com isso, os petroleiros preparam-se para uma negociação que é considerada chave, por seus reflexos na administração pública. A pauta de reivindicações aprovada em congresso da Federação Única dos Petroleiros (FUP) inclui reposição da inflação e 10% de aumento real. De acordo com a entidade, os bons resultados da empresa poderiam indicar uma negociação menos complicada, mas o problema é que até pessoas importantes do governo já manifestaram uma visão conservadora, relacionando aumento real a inflação.
Uma sinalização das prováveis dificuldades veio do setor elétrico – o acordo fechado com a Eletrobrás prevê ganho real de apenas 1%. Em São Paulo, o sindicato estadual dos trabalhadores do setor energético (Sinergia-CUT) já fechou acordos maiores com a Cesp (8,1%), a CPFL Energia (7,8%) e a CPFL Jaguariúna (7,04%).
As montadoras também vivem ciclo positivo desde 2005, com recordes sucessivos. No ano passado, venderam 3,5 milhões de veículos, e a meta é atingir 6 milhões até 2020. Por enquanto, o ritmo está mantido. De acordo com a Anfavea, a associação das montadoras, 3,7 milhões foram comercializados nos últimos 12 meses. E há 13 projetos em construção ou análise para expandir a capacidade – atualmente o país tem 19 montadoras e 24 fábricas.
(Foto: © Nacho Doce/Reuters)
As negociações com o setor automobilístico começaram em meados de agosto e, no segmento das montadoras, já assegurou índice de 5% acima da inflação. O acordo foi inovador para os padrões brasileiros, ao estabelecer o critério de reajuste e o patamar de ganho real por dois anos. Isso abre mais espaço para negociações de cláusulas sociais, com adesão das empresas à licença-maternidade de 180 dias.
O setor financeiro, por sua vez, continua acumulando ganhos bilionários. O Bradesco teve lucro líquido de R$ 5,6 bilhões no primeiro semestre, crescimento de 21% sobre igual período de 2010. Suas ações preferenciais saltaram 28% em 12 meses, ante 2% do Ibovespa. O lucro do Itaú Unibanco atingiu R$ 7,1 bilhões nos primeiros seis meses deste ano, 11,4% sobre o primeiro semestre de 2010. Os bancos públicos não ficam atrás. O Banco do Brasil anunciou lucro líquido de R$ 6,3 bilhões de janeiro a junho, 23% de aumento, com distribuição de R$ 2,5 bilhões aos acionistas; e a Caixa, R$ 2,3 bilhões, alta de 36%, na comparação dos semestres.
Novo cenário
“A crise, na fase atual, parece ser a crise do ‘medo de 2008’, e não algo sistêmico”, declarou ao jornal O Globo, em meados de agosto, o economista-chefe do Bradesco, Octavio de Barros, que apesar disso se alinha aos que consideram não ser ainda o momento de cortar juros.
As projeções para a taxa básica (Selic) também entraram na gangorra. Até pouquíssimo tempo atrás, o mercado – sempre ele – previa (e desejava) pelo menos uma ou duas altas ainda neste ano. Depois, a expectativa passou a ser de manutenção dos juros no alto nível de 12,5% ao ano. Até que começaram os movimentos dentro do próprio governo para que, dada a desaceleração inflacionária e diante do ritmo de crescimento, os juros passem a cair. “Não acredito que o presidente do BC queira ser responsável por um crescimento de 2% ou 3%”, diz Claudio Dedecca, da Unicamp. E acertou.
Com a decisão do governo de se comprometer a ser ainda mais mão-fechada com os gastos públicos, visando criar um clima mais favorável à queda dos juros, não coube outra opção ao Comitê de Política Monetária: em sua mais recente reunião, no final de agosto, tirou 0,5 ponto percentual da Selic, baixando-a para 12%.
“Note-se que o ‘descontrole’ da inflação saiu da agenda. A situação atual, de atenção à crise, deve ser vista como oportunidade. Abre-se espaço para redução dos juros”, afirma o professor do Instituto de Economia da UnicampAndré Biancareli. Segundo ele, as fórmulas macroeconômicas mastigadas pelo mercado podem ser superadas e o Brasil não deve permitir que a agenda conjuntural, de prevenção a eventuais efeitos da crise, se sobreponha aos seus desafios estruturais.
“Temos objetivos permanentes, como preservar o crescimento e os empregos; manter os investimentos em infraestrutura, saúde, educação; defender a indústria, cada vez mais apreensiva diante da concorrência chinesa; promover a integração produtiva, comercial e de cooperação financeira com a América do Sul”, defende Biancareli.
Colaborou Letícia Cruz
Bons resultados a partilhar
"Sempre defendemos que um país só pode ser grande e forte e ter influência no mundo na medida em que tem o mercado interno forte. Isso com bom padrão de rendimento dos trabalhadores, para que possam consumir o que é produzido pela economia nacional. Foi assim que o Brasil superou a crise causada pela quebra do banco Lehman Brothers em 2008."
João Antonio Moraes, coordenador-geral da Federação Única dos Petroleiros (FUP)
"Vivemos em um país de muita desigualdade e concentração de renda. Temos de corrigir isso. O aumento real, além de fortalecer o mercado e nossa economia, distribui renda. Nosso setor tem um ganho de produtividade altíssimo e uma rentabilidade em torno de 25%, fora do comum. Esse resultado precisa ser partilhado com os trabalhadores e a sociedade."
Juvandia Moreira, presidenta do Sindicato dos Bancários de S.Paulo, Osasco e Região
"Economia em alta, previsão de 4% de crescimento do PIB. Nunca se ganhou neste país como as empresas ganham vendendo energia elétrica. O consumo aumentou muito e as empresas pagam uma capela pelo processo de privatização. O importante é dar sequência à retomada do crescimento. O argumento da crise não se sustenta."
Jesus Garcia, presidente do Sindicato dos Energéticos de SP
"Nosso setor tem superávit de 12 mil postos de trabalho entre contratações e demissões. Então, está visivelmente em muito bom momento. Pelas pesquisas que temos feito com o Dieese, o setor químico cresceu, nos últimos anos, de 7% a 15%. Então, cenário de crise não prospera na mesa de negociação. E é a questão do aumento real que vamos discutir."
Raimundo Lima, da Federação dos Químicos (Fetquim-CUT/SP)
Acordo de longo prazo permite ao trabalhador prever investimentos ou gastos futuros. Ganho real proporciona poder de consumo e de poupança, mais produção e mais empregos. O aumento da ajuda o crescimento. Na crise de 2008, países como Alemanha ou Brasil, que sustentaram empregos e políticas públicas, saíram da situação com maior facilidade.
Sérgio Nobre, presidente do Sindicato
dos Metalúrgicos do ABC
Del.icio.us
Facebook
Google Bookmarks
Yahoo Bookmarks
Technorati
Twitter
MySpace
BlogMemes
Digg
Rec6
Reddit
StumbleUpon
YahooBuzz



