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Número 60, Junho 2011

Um homem em movimento

Conhecido pelos filmes que protagonizou especialmente dos anos 1980 para cá, Danny Glover é ainda mais atuante como cidadão engajado em melhorar o mundo
por Anselmo Massad e Paulo Donizetti de Souza publicado 04/04/2013 12h32, última modificação 10/06/2011 18h55
Conhecido pelos filmes que protagonizou especialmente dos anos 1980 para cá, Danny Glover é ainda mais atuante como cidadão engajado em melhorar o mundo

As lembranças de Danny Glover desde os primeiros anos de vida estão associadas ao ativismo pela igualdade de direitos e oportunidades e por justiça social. Primeiro em função do engajamento de seus pais em movimentos de trabalhadores quando os Estados Unidos ainda sentiam o sabor amargo da Grande Depressão e já se preparavam para ingressar na Segunda Guerra. O casal de funcionários públicos e testemunha de um momento em que a população negra estava ampliando sua participação na força de trabalho, e também nos sindicatos, logo veria o filho, nascido em São Francisco, Califórnia, embrenhar-se por movimentos sociais e raciais mundo afora, nos quais está metido até hoje. Glover preside o Fórum TransAfrica – maior e mais antiga ONG dedicada aos direitos da comunidade afrodescendente. 

No cinema, sua versatilidade pode ser constatada em filmes de ação, violentos ou cômicos, como a série Máquina Mortífera, Predador 2, Jogos­ Mortais e o western Silverado. Ou em dramas como A Cor Púrpura, Um Lugar no Coração e Testemunha. Fora desse universo blockbuster­, o ator criou há sete anos a produtora independente Louverture – nome alusivo ao líder da revolução haitiana de 1808, Toussaint Louverture, que tem também o sentido de “abertura” de olhares para a diversidade do mundo. 

Se seu olhar de cineasta é totalmente “globalizado”, o de ativista não é diferente. Atualmente­, apoia uma campanha internacional de trabalhadores da multinacional Sodexo (leia mais na  página 14) . E foi como militante do movimento negro internacional que veio ao Brasil pela primeira vez, em 2003, onde conheceu a educadora Eliane Cavallero, com quem é casado. Sua visita mais recente ao país foi durante as comemorações do 1º de Maio da CUT, que este ano destacou os laços históricos entre Brasil e África. Onde quer que fosse visto, se apresentava com o boné da central na cabeça. Foi assim que Danny Glover, que completa 65 anos em julho, recebeu por quase duas horas uma equipe da Rede Brasil Atual – rádio, site e revista – e da TVT no último dia 30 de abril. Leia a seguir os principais trechos da entrevista.

Por que o Brasil o atrai?
Muito do meu trabalho no Fórum TransAfrica está ligado aos direitos dos trabalhadores, principalmente aos direitos e à situação dos 150 milhões de afrodescendentes no hemisfério, dos quais cerca de 80 milhões vivem no Brasil. Pela sua liderança regional e mundial, o Brasil pode exercer uma influência extraordinária no futuro dos afrodescendentes. Estou muito contente de ver o ex-presidente Lula expor seu desejo de trabalhar com países da África, estabelecendo relações voltadas ao desenvolvimento.

"Pela sua liderança regional e mundial, o Brasil pode exercer uma influência extraordinária no futuro dos afrodescendentes"

Esse seu engajamento em questões sociais é anterior a sua formação como ator? De onde vem?
Eu acho que nasci assim. Nasci em um período de mudanças nos Estados Unidos. Meus pais eram de crianças a jovens durante a Grande Depressão (anos 1930), a recessão mundial e a Segunda Guerra. Logo depois que se casaram, foram trabalhar como funcionários públicos, categoria que então se transformava ao incluir mais e mais afro-americanos. Assim, meus pais foram se politizando. Minha infância em São Francisco colheu benefícios disso. Como estudante de Economia, eu era ativo na faculdade e na minha comunidade. Fui parte da liderança dos estudantes negros na Universidade de São Francisco.

Só depois se tornaria ator?
Depois de formado, trabalhei por seis anos na prefeitura de São Francisco, no escritório de desenvolvimento comunitário. Naquele período surgiam movimentos democráticos populares, de modo que boa parte das minhas ideias foi resultado dessa relação. Só então comecei a participar de cursos e atividades que me levariam a ser ator. E nada disso mudou minha relação com o mundo do trabalho, que segue parte da minha vida. Eu me envolvi nos movimentos anti-Apartheid e pela libertação africana, no início dos anos 1970. Meu primeiro trabalho em um palco foi uma peça de um grande dramaturgo sul-africano, Athol Fugard.

O ativismo fechou-lhe alguma porta na indústria do cinema?
Posso dizer que não tive tempo para me preocupar com isso. Nos anos 1950, nos Estados Unidos, você não conseguiria trabalhar se dissesse que era comunista ou se falhasse ao testemunhar na Comissão de Atividades Anti-Americanas. Teria de sair do país definitivamente ou não conseguiria nada, nem como roteirista, nem como ator, nem como diretor. Mas, hoje, sei lá se atrapalhou. Sempre digo que sou, nesta ordem: pai, no que provavelmente fiz meu melhor trabalho; depois, cidadão; e só então artista. O maior nível de engajamento para o ser humano deve ser a cidadania.

Em 2010, você participou de uma campanha para pedir que os atores convidados à cerimônia do Oscar não vestissem roupas da Hugo Boss. Como foi isso?
Era uma ironia. A marca estava fechando fábricas no Brooklyn, no estado de Ohio, perto de Cleveland, onde trabalhavam 300 pessoas, a maioria mulheres. Ao mesmo tempo, expandia sua presença no mercado­ dos Estados Unidos. A maior parte dessas mulheres era chefe de família e até da comunidade, então o impacto da perda do emprego não era só para as 300. Enviei carta à Academia e a todos os que participariam da cerimônia do Oscar, pedindo que não usassem Hugo Boss, já que a empresa oferecia roupas, ternos e smokings para o evento. Aquelas mulheres que achavam não ter voz nem oportunidades para mudar a situação sentiram-se fortalecidas para reivindicar o não fechamento da fábrica. Aquelas trabalhadoras desafiaram a empresa a criar novas possibilidades.

Seria possível pensar hoje em algo como a United Artists, a produtora criada nos anos 1920 por figuras como Charles Chaplin e D.W. Griffith, que reunia talentos independentes da indústria americana?
Primeiro, vamos falar sobre essa indústria. Ela tenta institucionalizar a imagem do mundo. No caso dos Estados Unidos, isso tem consequências globais: é a ferramenta usada pelo império para estabilizar seu poder. Quando esse império vive uma angústia ou crise, pode haver mais lançamentos desse ou daquele gênero com esse objetivo. Mas é possível encontrar formas nas quais um grupo pode se unir para estabelecer outros critérios e modos de contar uma história. O problema é o quanto foi institucionalizado que a indústria deve separar-se da vida real, funcionar como válvula de escape ou mecanismo de fantasia, longe do que está ligado à cultura e à vida das pessoas. Cultura é simplesmente a manifestação da experiência das pessoas, a história, a visão, quem são, a que aspiram.

Sua experiência como produtor baseia-se nessa ideia?
Há sete anos criei, com minha extraordinária e maravilhosa parceira de produção, Joslyn Barnes, a L’Ouverture Films. Partimos da premissa de criar conteúdo que reflita histórias das pessoas pelo mundo. Produzimos um filme sobre o furacão em Nova Orleans, As Águas de Katrina (2008, de Carl Deal­ e Tia Lessin), que foi indicado ao Oscar. Há um documentário sobre a música do movimento pelos direitos civis, Soundtrack for a Revolution (2009, de Bill Guttentag e Dan Sturman). Também produzimos Tio Boonmee, Que Consegue Lembrar das Suas­ Vidas Passadas, do tailandês Apichatpong Weerasethakul, Palma de Ouro em Cannes em 2010. E ainda Bamako, do extraordinário diretor Abderrahmane Sissako, do Mali, no oeste africano, sobre a crise da dívida. 

Ensaio sobre a cegueira

"Cabe a nós a responsabilidade de mudar paradigmas no modo de contar histórias. Ensaio sobre a Cegueira é um exemplo disso"

Especificamente em Mali?
É a história sobre a crise de todos os países do hemisfério sul. Há ainda dois filmes palestinos, Sal deste Mar (2008, de Annemarie Jacir) e O Que Resta do Tempo (2009, de Elia Suleiman), além de Black Power Mixed Tape, sobre o movimento black power (que abriu no Brasil o festival É Tudo Verdade, neste ano). Estamos para desenvolver um projeto com a escritora canadense Naomi Klein, autora de Doutrina de Choque e Sem Logo, sobre a economia argentina e a crise climática. Nenhuma outra empresa está fazendo o tipo de trabalho que fazemos. Tenho tentado fazer filmes por mais de 30 anos sobre Toussaint Louverture, o líder da revolução no Haiti, que dá nome a nossa empresa – aliás, l’ouverture em francês significa “a abertura”, que é o que tentamos fazer.

 

Por que ninguém mais faz esse tipo de cinema?
A indústria tende a dividir as pessoas, já que é capaz de pagar ou não salários enormes, permitir ou não que trabalhem. Por exemplo, cada grupo, cada ator que atinge um certo status tem um exército de assessores, advogados e tudo o mais para cuidar de sua imagem. Além disso, fazer um filme é caro. A ideia do que aconteceu na United Artists, com Chaplin, Mary Pickford (uma das grandes atrizes do período) e Douglas Fairbanks (comediante e ator), unindo-se para formar uma empresa, foi ótima naquele momento; hoje só seria viável se houvesse muita grana (risos).

Mas a própria indústria hoje não abre mais espaços?
Acredito que o império dá espaço para a imaginação até certo ponto... É como um bebê começando a dar os primeiros passos. Ele engatinha e começa a andar. Quando está prestes a sair correndo, o império e o poder tratam de tentar “educar” esse bebê, para não perder o controle, o poder e a influência sobre ele. Pegue um filme que ainda repercute hoje. Vi em 1965, e muitos viram pelo mundo, A Batalha de Argel, de Gillo Pontecorvo. O filme ainda é discutido, mesmo sendo de uma história feita 46 anos atrás. E sabe o que fez o “todo liberal” governo francês? Baniu-o em Paris por uns 20 anos. É assim que o poder faz e usa a indústria do cinema. Eles tentam controlar nossa imaginação, controlar em que as pessoas devem ou não acreditar ou o que devem estar ou não dispostas a fazer.

O documentário Trabalho Interno ganhou Oscar tecendo veneno sobre o colapso financeiro que levou à crise.
É um filme decente, não chega a desvendar a complexidade do que sucedeu antes da crise, porque tudo o que ele diz é que havia algumas maçãs podres no sistema, não que “o” sistema é o problema. Mas, mesmo assim, havia empresas desafiando o Oscar e a Academia a não mostrar o filme e a não lhe dar apoio. Antes, tudo o que era aceito como razão para a crise era o que tinha sido noticiado pela mídia.

"Sempre digo que sou, nesta ordem: pai, no que provavelmente fiz meu melhor trabalho; depois cidadão; e só então artista. O maior nível de engajamento para o ser humano deve ser a cidadania"

Você apoia uma campanha internacional sobre a Sodexo, envolvendo sindicatos de vários países. Está otimista quanto à capacidade de organização de trabalhadores globalizar-se como as economias?

Estou otimista sobre a dinâmica permanente disso. Essa colaboração é estratégica. A tática que usamos agora é achar um modo de fazer com que o poder que reside em nós como trabalhadores possa atender a demandas ou mudanças que acontecem em todo o sistema econômico.

No filme Ensaio sobre a Cegueira, brasileiros, americanos e mexicanos trabalham numa história do autor português José Saramago. É uma forma globalizada de contar uma boa história?
O autor era comunista também (risos). E um dos meus escritores favoritos. Seria brilhante se isso ocorresse mais. E cabe a nós a responsabilidade de mudar paradigmas no modo de contar histórias. Ensaio sobre a Cegueira é um exemplo disso. São relações com as quais eu sonho quando penso em fazer filmes, que mostram a interdependência entre nós no mundo. Mesmo quando eu assistia a filmes estrangeiros antes de me tornar ator, via-os não só em relação à identidade nacional associada – se era italiano, francês, brasileiro, chinês ou indiano –, mas às possibilidades de fundir as histórias. Cresci em São Francisco, na fusão de várias culturas e etnias. Que ótima forma de sonhar com a produção de cinema! Mas para quem define o que vão ser nossas relações e possibilidades culturais isso é irrelevante. Querem saber apenas do dinheiro. Não quero saber de Transformers, que meu neto adora (risos), ou Batman, que ele ama também. 

A indústria americana faz muitos filmes de ação e violência porque o público gosta ou o público gosta de ação e violência porque a indústria os faz? 
Acredito que as pessoas são condicionadas de muitas formas. Como disse antes, o que acontece é que o império o vê engatinhando um pouco e, quando percebe que você se levanta, até o deixa andar um pouco, mas se você começar a correr ele tenta desviá-lo do seu caminho natural.

Ficamos orgulhosos do fato de Máquina Mortífera 2 ter sido proibido na África do Sul ao ser lançado em 1989 por suas críticas ao Apartheid

O Roger (policial vivido por Glover na série Máquina Mortífera) foi um pouco desviado pelo Martin Riggs (seu parceiro, personagem de Mel Gibson).
É um personagem interessante. Se você olhar Máquina Mortífera só a partir do gênero, é um filme policial de ação, tem todos os elementos para isso. Mas há um tipo de condução da história, percebida nas entrelinhas da narrativa, que resulta da interação entre Mel, o diretor Richard Donner e eu.Danny Glover 2
O primeiro filme falava sobre proliferação das drogas. O segundo, sobre lavagem de dinheiro e o movimento anti-Apartheid. O terceiro, tráfico de armas. O quarto, migração. E tudo dentro do mesmo gênero de ação. O segundo filme, ao incluir a África do Sul, associa lavagem de dinheiro e regime racista. Pudemos mostrar coisas, porque a opinião internacional estava se posicionando. Em todo lugar falava-se em “Libertem Mandela” e “Fim do Apartheid”. E essa estrutura leva à introdução de ideias diferentes, como ter um personagem negro como o Roger Murtaugh, com família estável, funcionário público, que combate o crime etc. A isso, adicionam-se outros elementos. Ficamos orgulhosos do fato de Máquina Mortífera 2 ter sido proibdo na África do Sul ao ser lançado em 1989, por suas críticas ao Apartheid. 

Como foi atuar no papel do jovem Nelson Mandela? Nunca se interessou em interpretá-lo depois da liberdade?
A parte maravilhosa para mim era atuar no papel quando não havia imagens de quem era Mandela. Ele estava preso desde 1963, ninguém o conhecia, nem se sabia como ele era fisicamente, como soariam seus discursos. Para mim, só o que havia eram suas palavras escritas. A primeira coisa a fazer foi acreditar que aquelas palavras seriam as minhas. Há um grande momento de O Carteiro e o Poeta (1985, de Michael Radford), em que Pablo Neruda era um exilado na Itália – adoro esse filme –, e o carteiro diz a Neruda: “Essas palavras não pertencem a você, você pode tê-las escrito, mas agora elas pertencem a nós e podemos usá-las no amor, na vida”. As palavras pertencem a todos, não apenas a Mandela. Agora, tiram até sarro da forma como ele fala e anda. Mas em 1986 ninguém o conhecia. Mesmo reconhecendo que o filme tinha suas limitações, vimos seu surgimento.

Já pensou em levar para o cinema temas como a situação da base de Guantánamo ou a história dos cinco cubanos presos nos Estados Unidos na condição de terroristas?
Não sei. Mas certa vez me encontrei com um desses presos, Geraldo Hernandez, cercado por traficantes de drogas e assassinos, e pensei: que ser humano incrível. Sabe que pode nunca mais sair da prisão, a menos que fizesse algum tipo de acordo de cooperação com o governo americano, e não o fez. É um cara preso por suas convicções, por crer em ideais, e isso é poderoso. Deixe-me contar por que fico tão orgulhoso (desses combatentes cubanos e suas convicções). Quando Fidel Castro compareceu à posse de Nelson Mandela, em 1994, foi cumprimentar o presidente sul-africano recém-conduzido ao cargo. Mandela empurrou sua mão e o abraçou. E cochichou em seu ouvido: “Você fez isso acontecer”.

Por que ele disse isso?
Uma amiga egípcia, Jihan El Tahri, fez um documentário chamado Cuba, uma Odisseia Africana, que trata do envolvimento da ilha na África desde 1961, no Congo, depois do assassinato de Patrice Lumumba (líder da luta pela independência, primeiro-ministro eleito, depois deposto por golpe de Estado e morto). E há um momento da Guerra Civil em Angola (em maio de 1988) em que sul-africanos e cubanos abrem negociação depois de as forças militares cubanas terem barrado uma investida dos sul-africanos na batalha de Cuito Cuanavale. A discussão vai e volta, mas o ponto central para fazer a negociação avançar, a ponto de os dois exércitos estrangeiros se retirarem de Angola, foram a independência da Namíbia, subordinada aos sul-africanos desde a Primeira Guerra, e a libertação de Mandela, concretizada em 1990. Você não vai ouvir falar sobre isso. Sabemos das negociações, mas não em que termos se deu o acordo. Bem, essas eram as demandas das Forças Armadas cubanas.

Qual sua opinião, como afro-americano e ativista, sobre o presidente Barack Obama?
Tento ser bem cuidadoso sobre isso, mas não respondo olhando as pesquisas de opinião para saber o que falar. Bem, há um episódio interessante que envolve o presidente Franklin Roosevelt quando os Estados Unidos estavam para entrar na Segunda Guerra. Era 1941, Eleanor Roosevelt – uma das maiores primeiras-damas da história – convidou um grande líder trabalhista negro, Asa Philip Randolph, para uma reunião na Casa Branca com o presidente. Randolph está na audiência e fala ao presidente sobre todas as formas pelas quais se poderia fazer um país melhor, incluindo garantir direitos e oportunidades iguais a todos os trabalhadores. Ele fala sobre as mais horríveis coisas que aconteciam com os negros. O presidente, com todo o seu poder, vira-se para Randolph e diz: “Você está certo. Acredito que essas suas ideias são ótimas, mas você precisa achar um jeito de me permitir fazer isso”. Entende o que quero dizer? Precisamos encontrar formas de permitir que Obama faça. O poder só cede quando o forçamos a isso. 

Colaboraram Lúcia Rodrigues, Oswaldo Luiz Colibri Vitta (Rádio Brasil Atual) e Thalita Galli (TVT)