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Revista do Brasil - Edição 42 - Dezembro de 2009

Cultura

"Lindu tem a bravura dos heróis"

Premiada melhor atriz no Festival de Brasília, por sua atuação em "É Proibido Proibir", Glória Pires considera o "Lula, o Filho do Brasil" uma história comum e avassaladora

Por: Paulo Donizetti de Souza

Publicado em 04/12/2009

"Lindu tem a bravura dos heróis"

(Foto: Felipe Barra)

Glória Pires diz que suas filhas acharam "fofo" o filme "É Proibido Proibir". Tão fofo que faturou oito prêmios do Festival de Cinema de Brasília, entre eles melhor filme, melhor atriz (para Glória) e melhor ator (o titã Paulo Miklos). Ela está no batente desde criancinha: começou em A Pequena Órfã, em 1969, e ficou famosa aos 15 anos, como Marisa, a filha da ex-presidiária Júlia Mattos em Dancing Days, 1978. Para ele, seu prêmio é só mais um entre tantos faturados no cinema, como em O Quatrilho (no Festival de Havana), ou na TV – pelas gêmeas Ruth e Raquel de Mulheres de Areia ou a diabólica Maria de Fátima de Vale Tudo. Mas para o filme de Ana Muylaert, a premiação pode ser promessa de público e salas de projeção, de cuja atenção ainda padece o bom cinema brasileiro.

Falta de atenção é o que não passa pela cabeça dos produtores de Lula, o Filho do Brasil, também protagonizado por Glória Pires. O filme estreia em circuito comercial no dia 1º de janeiro em 400 salas do país com a expectativa de ultrapassar a marca de 500 cópias em exibição. A família Barreto sonha bater a bilheteria de Dona Flor e Seus Dois Maridos, de 10,5 milhões de pessoas. Até o final de dezembro, trabalhadores sindicalizados poderão adquirir, por R$ 5, ingressos antecipados para as sessões da primeira semana de janeiro.

Aos 46 anos, Glória atribui a segurança conquistada na carreira à presença constante dos pais em sua vida, a empresária Elza Pires e o comediante Antonio Carlos Pires, o Joselino Barbacena da Escolinha do Professor Raimundo. Ela admite que viver dona Lindu, a mãe de Lula, foi uma experiência diferenciada, mexeu com sua história de atriz, de mãe e de filha. Para Glória, trata-se de uma trajetória muito comum a milhões de brasileiros, mas ao mesmo tempo desconhecida. O filme tem a pegada de um épico e dona Lindu, a bravura de uma heroína.

Revista do Brasil – Enquanto você despontava na TV, em Dancing Days (1978), Lula ganhava projeção nacional como líder sindical. Você tinha alguma noção do que estava acontecendo no país naquela época?

Glória Pires – Não, nenhuma. Eu só fui ouvir falar do Lula quando ele já era presidente do sindicato, quando houve a prisão (1980).

O filme O Filho do Brasil tem algo de especial para você ou é apenas mais um bom filme em sua carreira?

As duas coisas. Acho que ele é um excelente filme, de muita qualidade. Mas o mais especial disso é essa história. Creio que 80% das histórias dos brasileiros passam de alguma forma por essa, que tem dados comuns a todos nós. Só que, por acaso, essa que está sendo contada é a do nosso presidente, e é especial prá gente pelo exemplo que ela dá, de se acreditar que é possível. O brasileiro tem uma crença de que no fim vai dar tudo certo. A gente trata de pessoas que saíram de uma situação de extrema dificuldade e conseguiram reverter essa situação, uma história de futuro improvável.

Uma criança que bebia água da mesma fonte que as vacas é de fato uma sobrevivente…

Né? E como tanta gente. É isso que eu estou dizendo. É uma história comum no Brasil. Mas é a primeira vez que se vê essa ausência completa de horizonte se transformar numa história tão bonita, tão avassaladora.

Como foi o trabalho de pesquisa e de construção da personagem dona Lindu. O que ou quem a ajudou mais?

Eles ficaram muito emocionados com o fato de verem sua história bem contada, principalmente da ligação deles com a mãe. Depois de tanto anos decorridos da morte dela, ainda hoje todos os filhos se emocionam muito falando dela. Então todos ajudaram demais.

Teve alguma coisa que você refez porque algum deles disse que não estava bom?

Não, nada. O Frei Chico estava em quase todas as filmagens. O Vavá também foi algumas vezes. Eles observavam, conversavam muito. Mesmo sendo uma recriação, eles ficavam muito emocionados de perceberem ali que momentos da vida deles estavam sendo contados.

E você?

Muito. Porque é uma história muito linda, porque é real.

Há alguma cena que a tenha tocado mais?

Uma cena que foi dificílima de fazer foi a da morte, quando ela já está bem doentinha e diz prá ele: “Você sabe o que tem que fazer. Se dá prá fazer, vai lá e faz. Se não, espera, que o mundo vai rodando, vai rodando e a oportunidade vai cair na sua mão”. Enfim, tenha paciência. Aquela foi uma cena muito difícil, eu fiquei muito emocionada, por umas coisas… histórias minhas, meu pai e minha mãe, foi bastante complicado. Bom, a mensagem toda do filme é muito boa.

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