EmTranse
O clone é do jogo
Depois de lançar Blog do Planalto sem espaço para comentários dos internautas, a Presidência da República vê – sem contestação – a rede reagir e criar clone para poder interagir
Por: Rodrigo Savazoni (emtranse@revistadobrasil.net)
Publicado em 07/10/2009
A Presidência da República lançou no mês passado o Blog do Planalto. Na página, o cidadão pode ter acesso a textos, áudios, vídeos, infográficos, entre outros conteúdos multimídia. Também pode acompanhar a agenda do presidente de perto. Se você ainda não acessou, vá lá: http://blog.planalto.gov.br. A experiência é inspirada em Barack Obama, cujo envolvimento com a internet foi fundamental para sua vitória. Todo o conteúdo produzido pela equipe de gabaritados profissionais contratados para a tarefa é regulado pelo Creative Commons, uma licença de direitos autorais flexível, que permite ao leitor copiar, distribuir, fazer uso comercial e alterar o conteúdo original desde que a fonte seja citada.
Aliás, a equipe é um dos diferenciais do projeto, formada pelos ciberativistas Daniel Pádua (que saiu logo depois do lançamento por divergências sobre seus rumos) e Daniel “Duende” Carvalho e pelo ex-coordenador de comunicação da ONG Greenpeace Jorge Cordeiro, entre outros, sob o comando do experiente jornalista Nelson Breve, secretário de Imprensa da Presidência da República.
Assisti ao anúncio do blog no Festival Internacional de Software Livre, em Porto Alegre, no mês de junho. Na ocasião, Breve e Pádua falaram com ativistas e militantes da comunicação livre e distribuída. Duas questões centrais apareceram. Seria um blog do Lula, com textos em primeira pessoa, ou um blog institucional? A opção foi pelo segundo formato. O cidadão poderia postar comentários? A resposta: não. “Vamos experimentar. Toda a minha defesa, dentro do governo, foi baseada no que a Casa Branca está fazendo, e seu blog não tem comentários”, afirmou Breve. “Pode ser que a gente abra, mas vamos ver se a equipe poderá dar conta, dar respostas na velocidade que a internet demanda.” Assim, o blog entrou no ar sem comentários – e começou a reação da rede.
Blog é a contração das palavras em inglês web e log. Lá atrás, por volta de 1997, eram apenas diários virtuais, mas rapidamente se transformaram no principal fenômeno de comunicação do século 21. Aliás, não seria exagero dizer que a mídia do século 21 começa com os blogs. Ou seria? O Technorati, empresa pioneira em estudos sobre a blogosfera, já indexou mais de 133 milhões de blogs, desde 2002. Uma das principais características dessa mídia é a disposição das informações em ordem cronológica, de forma “empilhada”. A outra é permitir conversação, por meio de comentários. Blog sem conversa fica perneta e parecido com as velhas mídias, em que um falava para muitos. Com as novas mídias, muitos falam com muitos.
Para compensar a falta de comentários, a equipe do Planalto criou outras formas de interação, como escolher entre três diferentes home pages, poder mandar críticas e sugestões e, caso o internauta faça em seu blog pessoal citação de um conteúdo do Blog do Planalto, ter sua postagem referenciada na página da Presidência. Mas essas medidas não bastaram para amenizar as críticas.
O clone
Dois dias depois que o Blog do Planalto foi ao ar, a empresa Esfera, de Dani Bezerra da Silva e Pedro Markun, clonou o blog da Presidência da República. No endereço www.planalto.blog.br, republica todos os conteúdos do blog “oficial”, mas permite comentários. A ação virou notícia e fortaleceu os debates sobre a relação entre internet e política.
No primeiro dia, muita gente ficou em dúvida. Ninguém sabia qual era o verdadeiro. O blog clone reuniu mais de 1.600 comentários nas primeiras horas de vida. Uma demonstração da demanda reprimida por voz ativa. “O momento mais sensacional de toda essa história não foi quando a mídia tradicional começou a nos procurar nem quando passaram a retwittar loucamente”, conta Markun. “O ponto de virada foi quando o Planalto se manifestou e disse que estávamos dentro do regulamento, portanto dentro do jogo.” Em nota, a Presidência da República informou que não faria nada contra o clone por considerar a internet um território livre e a cópia dos textos dentro das regras estabelecidas (a licença Creative Commons).
Parte da blogosfera viu no clone uma tentativa de enfraquecer o original. A principal crítica de alguns desses blogs, cuja missão é fiscalizar o que chamam de PIG (Partido da Imprensa Golpista), baseava-se no fato de ter sido realizado por Pedro Markun, filho do atual presidente da Fundação Padre Anchieta, Paulo Markun. Isso demonstraria que a ação desobediente era uma encomenda. O que se viu foi um fla-flu entre lulistas e antilulistas. Markun, o filho, é um ativista da comunicação livre, considerado por seus pares um dos grandes talentos de sua geração. O clone, uma ação de evidente caráter político, não pode ser visto – menos ainda interpretado – com os óculos do partidarismo. Não foi uma encomenda.
Juliano Spyer, autor do livro Conectado, que trabalhou na assessoria da campanha do prefeito Gilberto Kassab, postou em sua página, Não Zero, um texto comparando o Blog do Planalto e o twitter do governador José Serra: “O Blog do Planalto é a regra, é o que se espera do blog de uma grande organização, sujeita a ataques e administrada tendo como referência o paradigma do controle da informação”, escreveu. “O que não tem recebido a devida importância é um governador cara a cara com sua audiência, twittando com a desenvoltura de um nerd.” Serra tem mais de 90 mil seguidores. Comenta futebol, cinema, e seu governo. Dialoga com usuários diretamente, mas as críticas passam em branco.
A comunicação da Presidência
O Blog do Planalto é o capítulo recente de uma novela que teve início em 2003. De lá para cá, diversos profissionais procuraram consolidar um modelo mais dialógico de comunicação na Presidência da República. O início do trabalho foi coordenado pelo jornalista Ricardo Kotscho e pelo cientista político Fabio Kerche, hoje no BNDES. Kotscho derrubou divisórias do segundo andar do prédio e transformou a assessoria do Planalto em uma redação. Além da mudança física, lançou uma página dedicada à relação com a imprensa. Essa interface frágil e com funcionalidades elementares permanece no ar, www.info.planalto.gov.br.
Também a partir de 2003 a TV NBr especializou-se em acompanhar os atos oficiais do presidente. Ganhou o apelido de TV Marisa, pois o presidente poderia ser monitorado quase 24 horas quando estivesse longe de casa. Nesse mesmo ano, Lula passou a ter um programa de rádio quinzenal, o Café com o Presidente, veiculado em rede aberta de rádios às segundas-feiras pela manhã. Por meio dele, o presidente pode acessar diretamente a sociedade, inclusive em momentos delicados, como na crise de 2005.
Na reta final do primeiro mandato, a Secretaria de Comunicação da Presidência da República (Secom) foi coordenada, sem grandes mudanças de rota, pelo jornalista e cientista político André Singer. No segundo, iniciado em 2007, o jornalista Franklin Martins assumiu o cargo, com status de ministro. Aprofundou algumas ações, trabalhou pela criação da TV Brasil e agora lança o Blog do Planalto. O tempo dirá se a iniciativa rolará para a vala do fracasso ou flutuará para a glória.
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