Número 39, Setembro 2009
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Fígado de Jaguar

Entre os muitos mistérios que a medicina não decifrou, um envolve diretamente o fígado desse jornalista, cartunista e um dos personagens mais folclóricos da imprensa e da boemia
por Tom Cardoso publicado 04/04/2013 12:26, última modificação 02/10/2009 13:15
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Entre os muitos mistérios que a medicina não decifrou, um envolve diretamente o fígado desse jornalista, cartunista e um dos personagens mais folclóricos da imprensa e da boemia

(Foto: Luciana Whitaker)

Aos 77 anos, e consumidor de chope há mais de meio século, ele próprio calcula: 10 chopes por dia, em média; 3.650 por ano; mais de 200 mil litros de experiência. O fígado do cartunista, por um milagre, está zerado. Ao médico ele foi apenas uma vez nas últimas cinco décadas, por insistência da mulher, a sanitarista Célia Pierantoni. Sérgio de Magalhães Gomes Jaguaribe, o Jaguar, se diverte trabalhando. É assim desde que entrou para a revista Manchete, em 1958. Na época, conciliava o trabalho de desenhista com o de escriturário do BB. Seu chefe era ninguém menos do que Sérgio Porto, o Stanislaw Ponte Preta. Trabalhou em grandes publicações, da Senhor, de Paulo Francis, ao Última Hora, de Samuel Wainer. Hoje é consultor de humor da Desiderata, editora responsável pelos melhores lançamentos em quadrinhos dos últimos anos e pelas antologias de O Pasquim – o tablóide que marcou época nos anos 1960-1970, tendo à frente ele próprio e os melhores vagabundos de Ipanema, como Ziraldo, Paulo Francis, Tarso de Castro, Millôr Fernandes, Luiz Carlos Maciel, Sérgio Cabral. A entrevista, ainda inédita, estava guardada pelo repórter há dois anos. Mas, assim como o fígado do sabatinado, resistiu firme ao tempo.

Vocês fizeram história com O Pasquim, mas também cometeram gafes. Recusaram publicar, em 1969, trechos de Cem Anos de Solidão, de Gabriel García Márquez, que havia acabado de ser lançado.
Quem se recusou a publicar foi o Tarso. Todo mundo achou o livro genial, até então desconhecido, mas o Tarso, que era o chefe, bateu o pé: “Imagina se O Pasquim vai publicar livro de cucaracha!” Não saiu uma nota.

Mais tarde se redimiram e fizeram uma entrevista com o García Márquez no Pasquim.
É, foi em 1971, quando ele veio ao Brasil pela primeira vez, para ficar hospedado na casa do Oscar Niemeyer em Canoas (RJ). Toda a intelectualidade estava presente: Ferreira Gullar, Glauber Rocha, todo mundo. Quando cheguei para a entrevista, o Darcy Ribeiro estava ensinando ao García Márquez como trepar em rede sem levar tombo.  Eu é que deveria ter tido aquela aula... Logo depois de sair do Exército, fui à Amazônia, tipo aventura mesmo. Decidi trepar com a filha da dona da pensão numa rede. Levei um tempo e quase quebrei o crânio. Eu é que deveria estar na rede com o Darcy, tendo aulas.
 
Vocês entrevistaram mulheres lindíssimas no Pasquim. O Tarso deixou alguma pra você?
Só a Betty Friedman (feminista americana). Depois da entrevista, descolei uma garrafa inteira de batida de limão e fomos bebê-la no Antonio’s. Depois da oitava dose, eu já estava achando a Betty parecida com a Ava Gardner. Tentei beijá-la, mas ela me deu uma joelhada.

Já tomou viagra?
Tomei uma vez. Mas só para me masturbar. Viagra é ótimo para a memória: de vez em quando eu esqueço como é uma mulher nua. 

Ao contrário do Ziraldo, você diz que já broxou várias vezes...
Já broxei muito. Você não sabe como é bom broxar. O cara que não broxa é como um vibrador: liga, aperta o botão, e pronto. É uma delícia ficar insistindo. E tem outra coisa: a mulher adora quando consegue fazer o cara sair do prejuízo, se sente orgulhosa, uma heroína. O cara que vive de pau duro não pode dar esse prazer à mulher. E outra coisa: é mentira que o Ziraldo nunca broxou. O bordão dele é mentiroso. Eu tenho como provar. Andei namorando uma cantora lésbica, muito bonitinha. Não vou dizer quem. De repente tem filho dela por aí. Vai me processar. Nós fomos para um hotel. No meio da conversa, surgiu a história do Ziraldo, de que ele nunca havia broxado. Ela levantou indignada: “Não é bem assim, não”. E eu: “Como você sabe?” E ela: “Ele esteve comigo e não aconteceu absolutamente nada”.  Parece que ele fumou um baseado e vomitou. Na verdade, é preciso dar um certo crédito ao Ziraldo, já que não foi tecnicamente uma broxada. Ele nem chegou a ficar de pau duro. Eu também sou assim: toda vez que fumei maconha, vomitei.

A cocaína era a droga da moda do Pasquim.
Todo mundo cheirava, todo mundo. Menos eu, que ficava na biritinha. Ah, o Sérgio Cabral também não. Ele já sabia que seria pai do futuro governador do Rio. Não podia dar bandeira.
 
É verdade que o Carlos Drummond de Andrade era louco por sua primeira mulher, a Olga Savary?
Sim. Ele cansou de dar em cima da Olga. Nós nos encontramos na mesma lotação, a caminho da cidade. Naquele tempo, ainda não havia o aterro e as ondas batiam à beira-mar e molhavam todo mundo dentro do ônibus. E o Drummond ali, impassível. Ele era caladão, como o Manuel Bandeira, mas gostava de mulher. Era um velhinho assanhado. Eu morava na mesma quadra que ele e de vez em quando ele passava pelo meu prédio. Cantou a Olga no elevador, de um jeito discretíssimo, é claro. Ela me contou e eu mandei avisá-lo que iria enchê-lo de porrada. Imagine, eu batendo no meu ídolo, o Drummond.

Quando você decidiu viver do humor?
Eu era um garoto asmático, muito doente. Enquanto os outros caras jogavam bola, andavam de bicicleta, eu sofria com a asma. Meu pai é paulistano, mas morou muitos anos no Sul. Era apaixonado por Buenos Aires, pelas bibliotecas de lá. Aqui não tinha biblioteca, não tinha nada. Ele trazia uma pilha de livros da Argentina, tudo o que você podia imaginar: Kafka, Baudelaire, Rimbaud. E os livros que você lê dos 11 aos 18 anos são os livros que o marcam. E eu não fazia outra coisa. Só lia. Essa foi a vantagem de ter asma. A única, mas me salvou. Eu sou carioca, mas, por causa dos meus problemas de saúde, meu pai decidiu morar em Juiz de Fora e depois em Santos. Quando melhorei da asma, mudei para o Rio. Acho que o meu pai preferia que eu continuasse asmático. O Carlos Drummond de Andrade era caladão, como o Manuel Bandeira, mas era um velhinho assanhado. Cansou de dar em cima da Olga, minha primeira mulher

Seu pai não desistiu de pagar seus estudos?
Não. Ele me matriculou no Colégio Rio de Janeiro. Não durei uma semana. Fiz uma redação e usei uma palavra pouco usual. E o professor: “Olha, a redação está boa, mas você usou uma palavra que não existe”. Respondi na mesma hora: “O que não existe é um professor de português ignorante, que nunca leu Eça de Queiroz. Analfabeto!” Ele me deu uma reguada. Passei por mais alguns colégios e finalmente concluí o curso clássico num colégio do Largo do Machado. Aí veio o Exército. Foi uma carreira brilhante. Cheguei a cabo e terminei a carreira rebaixado, como soldado raso.
 
Por que foi rebaixado?
Por causa de um sargento chamado Gambine. Ele cismou que eu era veado porque era intelectual. Lia Rimbaud o tempo todo. E eu era o soldado 424, olha o meu azar. E todo mundo ali, perfilado, e o sargento Gambine me chamava: “Ô, 424, passo a frente!” E jogava um fuzil no meio do meu peito, com toda a força. E perguntava: “Que fuzil é esse?” Toda a tropa já sabia o que eu ia responder: “É uma espingarda”. O sargento ficava furioso. Nos oito meses que fiquei no Exército, passei, pelo menos, a metade preso, por causa da maldita espingarda. Acabei rebaixado, depois de ser pego em flagrante por um comandante. Por ser cabo, eu era chefe da guarda de um monumento histórico na Barra da Tijuca. Comandava três soldados. Um dia, um comandante, que nunca ia lá, resolveu levar a família para conhecer o forte. Chegou lá e viu os quatro soldados de cueca, cercados de garrafas de pinga. Minha carreira militar acabou ali. Cheguei a comer a mulher de um sargento. Eu e metade da tropa. Ela era ninfomaníaca.
 
Foi sua primeira vez?
Não. A primeira foi com duas empregadas. Eram duas alemãs, de Santa Catarina. E eu, magrinho. Elas me pegaram, levaram para o quarto delas e me curraram. E diziam que se eu contasse para a minha mãe cortavam meu pau. Fiquei traumatizado. Quando me lembro da minha primeira experiência, fico horrorizado. Deixei de comer muita prima por causa das duas alemãs. 

O Hélio Fernandes (irmão de Millôr) chegou a dizer que você desenhava mal e que jamais deveria largar o trabalho de escriturário...
Ele estava certíssimo. Sempre fui um péssimo desenhista.

Mas seu chefe no Banco do Brasil, o Sérgio Porto (o célebre cronista e humorista Stanislaw Ponte Preta), dizia que você levava jeito...
O Sérgio Porto era fantástico. Foi uma sorte que eu dei. Já tinha procurado outros empregos, mas nada dava certo. Cheguei a trabalhar numa agência de publicidade, mas vi que não levava jeito. Depois fui vender vinhos em lojas. Recebi um mostruário e bebi tudinho. Eu era um desastre. Aí resolvi entrar para a Marinha Mercante. Fiz um concurso e passei. Meu plano era ficar rodando o mundo, enchendo a cara e comendo mulher. Aí me apaixonei e casei com a Olga Savary. Tinha de levar a vida a sério. Resolvi fazer concurso para o Banco do Brasil e passei. Mas tirei zero em datilografia, que na época ainda não era eliminatória. E o meu trabalho seria justamente datilografar ordem de pagamento.

E como se virou?
Eu cheguei lá, vi qual era o meu serviço e resolvi ir embora. O meu chefe me pegou pelo braço e perguntou: “Você tem algum parente médico?” Eu disse que tinha vários primos médicos. E ele: “Pega uma licença médica e faz um curso intensivo de datilografia. Qualquer débil mental aprende a bater a máquina. Até você”. Era o Sérgio Porto.

Ele já era um grande cronista...
Sim, escrevia na Tribuna da Imprensa. Ele ficou seis meses comigo e se demitiu. Depois, me chamou para ilustrar os livros do Stanislaw Ponte Preta. Eu ia lá na casa dele, na Leopoldo Miguez, em Copacabana. Fomos muito amigos. Ficamos várias vezes de porre em pleno expediente. Às vezes aconteciam algumas cagadas. Eu fazia ordem de pagamento para o mundo inteiro. Era para mandar uma ordem de pagamento de 10 mil coroas para Copenhague, na Dinamarca, e mandei de 100 mil. E pagaram!
 
Foi possível conciliar o trabalho no Banco do Brasil com o de cartunista na revista Manchete?
Sim. Naquela época todo humorista tinha de ganhar a vida com algum emprego sério. Eu entrei na Manchete no lugar do Borjalo, que tinha sido contratado da revista O Cruzeiro, celeiro dos grandes chargistas da época. Fiz um concurso, promovido pelo Nahum Sirotzky, diretor da Manchete. Passei, junto com outros dois chargistas, o Claudius, do Sul, e o Brandão, que era do Maranhão. O Brandão, aliás, estava animadíssimo, com as malas prontas para vir pro Rio. Eu perguntei: “Vai viver do quê? De cartunista? Vai morrer de fome, arruma um emprego logo”. Ele entrou no concurso do Banco do Brasil e largou a carreira de humorista. Alguns anos atrás o encontrei. Ele estava desgostoso com a vida de bancário. Culpa minha. Quando casei com a Célia, eu achava que jornalista era a categoria que mais bebia. Passei a frequentar sua roda de amigos e descobri que médico bebe muito mais que jornalista

Você participou da equipe fundadora da revolucionária revista Senhor...
É. Fui demitido da Manchete pelo Sirotzky. Eu fiquei puto. Saí espalhando barbaridades sobre ele, dizendo que era um centauro, metade cavalo e metade também. Eu não sabia, mas ele já estava tramando, em 1959, a revista Senhor, junto com o Carlos Scliar e o Paulo Francis. Quando o projeto deixou de ser segredo, ele me chamou. Foi a publicação mais importante editada no país. É claro que O Pasquim teve sua importância, mas a Senhor reuniu um time imbatível, de Rubem Braga a Drummond, de Fernando Sabino a Carlinhos Oliveira. Fiquei até o fim, em 1964. Eu tenho essa característica. No Pasquim, também fiquei do primeiro ao último número. Só na Bundas (extinta revista de humor, lançada por Ziraldo) saí no meio, brigava muito com o Ziraldo.
 
Você continua brigado com o Ziraldo?
Não. A gente briga como dois irmãos brigam. Somos amigos há mais de 50 anos. Só que eu não concordava com essa história de Bundas, de Pasquim 21, de tentar resgatar os tempos do Pasquim. O jornal já está na história. Não há mais clima para resgatá-lo.
 
Vocês passaram um tempo na Vila Militar, no episódio que ficou conhecido como a “Gripe do Pasquim”. O único que não foi preso foi o Millôr. O Tarso de Castro jura que ele fez acordo com os militares.
Eu não sei de nada. O que eu disser aqui vai ser puro “achismo”. Só sei que fui parar na cadeia por pura chantagem sentimental do Paulo Francis.
 
Que chantagem?
Eu estava muito bem escondido, na casa de um dos maiores reacionários da história: o Flávio Cavalcanti. O cara que depredou o Última Hora, do Samuel Wainer. Ou seja, não seria encontrado nunca pelos militares. Estava em excelente companhia, com a Leila Diniz, tomando o uísque do Flávio Cavalcanti, sem culpa. Eu estou lá, no bem-bom, e liga o Paulo Francis, que já estava preso: “Vocês têm de se entregar só para prestar depoimento. Se não vierem, eles não soltam a gente”.
 
E você?
Eu disse que não ia. Que não queria ser preso. Ele fez uma voz dramática, embargada, e disse: “Segue a voz da sua consciência”. Fodeu. Fiquei com remorso. Liguei para o Sérgio Cabral, contei a história, e ele decidiu ir comigo. No meu caminho, encontramos o Flávio Rangel: “Eu também vou”. E eu: “Mas eles nem te chamaram!” E ele: “E como fica a minha consciência?”  E o pior é que o Rangel estava com uma mala enorme, pronto para prestar depoimento! É claro que os caras iriam aproveitar e enquadrá-lo ali mesmo. Quando chegamos em frente à Vila Militar, eu tive uma intuição e disse para o chofer do táxi: “Volta para o primeiro boteco que você encontrar”. Tomei um copo de cachaça e me entreguei. Ficamos dois meses e ninguém interrogou a gente porra nenhuma.

Sua mulher consegue acompanhá-lo na bebedeira?
Vou dizer uma coisa: quando casei com a Célia, eu achava que jornalista era a categoria que mais bebia. Depois que passei a frequentar a roda de amigos da minha mulher, descobri que médico bebe muito mais.
 
Qual foi o maior bebum que conheceu?
Bebum qualquer um pode ser. Conheço gente que toma três cervejas e já fica de porre. O Roniquito (Ronaldo de Chevalier, economista) era assim. Tomava dois uísques e já queria partir para a porrada com todo mundo. O Paulinho Mendes Campos (escritor) também. O difícil é ser um bom bebedor.
 
É verdade que você não tem ressaca?
É. Se tivesse ressaca eu não bebia. Não aguentaria. Eu nunca contei, como o Romário, mas acho que já bebi mais de mil litros de chope
 
Vai ao médico, se cuida?
Eu não me cuido porra nenhuma. É um milagre. Não tenho horário para comer, não faço ginástica, não ando. No máximo ando um quarteirão, de bar em bar. Só fui ao médico agora, quando urinei sangue. Minha mulher me obrigou a marcar uma consulta, não teve jeito.

Algo de grave?
Não, nada. O médico perguntou há quanto tempo eu não marcava uma consulta. Eu disse que há 20 anos e que atribuía a esse longo período o fato de ainda estar vivo. Eles fizeram todos os exames. Gastei uma fortuna, pois não tenho plano de saúde. Só não fiz toque retal. O médico disse que queria me apalpar e eu disse que ele só conseguiria se chamasse dois negões. Ele olhou espantado para mim e quis saber o porquê dos dois negões. E eu: “Para me segurar”. Acabei não topando, e nunca vou fazer. Vou morrer virgem.
 
Você chegou a dizer que quando morresse queria que suas cinzas fossem espalhadas por todos os bares em que bebeu. Vai ter cinza suficiente?
Para você ser cremado, é preciso registrar em cartório, né? Fui lá e o cara me perguntou: “Como você quer que suas cinzas sejam espalhadas?” E eu: “Quero que as minhas cinzas sejam espalhadas pelos bares em que bebi no Rio”. O cara fez a mesma pergunta: “Será que vai dar?” Eu disse: “Se não der, é só pegar um pangaré velho, queimar e juntar tudo”. Mas, como não confio muito nesses caras de hoje, eu mesmo vou fazer um ensaio geral da minha cerimônia de cinzas.
 
Já começou a ensaiar?
Ainda é cedo, mas já fiz a lista: serão dez bares por dia durante alguns meses. Minha mulher acha meio mórbido, mas estou decidido. A ideia é ótima. Meus amigos também acham. Estão todos animadíssimos com o meu funeral.

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