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Número 39, Setembro 2009

Cinco anos de impunidade

por Por Marcelo Santos. Foto de Jailton Garcia publicado , última modificação 03/09/2009 19:20
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Quando estava estendido sobre o leito frio de uma cama do Instituto Médico Legal de São Paulo, o morador de rua Ivanildo Amaro da Silva, 41 – um travesti desempregado, que era conhecido como Pantera e aparentava 50 anos –, conseguiu a atenção que nunca teve enquanto estava vivo. Ali notaram a cor castanha de seus olhos, sua compleição física mediana e sua pele negra. Descreveram seu bigode como de um “colorido grisalho”, seus cabelos raspados e sua face ovalada, abrigando um largo nariz. Nas mãos, unhas cuidadosamente pintadas de “vermelho cintilante”.

Pantera morreu depois de ser atingido por um “agente contundente”, provavelmente um porrete, que o fez sangrar enquanto dormia na esquina da rua Tabatinguera com a praça João Mendes. Ele foi um dos sete moradores de rua assassinados na região central da cidade de São Paulo, numa onda de 15 ataques sofridos entre os dias 19 e 22 de agosto de 2004, que deixaram ainda oito feridos.

Cinco anos depois, o episódio, conhecido como a Chacina da Sé, ainda não foi esclarecido. Na ocasião, um opala preto circulou, durante as madrugadas, pelo local. Dentro do automóvel, homens armados de cassetetes escolhiam suas vítimas, moradores de rua imersos em um sono do qual jamais despertariam. Não houve luta. Apenas um golpe. Certeiro.

Apesar das câmeras e seguranças que vigiam o centro da cidade ininterruptamente, durante as madrugadas do ataque ninguém sabe o que aconteceu, ninguém viu. O inquérito policial, que se estendeu durante quase um ano, apontou como culpados cinco policiais militares e um segurança; nenhum deles responde pelo crime. O processo, apresentado pelo Ministério Público de São Paulo, repousa no Supremo Tribunal de Justiça, nas mãos da ministra Laurita Vaz. É provável que caminhe para um arquivamento, segundo a Pastoral do Povo da Rua.

Por essa razão, quatro grupos formados por moradores de rua saíram dos pontos onde os massacres ocorreram. Levaram bandeiras, pandeiros, cruzes e cartazes pedindo justiça. Depois do ato, na frente da Catedral da Sé, eles voltaram para suas atividades cotidianas, quem sabe naquele momento à espera de que mais um jato d’água dos caminhões-pipa de limpeza da prefeitura os expulsassem das ruas onde costumam dormir, encharcando os seus pertences – diante dos olhos da vice-prefeita, Alda Marco Antônio, presente ao ato.

 

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