Seminário
Pensar o dia seguinte
Por: Roberto Rockmann
Publicado em 07/07/2009
Apesar do desempenho interno, que leva muitos a dizer que o Brasil já vê a crise pelo retrovisor – ou seja, ela foi ultrapassada, mas não se perdeu de vista –, o cenário internacional ainda exige cautela. Para o sociólogo Emir Sader, a crise ainda é um teste duro para a economia brasileira.
“Estamos pagando um preço alto”, disse, durante o Seminário Internacional sobre a Crise promovido no final de junho pelo Partido dos Trabalhadores e pelo Partido Comunista do Brasil, sob organização da Fundação Perseu Abramo.
De acordo com Sader, com a queda das exportações por conta da redução da demanda externa e a restrição de crédito para empresas instaladas no país, o governo precisa diversificar ainda mais o comércio internacional e aumentar o peso do mercado interno, taxando o capital externo.
“O presidente Lula manteve a hegemonia do capital financeiro e a autonomia do Banco Central, ainda que tenha retomado o papel do desenvolvimento. Sem abandonar a conciliação, a aliança de classes, sem deixar de ser parênteses do modelo internacional, o governo Lula não será alternativa de um novo modelo”, criticou.
Na análise do sociólogo, a atual crise surge em um período de relativa estabilidade no cenário internacional, ainda comandado por uma potência hegemônica, os Estados Unidos. “Existe uma turbulência prolongada sem resolução previsível, mas qualquer resolução será de alternativas dentro do capitalismo, sem ruptura. Portanto, o capitalismo não acaba com a crise”, disse Sader.
Sua opinião é compartilhada por outros especialistas que participaram do seminário. “Estamos diante de uma crise do capitalismo, mas isso não quer dizer que o sistema vai acabar. Os Estados Unidos e a Inglaterra devem preservar sua hegemonia e recompor seu sistema”, afirmou Jorge Beinstein, economista, professor na Universidade de Buenos Aires e membro do Partido Comunista da Argentina.
De outro lado, a crise despertou reações protecionistas em vários países, já que muitas das nações desenvolvidas amargam alta do desemprego e fechamento de fábricas. “Precisamos enfrentar o avanço da direita, da xenofobia, do protecionismo. Um exemplo é a força demonstrada pela direita na disputa pelo Parlamento Europeu (leia análise à página 25). A saída precisa ser pela esquerda”, observou Artur Henrique, presidente da Central Única dos Trabalhadores (CUT).
Artur lembrou que, no início de junho, mais de 125 milhões de europeus votaram para eleger seus representantes no Parlamento. A centro-direita teve vitórias claras na França, Alemanha, Itália e Polônia, enquanto partidos extremistas de direita tiveram bom desempenho em vários países, como Holanda, Áustria, Dinamarca, Eslováquia e Hungria.
Para Avtar Sadiq, secretário dos Indianos Comunistas na Grã-Bretanha e membro do Partido Comunista da Índia, a ausência de uma alternativa política socialista relevante no xadrez das negociações internacionais faz com que o capitalismo possa reemergir mais uma vez da crise, com novos expropriadores que destroem uma parte das forças de produção para criar outros meios de lucratividade própria, em vez de utilizar esses recursos para o bem-estar das pessoas.
“Esse é o verdadeiro caráter desumano do capitalismo. É preciso avançar na emancipação social no mundo, e isso requer a intensificação das lutas de classe”, enfatizou Sadiq.
Nesse cenário, a esquerda deve se unir para apresentar propostas que possam representar alternativas concretas para a ampliação de propostas sociais. “Corremos o risco de ficar nos debatendo com a proposta que já é chamada de socialdemocracia global, que nada mais é que mais do mesmo, porque não entra na discussão realmente importante para o Brasil e para mundo, que é criar um novo paradigma, um novo modelo.
E porque não enfrenta questões essenciais, como o cancelamento das dívidas externas dos países, uma nova matriz energética, a implementação de uma renda cidadã mundial e a garantia do emprego decente”, disse o presidente da CUT.
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