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Número 35, Maio 2009

esporte

Do tamanho do Rio ou do Brasil?

Clubes cariocas tentam driblar as dificuldades financeiras para provar que podem fazer bonito não só no Estadual, mas também no Brasileirão
por Fernando Gavini publicado , última modificação 07/03/2018 11h20
Clubes cariocas tentam driblar as dificuldades financeiras para provar que podem fazer bonito não só no Estadual, mas também no Brasileirão
Celso Pupo/FOTOARENA/Folha Imagem
Torcida

Torcida do Flamengo durante Fla-Flu pela Taça Rio, segundo turno do campeonato estadual: foi em 1992 que o time carioca se tornou campeão brasileiro pela última vez

Mais de 60 mil torcedores no Maracanã nos jogos decisivos e com Botafogo, Flamengo, Fluminense e Vasco disputando palmo a palmo o título de campeão. O Estadual do Rio de Janeiro empolgou como há muito não se via. Os quatro grandes dominaram o campeonato e não deram chances aos pequenos. O Resende só se intrometeu na semifinal da Taça Guanabara porque o “tapetão” tirou seis pontos do time de São Januário por causa da escalação irregular do meia Jéferson.

O domínio dos quatro principais clubes não acontecia no Rio de Janeiro dessa maneira desde 2001, quando o Flamengo foi campeão, vencendo o Vasco na final, o Botafogo foi o terceiro e o Fluminense o quarto. Em 2008, os quatro também chegaram às semifinais tanto da Taça Guanabara quanto da Taça Rio, mas o campeonato não foi disputado em igualdade de condições, já que os pequenos não puderam enfrentar os grandes no próprio estádio.

Há oito anos os cariocas não terminavam tão bem o Estadual. O Flamengo superando muitas dificuldades, o Botafogo ressurgindo das cinzas, o Fluminense apostando em estrelas como Fred, Thiago Neves e Carlos Alberto Parreira e o Vasco, apesar da goleada sofrida na semifinal da Taça Rio, fazendo uma campanha muito melhor do que o mais otimista de seus torcedores acreditava ser possível depois do rebaixamento do clube para a Série B do Campeonato Brasileiro – por onde já andaram o Fluminense, no final da década passada, o Botafogo, em 2003, e com a qual o Flamengo andou flertando várias vezes, safando-se nas rodadas finais. 

É justamente o fracasso dos clubes de maior torcida do Rio no cenário nacional que deixa torcedores e críticos ressabiados. O último a triunfar na primeira divisão do Brasileiro foi o Vasco, em 1997 e 2000. Este século, portanto, é de jejum na principal competição. A situação chama a atenção do mundo do futebol porque, afinal, trata-se de times populares em todo o país. O mais popular cantor brasileiro, por exemplo, já torceu por três deles. Roberto Carlos começou nutrindo simpatia pelo Flamengo, virou botafoguense e acabou adotando o Vasco – isso tudo quando vivia em Cachoeiro do Itapemirim, cidade do interior do Espírito Santo, que tinha lá seus próprios times de tradição.

Será que agora o bom futebol jogado pelos grandes cariocas no Estadual os credencia a disputar o mais importante título nacional?

Pé atrás

“É difícil dizer isso agora, mas o Estadual engana demais”, afirma o jornalista Fernando Calazans, colunista do jornal O Globo. “Diferentemente do que aconteceu nos últimos dois anos, não acredito que nenhum time do Rio tenha condições de brigar para ser campeão brasileiro”, sentencia Paulo Vinícius Coelho, o PVC, colunista da Folha de S.Paulo.

A opinião do jornalista justifica-se nos problemas financeiros comuns aos quatro: “Flamengo e Fluminense esbarram na fuga da realidade. Os dois têm elencos caros e,  por causa disso, dificuldades para manter em dia os pagamentos. Muitos problemas começam com o atraso de salários. Por outro lado, o Botafogo adotou uma política pé-no-chão para não ficar em dívida com o elenco, mas isso significa time modesto. No máximo, vão conseguir namorar vaga para a Libertadores”.

A fragilidade financeira dos clubes do Rio de Janeiro ficou comprovada no fim de 2008. O êxodo de jogadores foi grande, mas o destino não foi o exterior. O único atleta que foi jogar fora do país foi Thiago Silva, contratado pelo Milan. O São Paulo levou Washington, Arouca e Júnior César do Fluminense, Wagner Diniz do Vasco e Renato Silva do Botafogo, que ainda perdeu para o Corinthians Túlio e Jorge Henrique –  além de seu artilheiro Wellington Paulista, para o Cruzeiro –, enquanto o Santos ficou com Lúcio Flávio e tirou Madson de São Januário.

O único que não perdeu jogadores para os paulistas foi o Flamengo, mas os problemas rubro-negros começaram na virada do ano. Com uma dívida que beira os R$ 300 milhões, o clube não conseguiu renovar o contrato de patrocínio com a Petrobras por não ter as certidões negativas de débito necessárias para assinar com a estatal, que já havia acertado o valor de R$ 14 milhões para 2009.

A parceria de 25 anos acabou e o Flamengo corre atrás de um novo patrocinador. Sem o dinheiro da Petrobras e com cotas da televisão de 2009 adiantadas, a situação ficou caótica. Marcelinho Paraíba não aguentou os salários atrasados e transferiu-se para o Coritiba. “Acreditei na diretoria, que prometeu cumprir tudo o que foi combinado no meu retorno. Mas as coisas não aconteceram como eu esperava. Estava na Europa com a minha vida estabilizada e só aceitei jogar no clube porque sou flamenguista”, lamentou o meia.

O clube da Gávea encontra ainda dificuldade para segurar seu principal jogador, o meia Ibson, cujos direitos federativos pertencem ao Porto. O clube português não quer prorrogar o empréstimo, que expira no meio do ano, e os R$ 12 milhões exigidos para negociá-lo em definitivo são muita coisa para os padrões da Gávea.

Se a falta de patrocinador atormenta os flamenguistas, a presença de um parceiro forte salva o Fluminense. A Unimed garantiu a contratação de Fred e a volta de Thiago Neves. A empresa paga o salário de 20 dos 32 jogadores do elenco tricolor, e é aí que reside o problema.

O salário de quem recebe pela Unimed está sempre em dia. Já quem depende do clube para receber corre o risco de ficar a ver navios por alguns meses. Foi o que aconteceu com o lateral-esquerdo Leandro. Contratado em janeiro, só foi receber pela primeira vez em março. “Isso cria um desequilíbrio muito grande dentro do grupo de jogadores”, analisa PVC. Fred trocou o Lyon, da França, pelo Fluminense para receber nas Laranjeiras R$ 450 mil mensais, pagos religiosamente, enquanto outros jogadores penam para ver a cor de valores bem menores.

Pé no chão

Para problemas desse tipo, o Botafogo optou por um caminho completamente diferente. O Alvinegro terminou 2008 com quatro meses de salários atrasados. Na reta final do Brasileirão, quando ainda sonhava com uma vaga na Libertadores, perdeu Carlos Alberto, que rescindiu o contrato quando chegou a 90 dias sem receber.

Para 2009, o presidente Maurício Assumpção assumiu o posto no lugar de Bebeto de Freitas, que deixou o cargo em dezembro, e apostou numa política de contenção de despesas. “Era a única maneira de tornar o Botafogo viável. Não tínhamos alternativa.”

A primeira medida foi reduzir os gastos com o futebol. Dos R$ 2,6 milhões mensais de 2008, o valor caiu para R$ 1,6 milhão. A economia vai chegar a R$ 12 milhões ao final de 2009. Para isso acontecer, o clube perdeu jogadores importantes. Mas contou com o olhar clínico do técnico Ney Franco para trazer atletas bons e baratos. O time achou Victor Simões na Coreia do Sul e o atacante revelado pelo Figueirense não só deu conta do recado como fez muitos gols. Assim como Maicosuel, que, depois de uma temporada apagada no Palmeiras, começou a brilhar em General Severiano. Além disso, recuperou Juninho, que teve um ano ruim no São Paulo, trouxe Reinaldo para ser a estrela da companhia, e apostou em caras desconhecidas como Fahel, Wellington, Batista e Léo Silva, que deram boa resposta dentro de campo.

O diferencial do Botafogo? Os jogadores têm hoje a certeza de que no final do mês vão receber o combinado, mas só isso não basta para entrar no Brasileirão em condições de brigar pelo título.

O clube que deve ter a vida mais tranquila em 2009 é o Vasco. O objetivo da temporada é retornar à primeira divisão do Campeonato Brasileiro, e a campanha feita no Estadual credencia a equipe. “O Vasco vai subir. Talvez não seja tão tranquilo quanto foi para o Corinthians, mas o Vasco sobe. O clube fez uma aposta certa no Dorival Júnior”, acredita Paulo Vinícius Coelho.

Depois de uma estreia muito ruim, quando perdeu para o Americano por 2 a 0, o Vasco embalou seis jogos de invencibilidade na Taça Guanabara e só não se classificou por causa do erro cometido pela direção na inscrição de Jéferson, que ocasionou a perda de seis pontos. Na Taça Rio, o time foi arrasador. Venceu todos os oito jogos da fase de classificação, inclusive contra Flamengo (2 a 0) e Botafogo (4 a 1), e só caiu na semifinal com uma dura derrota por 4 a 0 para o Botafogo.

O que pode atrapalhar são os problemas extracampo. As dificuldades financeiras também são muitas. No fim de 2008, um contrato salvador de patrocínio foi anunciado. A Eletrobrás aceitou estampar sua logomarca na camisa cruz-maltina. Mas o clube demorou mais de quatro meses para conseguir as certidões negativas para que o contrato, no valor de R$ 14 milhões anuais, pudesse entrar em vigor.

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