Especial
A outra guerra da Colômbia
Patrocinadas por forças econômicas que mandam no país há 60 anos, paramilitares de extrema direita expulsam pessoas, separam famílias, eliminam ativistas sociais, arrasam a democracia e os direitos humanos
Por: João Correia Filho
Publicado em 01/12/2008
Willian Guzmán, do Sindicato dos Trabalhadores da Indústria de Alimentos, vê ligações entre Uribe, seus aliados políticos e os parlamentares (Foto: João Correia Filho)
Nono andar do edifício Caxdac, região central de Bogotá. Tenho as bolsas revistadas e passo por um detector de metais para chegar a uma ante-sala com uma porta de aço e uma pequena janela. A visão através dos vidros à prova de balas, esverdeados de tão espessos, é turva. A secretária tem contato com o mundo por uma gaveta em que mal cabe sua mão, por onde entram e saem documentos. As paredes são de metal, do chão ao teto. Parece que estou num cofre, num banco, ou num presídio de segurança máxima. Mas não. Esse aparato é necessário para proteger a vida dos funcionários da Central Unitária dos Trabalhadores (CUT) da Colômbia, que há mais de duas décadas são alvo de assassinatos por parte de grupos paramilitares de extrema direita. Uma realidade pouco conhecida no Brasil e no resto do mundo, mas que resultou em quase 2.700 mortes desde 1986.
As cifras aterrorizam a população, põem os sindicalistas em alerta e revelam um país mais complexo do que o visto nos noticiários, com foco fechado em dois personagens da guerra civil colombiana. De um lado, o governo do presidente Álvaro Uribe, no poder desde 2002; de outro as Forças Armadas Revolucionarias da Colômbia (Farcs). No entanto, falta nesse cenário justamente esse outro importante personagem: os grupos paramilitares de extrema direita, implacáveis com pessoas ligadas aos movimentos sindical e sociais. Criados a pretexto de “combater a guerrilha”, não toleram nenhuma força de oposição e atuam como guardiões clandestinos dos grupos econômicos que mandam na política colombiana há 60 anos.
As Farcs nasceram nos anos 1960 como organização armada de orientação socialista, a exemplo de outros grupos em diversos países latino-americanos, inspirados no êxito da revolução cubana. Quando começaram a avançar e ocupar áreas do interior do país, a iniciativa privada começou a se armar, criando exércitos paralelos de “autodefesa”, mantidos por empresários (a maioria ligada a multinacionais) e latifundiários. O grupo mais conhecido, Autodefesas Unidas da Colômbia (AUC), foi comandado por Carlos Castaño, um dos mais importantes líderes paramilitares do país, morto em 2004. Mais tarde, surgiram outros, como os Águias Negras e o Bloco Norte, responsáveis, junto com a AUC, pela maioria das mortes de sindicalistas em todo país. Para essas milícias, não há distinção entre guerrilheiros clandestinos, movimentos trabalhistas ou qualquer organização que reivindique alguma justiça social.

- Fax, carta, telefonemas. Gilberto Martínez Guevara, da executiva da CUT colombiana, já foi ameaçado de morte de todas as formas e inúmeras vezes (Foto: João Correia Filho)
Numa sala da CUT em Bogotá, Alberto Vanegas, diretor de Direitos Humanos da central, fala sobre os números alarmantes: “Nos últimos 20 anos, tivemos uma média de um sindicalista morto a cada três dias, de diversas categorias, quase sempre de forma brutal. Isso sem contar as vítimas de tortura, massacres, desaparecimentos e expulsões”. Os 42 assassinatos executados até o final de setembro já superaram os 39 cometidos durante todo o ano passado, interrompendo um movimento de queda que já durava uma década. Segundo a Escola Nacional Sindical de Medelim, as piores estatísticas encontram-se na década de 90, quando se intensificaram os conflitos no país – foram 275 assassinatos em 1996. “Um verdadeiro genocídio político”, define Vanegas.
Estima-se que hoje existam cerca de 30 mil paramilitares, dois para cada guerrilheiro das Farcs, todos à margem da lei e na briga pelo controle do narcotráfico, maior fonte financiadora dos dois lados. Para esquentar ainda mais o caldo, o Exército colombiano, apoiado pelos Estados Unidos no combate às drogas, é freqüentemente acusado de fazer corpo-mole quando o combate é com os paramilitares.
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