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Número 28, Outubro 2008

esporte

Eles podem tudo

Os Jogos Paraolímpicos mostraram que vontade e potencial para vencer, muito além do esporte, são coisas da vida
por Xandra Stefanel, Revista do Brasil publicado , última modificação 28/11/2017 11h06
Os Jogos Paraolímpicos mostraram que vontade e potencial para vencer, muito além do esporte, são coisas da vida
Pedro Rezende/cpb
lucas

Lucas perdeu a visão em 2006

As Paraolimpíadas não haviam sequer começado e o Brasil já batia recordes: foram a Pequim 188 atletas para disputar medalhas em 17 das 20 modalidades. Em Atenas-2004 foram 99 competidores em 13 categorias. Mais que dobrou a representação feminina, de 22 em 2004 para 55 neste ano. Foi a quarta maior delegação dos Jogos, atrás apenas de China, EUA e Reino Unido. O Comitê Paraolímpico Brasileiro (CPB) comemorou a substancial melhora no desempenho. Foram 16 medalhas de ouro, 14 de prata e 17 de bronze, que deixaram o país no 9º lugar no ranking (14º em Atenas, com 14 de ouro e 33 no total). O secretário-geral do CPB, Andrew Parsons, observa que o país conquistou medalhas inéditas em algumas modalidades. “Foi a nossa maior participação nos Jogos”, resume.

As praças esportivas foram as mesmas das Olimpíadas, algumas semanas antes, adaptadas para os atletas cadeirantes, cegos e com paralisia. O público lotou praticamente todas as provas. Pela distância e o custo da viagem, a torcida verde-e-amarela não passava de alguns poucos gatos pingados, mas a simpatia e o desempenho dos atletas conquistaram a energia e a vibração dos chineses. A maioria dos triunfos brasileiros veio das pistas de atletismo do Ninho do Pássaro e das piscinas do Cubo D’água.

O nadador Daniel Dias, que nasceu com malformação congênita, subiu ao pódio oito vezes, cinco no topo. Daniel disse à Revista do Brasil que só se sentia nervoso quando, debaixo d’água, ouvia os chineses gritando. “Era sinal de que eles estavam na frente e eu usava isso para dar o máximo e vencer a prova. E eles aplaudiam muito quem ganhava, mesmo que não fosse chinês. Era muito legal.” Nascido em Campinas (SP) e crescido em Camanducaia (MG), Daniel, de 20 anos, começou a nadar há quatro. No colégio, adorava Educação Física, mas só descobriu o esporte paraolímpico quando viu os jogos de Atenas. “Eu não fui criado como deficiente, cresci com meus colegas de escola, igual. O esporte me ajudou em auto-estima, autoconfiança e percebi que era muito capaz. Depois de dois anos nadando consegui patrocínio. Antes tinha só ‘paitrocínio’. Fico imaginando quantos pais não podem ajudar os filhos que, por isso, nunca vão conhecer o esporte”, lamenta.

O velocista Lucas Prado, de 23 anos, não nasceu com deficiência. Perdeu a visão em 2006, depois de um descolamento de retina que sofreu quando trabalhava em um banco. Foi dele o primeiro ouro brasileiro em Pequim. Considerado o deficiente visual mais rápido do mundo, fez balançar as arquibancadas do Ninho de Pássaro por três vezes, ao lado de seu guia Justino Barbosa. Quebrou os recordes mundiais nos 100 e nos 200 metros na categoria T11, para corredores totalmente cegos. E nos 400 metros faturou seu 3º ouro. O impulso veio de Terezinha Guilhermina, que o apresentou ao esporte e o encorajou. Ela também tem o título de cega mais veloz nos 100 e nos 400 metros. Em Pequim, levou prata e bronze, respectivamente, além do ouro nos 200 metros. Desta vez, a mineira teve companhia familiar. Terezinha tem 11 irmãos e outros quatro são cegos. Dois deles estavam nas competições com ela, que já sonha com vôos ainda mais altos agora em família.

Alto também voaram os dardos de Roseane Ferreira dos Santos, a Rosinha. A pernambucana de 37 anos teve a perna esquerda amputada depois de um atropelamento, o que não diminuiu sua determinação. Ao contrário. Trocou a profissão de doméstica pelas competições de lançamento de disco, dardo e arremesso de peso. Em Sydney-2000, sua primeira paraolimpíada, alcançou no arremesso de peso seu primeiro recorde mundial. Em Atenas-2004, repetiu o feito no lançamento de disco.

Mais do que bons resultados, um dos objetivos dos jogos que reúnem pessoas com deficiências é justamente ajudar a promover a inclusão. Os Jogos Paraolímpicos são realizados desde a edição de Roma-1960 das Olimpíadas. Passaram um longo período à margem e, desde Seul-1988, estão definitivamente incorporados ao calendário esportivo mundial. “Essas pessoas têm muito mais potencial do que se imagina, e se têm esse desempenho fenomenal na prática esportiva, por que não podem ter uma vida normal, casar, ter filhos e trabalhar? Os Jogos são uma forma também de conscientizar”, diz Parsons, do CPB. “A inclusão é possível. Só falta as pessoas perceberem que, mesmo com limites, podemos fazer tudo. Estar aqui entre os melhores do mundo é uma grande vitória”, define Daniel Dias.

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