Pasquale
Trânsito lento para a Barra
Certa vez, O Globo publicou na primeira página a frase que está no título desta coluna. Como se deve ler essa manchete?
Por: Pasquale Cipro Neto
Publicado em 01/08/2008
De início, é bom dizer que o jornal acertou, como também teria acertado se tivesse publicado “pára” no lugar de “para”. Então tanto faz? Não. “Pára” é bem diferente de “para”. O que temos aí é um dos (poucos) casos em que se aplica o acento diferencial de tonicidade. O que é isso? A preposição “para” é considerada palavra átona, o que implica dizer que nenhuma de suas duas sílabas é tônica; a forma verbal “pára” é paroxítona, ou seja, sua sílaba tônica é a penúltima. “Pára” e “para” se escrevem com as mesmas letras, mas só uma tem sílaba tônica. Excepcional nesse caso, o acento agudo diferencia a palavra que tem sílaba tônica (a forma verbal “pára”) da que não tem (a preposição “para”).
Com a preposição, o jornal indicou que quem se dirige à Barra encontra trânsito lento. Com a forma verbal “pára”, informar-se-ia que a Barra estaria parada por causa do trânsito lento. Às vezes, um mísero acento faz muita diferença. É bom insistir num ponto: o acento diferencial é excepcional. Palavras como “cara”, “vara”, “tara”, “ira”, “sara” e tantas outras paroxítonas terminadas em “a” não são acentuadas. A forma verbal “pára” só recebe acento porque é necessário diferenciá-la da preposição.
Já que falamos da preposição “para”, é bom trocar duas palavras sobre a forma “pra”, definida pelo Aurélio como contração da preposição “para”, e pelo dicionário de Caldas Aulete como “forma abreviada de para”. Nada de radicalismos em relação a “pra”, por favor. Não faltam em nossa literatura (e na portuguesa também) exemplos do emprego de “pra” no lugar de “para”. O “Aurélio” cita este, entre outros: “Deixa-me os lábios teus, rubros de encanto, / Somente pra os meus beijos” (Junqueira Freire, Contradições Poéticas).
Em linguagem escrita formal culta, ou seja, em textos técnicos, científicos, acadêmicos, jurídicos etc., não ocorre o emprego de “pra”. Não se aconselha, pois, que se escreva “pra”, por exemplo, num artigo jornalístico em que se discutam as razões da crise do setor energético. A mesma observação cabe para as demais contrações de “para” com os artigos, de que resultam as formas “pro”, “pra”, “pros”, “pras”.
Alguns autores entendem que é tônico o “pra” que resulta de “para” (ou “pra”) + “a”, o que justificaria o emprego do acento agudo (“prá”). O dicionário Aurélio é um dos que defendem essa posição: “A rigor, constituindo, como constitui, um monossílabo tônico terminado em a, devia ser acentuado”, diz o Aurélio, que faz a observação, mas respeita o que é tido como padrão, ou seja, não registra a palavra com acento, nem no exemplo que dá (“Vou levar uma lembrança pra quem está doente”).
O Vocabulário Ortográfico da Língua Portuguesa, da Academia Brasileira de Letras, registra várias das contrações das preposições com outras palavras, como “dum” (“de” + “um”), “duma” (“de” + “uma”) e “num” (“em” + “um”), mas só dá a “pra” o valor de preposição, equivalente a “para”, apesar de registrar “pro”, que dá como “contração de para e o”.
Em sua Moderna Gramática Portuguesa (edição revista e ampliada), publicada pela Editora Lucerna, do Rio de Janeiro, Evanildo Bechara arrola as duas formações possíveis de “pro”, “pra”, “pros” e “pras” (“para” ou “pra” + “o” etc.). Essa obra do querido professor Bechara, por sinal, é referência obrigatória e deve figurar na estante de quem estuda nossa língua.
É bom confirmar: a forma “prá” não encontra registro, portanto deve ser evitada. Quanto aos diferenciais de tonicidade, o caso de “pára” não é o único. Entre os demais, merece destaque o que se emprega no verbo “pôr”, que o diferencia da preposição “por”. “Vou pôr aqui” é bem diferente de “Vou por aqui”. Em tempo: nada de acentuar os derivados de “pôr”, ou seja, nada de acentuar “depor”, “propor”, “impor”, “repor”, “compor” etc.
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