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Número 27, Agosto 2008

saúde

Devagar com as vitaminas

Trocar alimentação adequada por cápsulas e cápsulas de suplementos pode pôr a saúde em risco
por Cida de Oliveira publicado , última modificação 22/11/2017 17h40
Trocar alimentação adequada por cápsulas e cápsulas de suplementos pode pôr a saúde em risco
mauricio morais
vitaminas

Sair bem cedo sem tomar o café-da-manhã, trabalhar o dia todo, fazer faculdade à noite, usar a hora do almoço para estudar, voltar para casa tarde, não jantar e varar várias noites estudando. A rotina que a estudante paulistana Jecileide Andrezza Araújo, 21 anos, passou a enfrentar logo que entrou na faculdade a fez perder 10 quilos em menos de três meses. Nos fins de semana só dormia, e não sobrava tempo para comer. Quando vieram tontura, fraqueza, cansaço, sonolência e queda no rendimento, Jecileide decidiu procurar um médico. O exame de sangue revelou que estava bem perto de complicações, como anemia, por causa da falta de vitaminas e minerais. Uma especialista prescreveu primeiro suplemento vitamínico do complexo B. Dois meses depois, sulfato ferroso. A partir daí melhoraram o apetite e a alimentação. Aos poucos o peso se normalizou e os suplementos foram suspensos.

Hoje, passados três anos, Jecileide toma “preventivamente”, por sua conta, uma colher de um conhecido estimulante do apetite à venda em farmácias sem necessidade de receita. “Quando percebo que estou na correria e sem comer direito, apelo para o tônico”, admite, confessando já ter tomado também outro complexo vitamínico por indicação de parentes que não são médicos.

Infelizmente, a maioria das pessoas que recorrem às popularmente chamadas “vitaminas” é como essa Jecileide movida a indicação de leigos ou iniciativa própria, e não como aquela Jecileide que melhorou depois de recorrer a especialistas. Nas farmácias, na tevê, na internet, em revistas e no chamado marketing de rede, é muito comum a oferta de compostos que prometem vida longa, juventude, disposição, resistência e proteção ao organismo. E tome vitaminas de todas as letras, minerais, cartilagens de vários tipos de peixe, extratos de vegetais e outras panacéias que não são exatamente investigadas pela ciência – no máximo demonstraram durante testes alguns efeitos benéficos. Tudo sem receita médica.

Ao contrário da crença popular forjada pela publicidade de uma indústria que fatura alto, pesquisas científicas advertem para os riscos da ingestão descontrolada de vitaminas e minerais. Uma delas, divulgada recentemente, mostrou que algumas doenças perigosas podem ser potencializadas pelo uso indiscriminado desses medicamentos. Chefiados por Goran Bjelakovic, do Hospital Universitário de Copenhague, na Dinamarca, pesquisadores estudaram 67 artigos científicos em que o uso de vitaminas por adultos foi comparado ao do placebo (substância inócua, usada em testes). Descobriram também que os suplementos vitamínicos não prolongaram a vida de quem buscou longevidade nas sintéticas vitaminas A e E, no betacaroteno e no mineral selênio – tidos como poderosos antioxidantes.

“Em excesso, alguns suplementos passam a ter ação pró-oxidante, em vez de antioxidante”, explica a nutróloga Eline de Almeida Soriano, professora da Faculdade de Medicina da Universidade Estadual Júlio de Mesquita Filho (Unesp), em Botucatu (SP), e diretora da Associação Brasileira de Nutrologia.

A pesquisa dinamarquesa trouxe discussões. De um lado, as indústrias criticaram o estudo. De outro, cientistas apontaram descontrole na comercialização e na falta de rigor nos testes toxicológicos feitos para esses produtos. O fato é que, se há estudos mostrando que as deficiências vitamínicas e minerais facilitam o aparecimento de diversas doenças, sobram também pesquisas dando como improvável a prevenção de muitos males por meio dessas substâncias sintetizadas em laboratório. Entre médicos e nutricionistas, a certeza é de que uma dieta equilibrada, incluindo frutas, verduras, legumes, carnes, grãos integrais e pouca gordura – evitando-se as de origem animal –, supre o organismo de todos os nutrientes necessários ao seu bom funcionamento.

É claro que existem situações em que, por alguma razão, vitaminas e minerais não estejam sendo ingeridos através dos alimentos e se tornam necessárias doses extras. Na infância e na adolescência, o desenvolvimento ósseo exige mais cálcio; durante a gravidez, o ácido fólico é fundamental para o desenvolvimento do tubo neural (que recobre a medula espinhal) do bebê; depois dos 60 anos de idade, há redução da capacidade de absorção de vitamina D e cálcio; ou até mesmo em casos de queda acentuada de cabelos ou de unhas quebradiças. “Em todos esses casos, porém, só o médico pode prescrever vitaminas ou minerais adequados e dosagens seguras e eficazes”, diz a nutróloga da Unesp.

Vitamina Boa para Fontes Se faltar, pode causar Excesso
A Visão, pele e sistema imunológico; favorece o crescimento e a fertilidade Óleo de fígado de peixe, fígado, rim, ovo, leite, óleo de dendê, cenoura, couve, espinafre, manteiga Cegueira noturna, alterações cutâneas Dor e fragilidade óssea, hidrocefalia e vômitos em crianças, pele seca, unhas frágeis, perda de cabelo, gengivite, anorexia, irritação, fadiga
B1 ou tiamina Leva oxigênio às células e atua no metabolismo de carboidratos, gorduras e proteínas Carnes bovinas, suínas, aves, vísceras, gema de ovo e os grãos integrais Beribéri, cujos sintomas são fadiga, instabilidade emocional, anorexia, retardamento do crescimento O que não é absorvido acaba expelido pelos rins
B2 ou riboflavina Conservação dos tecidos do corpo e saúde ocular Leite, queijo, carnes (em especial fígado), ovos, hortaliças de folhas verdes, cereais integrais e legumes Lesões na língua, lábios, nariz, olhos e pele, hipersensibilidade à luz e vascularização intensa Excessos são eliminados pela urina
B6 ou piridoxina Metabolismo dos aminoácidos e sua conversão em niacina – mostrando como uma vitamina depende da outra Levedo, germe de trigo, carne de porco, fígado, cereais integrais, legumes, batata, banana e aveia Lesões em torno dos olhos, nariz e boca, inchaço nos membros superiores e inferiores e anemia
Formigamento nas mãos e redução da audição
B12 Funcionamento de células do sistema digestivo, medula óssea e cérebro Fígado, rim, leite, ovos, peixe, queijos e carnes Interferência no crescimento, anemia e outros distúrbios sangüíneos e gastrintestinais Podem ocorrer lesões no sistema nervoso central
C ou ácido ascórbico Integridade dos pequenos vasos sangüíneos e dos tecidos, formação dos dentes e ossos, facilita absorção de ferro, aumenta a resistência a infecções Frutas cítricas, vegetais folhosos, pimentão, tomate, batata, goiaba, caju, manga, morango, mamão Escorbuto (hemorragias freqüentes, dentes frouxos, gengivas inchadas, dores nos ossos e articulações), cicatrização retardada de feridas Cálculos renais. Muitos produtos vendidos têm até 35 vezes mais que a quantidade tolerada
D Essencial para a formação óssea Óleo de fígado de peixe, manteiga, fígado, gema de ovo, leite, salmão, atum, luz solar Desmineralização do esqueleto. Em crianças, causa raquitismo – ossos mal desenvolvidos Cálculos renais, calcificação nos rins e pulmões, dores de cabeça, fraqueza, vômitos e náusea
E Protege as células da ação dos radicais livres, que em excesso levam ao envelhecimento precoce Germe de trigo, óleos vegetais, vegetais de folhas verdes, gordura do leite, gema de ovo e nozes Fragilidade e outras anormalidades relacionadas aos músculos Altas doses impedem a absorção do ferro presente nos alimentos
K Essencial para a coagulação sangüínea Vegetais verdes folhosos, brócolis, repolho, nabo, alface Hemorragias. Mas são raras As vitaminas K1 e K2 não são tóxicas; a K3 pode causar anemia
PP Atua na produção de energia para as funções do organismo Fígado, carnes, peixes, leguminosas, cereais integrais, leite e ovos Fraqueza muscular, perda de apetite, indigestão, erupções na pele, estomatite, diarréia, dor de cabeça Formigamento nos membros e sensação de latejamento na cabeça
Ácido fólico
Participa do processo de divisão celular e na formação e maturação de hemácias e leucócitos na medula óssea
Fígado, feijão-roxo, fava e vegetais folhosos verde-escuros, como espinafre, aspargo, brócolis, carne magra, batata e produtos com trigo integral Déficit de crescimento, anemia, distúrbios gastrintestinais. Sua carência durante a gravidez pode levar a malformações fetais  
Ácido pantotênico Essencial para a digestão de carboidratos, gorduras e proteínas Presente em todos os vegetais e animais. As melhores fontes são ovos, fígado e salmão Dermatites, sensação de queimação, perda de apetite, náusea, indigestão, estresse Pode causar diarréia
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