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Número 25, Junho 2008

mídia

O custo da especulação

Verdades, meias-verdades e mentiras sobre a inflação. Ou como a mídia está torcendo por um aumento dos juros
por Bernardo Kucinski publicado , última modificação 07/11/2017 11h51
Verdades, meias-verdades e mentiras sobre a inflação. Ou como a mídia está torcendo por um aumento dos juros
Paulo pepe
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A inflação está aumentando. Até o final do ano, seu principal termômetro, o índice de preços ao consumidor ampliado (IPCA), deverá acumular alta de 5,2% a 5,6%, contra a meta de 4,5%. É uma pequena aceleração. Mas algumas manchetes vêm transmitindo um sentido de descontrole total nos preços, confundindo altas excepcionais isoladas de alguns deles, como o do feijão e o do trigo, com alta geral de preços. Carta Capital chegou a estampar em capa o velho dragão cuspindo fogo. Será que o temor se justifica? Em maio houve um choque: o preço do óleo diesel subiu 15% nas refinarias e 8% nos postos. Em seguida os fretes e preços dos plásticos aumentaram entre 4% e 7%. Preços agrícolas no atacado que estavam em baixa em abril voltaram a subir. Os aumentos, de início isolados, disseminaram-se e já atingem seis de cada dez itens das listas de preços.

À medida que se propagaram, os aumentos perderam força. Mas há o perigo de surgir um novo foco inflacionário, por exemplo, se a cotação do dólar subir muito, encarecendo os produtos importados. Pode acontecer, porque o dólar já caiu tudo o que tinha de cair e nossas transações correntes com o exterior mergulharam de repente no vermelho, o que pode provocar uma corrida ao dólar, como a do final do primeiro mandato de Fernando Henrique.

Como lidar com o perigo de um novo foco? A mídia não está ajudando. Tomou o partido dos bancos e evita discutir o essencial: se a inflação é de custos ou de demanda. Pior, insinua que é de demanda, quando tudo indica ser uma inflação de custos. Uma desinformação de graves conseqüências, pois o que é remédio para uma é veneno para a outra. Inflação de demanda combate-se elevando juros. Inflação de custos combate-se cortando impostos e taxas.

A maioria dos comentários dos jornais parece ter o objetivo exclusivo de forçar uma nova alta nos juros, como interessa aos rentistas. Ou forçar o aumento do superávit primário, o que significa cortar gastos do governo, para jogar água fria na economia. Omite-se, de propósito, o fato de que o ritmo de crescimento da economia já está se desacelerando. “A intensidade do crescimento do consumo é hoje uma ameaça ao controle da inflação”, diz, por exemplo, como o ex-presidente do BNDES e antigo ministro de FHC Luiz Carlos Mendonça de Barros.

O presidente do Banco Central, Henrique Meirelles, chegou a anunciar antecipadamente a “próxima bala” – interpretada por todos como um novo aumento de juros. Assustados, até economistas de esquerda defenderam aumento do superávit primário, não por acreditar no remédio, mas para dissuadir o BC de aumentar juros.

A confusão chegou nas estatísticas. No Estadão, Celso Ming aponta altas assustadoras de 53% nos últimos 12 meses no preço de oleaginosas, de 24% no da carne, 16% no do pão, e assim por diante. Mas numa tabelinha da Folha percebe-se que este ano a alta nos preços de alimentos e bebidas foi até agora de 4,4%, muito abaixo da alta de 10,8% nos primeiros quatro meses do ano passado. E o mais respeitado índice de preços mundiais de alimentos, o da Organização das Nações Unidas para Agricultura e Alimentação (FAO), caiu ligeiramente em abril depois de subir 52% em 12 meses.

No governo é consenso, mesmo entre monetaristas que sempre querem elevar juros, de que se trata de uma inflação de custos vindos de fora, e não do excesso de demanda interna. O preço de um barril de petróleo dobrou em um ano, para perto de US$ 130. Além da especulação, há o fato de a extração de petróleo se dar cada vez mais nas plataformas marítimas a grande profundidade, exigindo gigantescos investimentos de capital. Custa menos de US$ 0,01 extrair um barril de petróleo na Arábia Saudita e mais de US$ 10 para extrair o mesmo barril no fundo do mar.

A agricultura passa igualmente por mudanças estruturais. O custo da produção agrícola voltou a subir, puxado pelo aumento de preços dos fertilizantes, de 32% sobre o ano passado, pelo preço da terra também em alta e das sementes, que este ano ficaram 25% mais caras. Petróleo e cartelização são as principais causas da alta nos insumos. Já o preço da terra é puxado pela alta das cotações agrícolas – que vem de fora, e não de um excesso de demanda interna. Nem está havendo falta de oferta interna. A safra de grãos deste ano deverá fechar em novo recorde, de 142,6 milhões de toneladas, superando o de 2007 (de 133,1 milhões).

Nesse cenário de aperto de custos entra o capital especulativo, que conseguiu escapar do colapso da bolha imobiliária americana e migrou sem cerimônia para a especulação com cereais e matérias-primas. As aplicações dos fundos nas bolsas de mercadorias e cereais saltaram de US$ 70 bilhões no início de 2006 para US$ 235 bilhões no início deste ano. Como todos apostam no aumento futuro, o preço negociado a futuro de fato aumenta por efeito multiplicador. Em algum momento essa bolha também vai estourar. Mas o barril de petróleo nunca mais vai voltar a custar US$ 70.

Se a inflação é de custos e importada, o governo está certo em cortar custos internos para amortecer o choque. Se não fosse a redução da tributação sobre os combustíveis, os preços teriam subido mais. O governo também zerou as tarifas de importação do trigo e retirou até dezembro o adicional de 25% sobre o frete desses produtos destinado ao Fundo de Renovação da Marinha Mercante. Esses são os remédios corretos para uma inflação de custos. Também tecnicamente correto, mas moralmente condenável, foi o novo reescalonamento das dívidas agrícolas dos grandes proprietários.

Se a inflação é de custos e importada, como tudo indica, a demanda cairá por si só. A alta nos preços de produtos essenciais como combustíveis e alimentos já deixa menos dinheiro no bolso para outros gastos. Funciona como um confisco. Alguns levantamentos feitos no mês passado já mostram queda no consumo, inclusive de alimentos básicos, como trigo, pão e açúcar.

Além disso, a alta dos juros no Brasil afeta principalmente a compra de bens duráveis que precisam de financiamento, como carros e geladeiras. E os preços desses bens subiram menos de 3% nos últimos 12 meses. Ou seja, também não é a demanda por bens duráveis que está puxando a inflação.

Nessa situação em que já está havendo um pequeno confisco da renda por causa da inflação de custos, e a expansão dos empréstimos consignados elevou o nível de endividamento da população, um aumento de juros pode provocar uma explosão de inadimplência e de falências, derrubar a venda de bens duráveis, provocar demissões na indústria, queda no emprego e travar a construção civil. Nesse caso, os preços todos podem até desabar. Mas cura-se a doença matando o doente. Dando um cavalo-de-pau na economia.

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