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Número 24, Maio 2008

"Em meados do fim de setembro"

Certa vez um site de notícias informou que a cantora X sairia do grupo Y “em meados do fim de setembro”. Isso existe? Embora seja esquisita, a construção merece análise
por Pasquale Cipro Neto publicado , última modificação 06/01/2010 15:19
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Certa vez um site de notícias informou que a cantora X sairia do grupo Y “em meados do fim de setembro”. Isso existe? Embora seja esquisita, a construção merece análise

(Arte: Mendonça)

Pelo jeito, quem redigiu a frase talvez suponha que “meados” seja sinônimo de algo como “aproximadamente”. A palavra “meados”, plural de “meado”, é da família de “meio”, “mear”, “meeiro” etc. “Meado” significa “o que está no meio ou aproximadamente pela metade”, na definição do Houaiss. Leia este trecho de Alexandre Herculano, citado no Aurélio: “No meado do décimo século, posto que esse distrito fosse assaz povoado...”

Quando se diz “em meados de setembro”, faz-se referência aos dias que compõem o meio desse mês (algo que pode ficar entre os dias 14 e 16). Que período seria formado pelos “meados do fim de setembro”? Sabe-se lá! Imagino que a intenção fosse dizer que o desligamento da tal cantora se dará perto do fim de setembro (ou aproximadamente no fim de setembro).

Bem, por falar em “meado”, é bom lembrar que essa palavra nada mais é do que o particípio do verbo “mear”, que significa “dividir em duas partes iguais”, “repartir ao meio”. Assim como o particípio de “passear” é “passeado” e o de “frear” é “freado”, o de “mear” é “meado”. O particípio muitas vezes é usado como substantivo ou adjetivo, fato mais do que comum na língua (o que é a palavra “bebida” senão a forma [feminina] substantivada do particípio de “beber”?).

Talvez você esteja estranhando a falta, em “mear”, do “i” de “meio”. Não estranhe, não. Não é de estranhar essa ausência, já que isso ocorre com todos os pares correlatos (“passeio/passear”, “ceia/cear”, “freio/frear”, “arreio/arrear” etc.). Também não há “i” no particípio dos verbos terminados em “ear” (“arreado”, “ceado”, “passeado”, “freado”, “meado” etc.).

A esta altura, talvez convenha lembrar que também fazem parte da família de “meio” (de origem latina) palavras como “mediar”, “imediato”, “mediador”, “mediano”, “médio”, “medíocre” etc. “Medíocre”, por sinal, perdeu entre nós seu sentido literal de coisa mediana, que tem valor médio etc. No uso vivo, “medíocre” significa “muito ruim”, “abaixo da média”, “inexpressivo”.

E “imediato”? O que significa, ao pé da letra? Trata-se da negação de “mediato”, por isso significa “o que não é mediado”, “o que ocorre sem mediação”. O que é um sucessor imediato senão aquele que não é separado do antecessor por ninguém? Ao pé da letra, uma solução imediata é aquela que vem logo depois da apresentação do problema.

Outro fato que deve ser destacado é que o correspondente grego de “meio” (que vem de “medius”, do latim) é “meso-”, presente em inúmeros termos, muitos dos quais pertencentes a nomenclaturas específicas. Um desses termos é “mesóclise”, que nada mais é do que o emprego do pronome oblíquo átono no meio da forma verbal (“Multiplicar-se-ão assuntos de pés e mãos”, da canção Os Passistas, de Caetano Veloso).

Outro termo em que se encontra o elemento grego “meso-” é “mesopotâmico”, adjetivo relativo à Mesopotâmia, região que corresponde ao atual Iraque. E de onde vem o nome “Mesopotâmia”? De “meso-” e “-potamo” (que também vem do grego e significa “rio”). Não é por acaso que a Mesopotâmia (ou o atual Iraque) fica entre dois rios (o Tigre e o Eufrates). E também não é por acaso que o hipopótamo tem esse nome. O bichinho é simplesmente um “cavalo de rio”.

E pensar que toda essa nossa conversa surgiu de uma simples pergunta sobre “meados”... Mas, se me permitem os leitores, é assim mesmo que deve ser a análise de uma questão: uma coisa se relaciona com outra, que se relaciona com outra, que se relaciona com outra...

Pasquale Cipro Neto é professor de Língua Portuguesa, idealizador e apresentador do programa Nossa Língua Portuguesa, da TV Cultura

 

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