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Número 24, Maio 2008

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Amor de mãe

Ao ver o filho acuado pelas drogas e pela bandidagem, ela enfrentou perigos, incomodou governos e organizou uma associação de mães movida a garra e solidariedade
por Luciana Ackermann publicado , última modificação 01/11/2017 17h21
Ao ver o filho acuado pelas drogas e pela bandidagem, ela enfrentou perigos, incomodou governos e organizou uma associação de mães movida a garra e solidariedade
jailton garcia
Conceição Paganele

Conceição Paganele, viúva, mãe de seis filhos, um deles adotivo, teve a vida chacoalhada no final dos anos 90. Primeiro foi a tristeza de constatar que estaria perdendo um filho para as drogas. Ela conta que procurou ajuda no Fórum da Vara da Infância, no Conselho Tutelar, na imprensa, nos gabinetes de deputados, para que alguém pudesse conter o garoto, oferecendo um tratamento para dependentes. Depois, surgiram as cobranças de traficantes. Por várias vezes, Conceição se enfiou em becos sinistros na Cidade Tiradentes, zona leste de São Paulo, para salvar seu menino e pagar suas dívidas. Perdeu cartões de crédito, talões de cheques, fez empréstimos e caiu nas mãos de agiotas. Mais tarde viria a internação de seu caçula, aos 15 anos, na então Febem, depois de um roubo de carro também a título de quitação de penduras com traficantes.

Na ocasião, a mãe chegou a agradecer a Deus pela internação do garoto, imaginando que ele receberia um tratamento adequado. Acreditava que lá ele teria assistência médica, psicológica e social. Estudaria e passaria por cursos profissionalizantes. Mas logo na primeira visita percebeu que o local mais parecia um campo de concentração. Não tardou a constatar que seu filho se tornava cada vez mais violento, revoltado e ainda dependente químico.

Diante da decepção, Conceição arregaçou as mangas e passou a se juntar a outras mães de internos para se ajudarem a enfrentar a dor de ver os filhos trancafiados piorando diante do tratamento hostil a que estavam sendo submetidos. Daí surgiu, em 1998, a Associação de Mães e Amigos da Criança e do Adolescente em Risco (Amar).

Depois de oito meses de internação, o filho de Conceição deixou a Febem, numa situação ainda mais delicada do que quando lá entrara – e com uma deficiência física nos pés, pela fratura dos dois calcanhares ao tentar fugir no início de uma rebelião.

Nestes dez anos de luta, ela passou noites na Febem, mediou rebeliões, denunciou torturas e maus-tratos, organizou manifestações, transformou-se numa especialista e feroz defensora do Estatuto da Criança e do Adolescente (ECA). Experimentou os diferentes tipos de reação à frente da associação. Em 2001, a Amar chegou a receber o Prêmio Nacional de Direitos Humanos das mãos do presidente Fernando Henrique Cardoso. Dois anos depois, recebeu o mesmo prêmio. O grupo também vem conquistando desde o final de 2002 o apoio da Unicef. Porém, em 2005, a defensora dos direitos humanos passou a ser tratada como inimiga, tornando-se bode expiatório das mazelas da fundação.

Em outubro daquele ano, o então governador de São Paulo, Geraldo Alckmin, criticou publicamente Conceição Paganele e a Amar por sempre “criarem problemas” para o governo. Isso depois de ela denunciar, com provas, casos de tortura e de espancamentos de menores por funcionários e policiais dentro das unidades de internação. Conceição sofreu perseguições e ameaças de morte e de ataques a sua família. Precisou mudar-se de São Paulo e viver sob proteção policial.

Em 18 de abril de 2006, a Corregedoria da Febem, por meio de seu corregedor-geral Alexandre Arthur Perroni, encaminhou representação ao 81º Distrito Policial da capital, acusando Conceição de crimes de dano, incitação ao crime, formação de quadrilha ou bando e facilitação de fuga. Ela passou a ser alvo de investigação da Polícia Civil pela série de crimes. Ao todo, foi investigada em três inquéritos policiais separados, vinculando seu trabalho com recentes rebeliões dentro da fundação. E até hoje ela e demais representantes da Amar e de outras entidades de direitos humanos estão proibidos de entrar na Fundação Centro de Atendimento Socioeducativo ao Adolescente (Casa), ex-Febem, exceto quem tem filho cumprindo medida socioeducativa na instituição.

Mesmo assim, Conceição continua firme e forte à frente da Amar, que oferece apoio às mães de internos. Ela explica que o acolhimento é de igualdade, de olho no olho. “A mãe que tem um filho internado vai sentir que existem outras mulheres com o mesmo problema, com o mesmo sofrimento, tudo isso as fortalece”, garante.

Na associação, além de atendimento psicológico e jurídico aos pais, são desenvolvidos projetos de prevenção à criminalidade entre os adolescentes, como diferentes oficinas e reforço escolar na sede da entidade, na Cidade Tiradentes, onde há 120 crianças cadastradas.

O processo contra Conceição acabou arquivado por falta de provas, mas ela acredita que município e estado estão unidos para boicotar as atividades da Amar, ao engavetar seus projetos sociais e, assim, não repassar os recursos do Fundo Municipal. “Estão querendo minar nosso trabalho, tirar a gente de circulação.”

Porém, ela resiste. Desenvolveu em parceria com outras entidades a cartilha Em Defesa do Adolescente, que oferece uma série de informações sobre os direitos dos adolescentes em conflito com a lei, além de dicas do que as famílias podem fazer para apoiá-los durante o cumprimento de toda a medida socioeducativa. A publicação foi lançada durante a Oficina Nacional de Atualização e Fortalecimento da Defesa do Adolescente em Conflito com a Lei, em fevereiro.

Para a elaboração do conteúdo da cartilha, Conceição passou três meses nas portas das unidades de internação realizando pesquisas com familiares de internos, além de acompanhar as audiências nos fóruns. “Meu filho está com 25 anos, tem duas filhas, trabalha numa cooperativa como pintor, mora sozinho e ainda luta contra as recaídas do vício. Mas conhecendo de perto a dor dessas mães, que também sofrem o olhar de recriminação da sociedade, ficou impossível abandonar a luta.”

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