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Número 22, Março 2008

Pasquale

Número dá algum curso?

Recentemente, um dos grandes jornais do país publicou esta frase: “Número cada vez maior de empresas dão diversos cursos a seus funcionários”. Que lhe parece, caro leitor?
por Pasquale Cipro Neto publicado , última modificação 10/10/2017 10h36
Recentemente, um dos grandes jornais do país publicou esta frase: “Número cada vez maior de empresas dão diversos cursos a seus funcionários”. Que lhe parece, caro leitor?
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Essa frase lembra muitos dos trechos jornalísticos incluídos em questões de vestibulares importantes, como os das diversas universidades federais do país e o da Unicamp. Em algumas dessas questões, pede-se aos candidatos que analisem a dificuldade de compreensão gerada pela má organização sintática. Em outras questões, pede-se ao candidato que reestruture determinado trecho, “dando a César o que é de César”, ou seja, estabelecendo as devidas relações entre os termos que compõem o período.

O trecho jornalístico que aparece logo no início desta coluna parece combinar com o dito popular que se refere a “pôr os pés pelas mãos”. Leiamos a frase novamente: “Número cada vez maior de empresas dão diversos cursos a seus funcionários”. Que lhe parece? A que termo se refere a forma verbal “dão”, flexionada na terceira pessoa do plural? Quem redigiu a frase certamente quis dizer que as empresas dão os tais cursos. O problema é que a palavra “empresas” é subordinada à palavra “número” (pela preposição “de”). Na verdade, o que temos aí é a expressão “número (cada vez maior) de empresas”, cujo núcleo é... Qual é? É ”número”. E será que “o número” de empresas “dão”?

Vamos começar tudo de novo. Parece claro que o número não dá nada, não dá coisíssima nenhuma; quem dá (os cursos) são as empresas. E o que é cada vez maior é o número de empresas (que dão os tais cursos). Salvo engano, o que se quer dizer se traduziria com uma frase muito parecida com esta: “É cada vez maior o número de empresas que dão diversos cursos a seus funcionários” (ou “Não pára de crescer/aumentar o número de empresas que dão diversos cursos a seus funcionários”).

E por que o primeiro verbo (“é” ou “pára”) fica no singular e o segundo (“dão”) é flexionado no plural? Porque o que é cada vez maior (ou não pára de crescer/aumentar) é o número, e “número” é singular. A forma “dão” é posta no plural porque se refere a “empresas”.

Veja outro caso semelhante, também extraído de texto jornalístico: “O número de pessoas que procuraram o serviço no fim de semana ficou abaixo do previsto”. A forma verbal “procuraram” é posta no plural porque se refere a “pessoas”; “ficou” (no singular) se refere a “número”. Afinal, o que ficou abaixo do previsto foi o número (e foram as pessoas que procuraram o serviço).

Bem, voltando à frase inicial, é preciso lembrar que não é possível adotar como proposta de correção algo como “Número cada vez maior de empresas dá diversos cursos a seus funcionários”. E por que não é possível, se o núcleo de “número (cada vez maior) de empresas” é “número”? Já sabemos por quê: não é o número que dá os tais cursos; definitivamente, o número não dá nadinha de nada.

A prática (disseminada no jornalismo) de “enxugar” ou de escrever frases e textos curtos muitas vezes gera “monstrinhos”. A solução é conhecida: nada mais do que a simples (e atenta) releitura. Orações que têm por sujeito expressões iniciadas por palavras como “número”, “nível”, “preço”, “custo” e tantas outras devem ser lidas e relidas com o máximo cuidado, para que não se construam frases como “O preço dos imóveis residenciais caíram” ou “O custo dos gêneros alimentícios subiram”.

No primeiro caso, o verbo deve concordar com “preço”, que é o núcleo do sujeito; no segundo, com “custo”. Teríamos, então, estas construções: “O preço dos imóveis residenciais caiu” e “O custo dos gêneros alimentícios subiu”. Nos dois casos, a presença das formas errôneas (“caíram” e “subiram”) certamente se explica pela proximidade do verbo com termos flexionados no plural (“imóveis residenciais” e “gêneros alimentícios”, respectivamente). É justamente por isso que é necessária a (re)leitura atenta em casos como esses.

Pasquale Cipro Neto é professor de Língua Portuguesa, idealizador e apresentador do programa Nossa Língua Portuguesa, da TV Cultura