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Revista do Brasil - Edição 21 - Fevereiro de 2008

Crônica

O esquerdista do Vietnã

A invasão do Crusp em 1968, as prisões e todos os abusos possíveis tiveram também seu lado cômico, não fosse o saldo trágico deixado

Por: Mouzar Benedito

Publicado em 01/02/2008

O esquerdista do Vietnã

(Ilustração: Mendonça)

Morar no Conjunto Residencial da Universidade de São Paulo, o Crusp, em 1968, era bom demais. A gente se sentia fazendo história, contribuindo para mudar o mundo, pois ali estava um dos principais focos de resistência à ditadura. Outro era a Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras da USP, que não era a mesma coisa que a atual FFLCH. Ainda incluía departamentos como de Física, Pedagogia, Psicologia, Matemática.

Mas veio o Ato Institucional no 5, conhecido pela sigla AI-5, baixado em 13 de dezembro daquele ano, por ironia, anunciado por um ministro da Justiça, Gama e Silva, saído da própria USP. A partir daquele momento, a ditadura se radicalizava. Deixava de existir o habeas corpus e intensificou-se o vale-tudo para a polícia e os militares: invadir residências sem ordem judicial, prender, torturar, matar...

O Crusp, claro, entrou na mira direta da repressão. Quatro dias depois, na madrugada de 17 de dezembro, numa operação de várias polícias e do Exército, o conjunto foi invadido. Cerca de 1.200 estudantes foram presos.

A invasão, as prisões e todos os abusos possíveis tiveram também seu lado que poderia ser chamado de cômico, não fosse o estrago que fizeram. Algumas coisas foram bobagens, como a apreensão de livros “subversivos” que não tinham nada a ver. Ficou famosa a história de um estudante de Engenharia Hidráulica que tinha, entre seus livros, um publicado em espanhol pelo Departamento de Línguas Estrangeiras da Universidade de Moscou. Fora a origem russa, havia mais dois fatos comprometedores: sua capa era vermelha e o título era revelador: “Bombas Hidráulicas”. Deu uma baita encrenca ao dono.

Os estudantes contavam isso gozando, inventando que o mesmo oficial que apreendeu esse livro pegou outro de um estudante de Geologia que morava no mesmo apartamento, mostrou ao estudante de Engenharia e disse: “Por que você não faz como seu colega e lê coisas melhores, mais construtivas, como essa biografia?” O título do livro, em inglês: General Geology.

Outras coisas que as autoridades exibiram orgulhosas aos meios de comunicação (que em sua maioria endossavam a ação dos policiais e militares) foram camisinhas, pílulas anticoncepcionais e um cartaz escrito com pincel atômico por um estudante imbecil com os dizeres “No Crusp não existem virgens”.

Mas teve coisas mais sérias. Para os policiais e militares, naquele lugar só havia comunistas e libertinos, por isso procuravam arrancar confissões malucas dos estudantes. Mas havia de tudo, até moralistas radicais. Pra começar, por opção das próprias moradoras, no Bloco A nunca foi permitida a entrada de homens, nem mesmo de pais de moradoras, que eram recebidos no térreo. Nada de libertinagem.

E havia militantes de direita também. Minoria, mas havia. Tinha um grupo de estudantes de origem asiática no qual só se conversava em seu idioma, para evitar assédio de brasileiros. O problema não era sua nacionalidade – nós, brasileiros, aliás, somos um dos povos mais hospitaleiros do mundo –, mas o fato de serem ultradireitistas e racistas.

Um dos membros desse grupo era daquele tipo que coleciona punhais e outras armas brancas. Toda a parede da sala do seu apartamento era enfeitada com essas armas. Durante o processo de imigração de sua família, o navio fez escala no Vietnã, e ele acabou nascendo em Saigon. Então, em sua certidão constava ter nascido no país que estava em guerra, resistindo aos poderosos Estados Unidos.

Na invasão do Crusp pela polícia e pelo Exército, quando viram aquele monte de punhais na parede, consideraram o sujeito um perigo. Depois viram seu documento... Pronto! Um “esquerdista” pra lá de perigoso! Como não sou politicamente correto, não contenho a ponta de malvadeza, e de riso, ao lembrar o que me contaram sobre o que o jovem racista passou na cadeia.

Mouzar Benedito, mineiro de Nova Resende, é jornalista e geógrafo. Publicou vários livros, entre eles o Anuário do Saci (Editora Publisher Brasil, 2006), ilustrado por Ohi

Tags: crônica




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Comentários

Recordar é preciso

Boas recordações, que memória! Muito interessante a confusão e a falta se visão da parte dos "representantes" (i)legais de um momento que marcou e mudou a história da moral e os rumos políticos do país. Para eles tudo se confundia no processo de mudança cultural e de questionamentos políticos. Mas a história teve seu rumo e nada a deteve. E hoje vivemos uma nova realidade libertária da moral, da cultura, da política. Assim caminha a humanidade, vamos tentando novas possibilidades. Hoje podemos até nos divertir das confusões. Foram tempos difíceis, mas necessários. Glória ao seu espírito observador das ironias da história.

Lygia
Postado por Lygia Terra em 13:07
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